20/09/2014

Nada

A noite é ampla como a vista da sacada do vigésimo andar. Infinitas luzes brilhando em todo lugar até sumir na imensidão do horizonte, mas o pensamento me carrega para um campo vazio onde ninguém pisa há meses. O rocio veste a grama onde as estrelas refletem nesse mesmo orvalho dividindo a luz do sol pela manhã, talvez uma única prova de compreensão de pensamentos. Fecho os olhos e por um momento consigo sentir o cheiro desse vazio, caminho inquieta pela varanda do apartamento me escondendo dos meus próprios pensamentos, mas eles me carregam, me sofrem e me matam aos poucos. Tudo o que eu queria era esquecer o antes, o agora e o depois. Não há mais sonhos que salvem, nunca esperei ser salva por nada e nem ninguém. 
A única coisa que sei é que o mundo está cheio desses espaços vazios entre os abismos e ao mesmo tempo cheio de nada entre as palavras. 

19/09/2014

O oposto da sua elegia em uma possível tarde de primavera

O sol está prestes a se pôr, a luz em tons laranja acende o cobre dos fios dos seus cabelos castanhos, suas pupilas se comprimem na imensidão do coral dos seus olhos e você os fecha com um sorriso largo e tímido. A praça tem o vestígio vivo da primavera e as lágrimas espalhadas sobre a grama embaixo das árvores de pipoca. Escolhemos estar sóbrios em uma tarde de terça-feira. O vento confessa seus redemoinhos em volta do lago e dança com suas mínimas folhas secas de fim de inverno,

vestígio de que a morte só acontece para um novo recomeço.

17/09/2014

Os dias

Meus olhos que queimam
Minhas mãos desenham linhas inquietas
É que carrego música nos ombros e
me levanto da cadeira e olho pela janela
Lua,
tão pura
tão pura
que meus olhos queimam
e minhas mãos tremem
é que carrego o peso dos dias na alma
deito na cama
olho para o teto
e vejo o céu.

Cada um leva os dias a sua maneira.

12/09/2014

A plea for tenderness 

Condenação

Considero o que sinto apenas como prova de demasia. 
Esse lamurio inconsequente que carrego até às pontas dos pés.
Eu não me movo um passo sequer, por isso.
Não me orgulho disso, como bem sabes. 
Mas o colo do pensamento em que me repouso me condena. 
Que pena.
Que pena de mim. 

10/09/2014

Que pesar essa sensação desesperada de me sentir calma. Não importa que dia é hoje, o que me bastaria viver o presente se eu queria estar nas ruas silenciosas do subúrbio daquela cidade fria? Esse futuro que me dói o corpo de tão incerto. Mas amo o desenho do seu nome que me leva a sentir o peito queimar quando pronunciado. 
Que queime essa ânsia das suas mãos largas, o vinho barato na beira do mar, as ondas mudas tocando as rochas daquela ilha e me ilha, isole essa injúria que me inunda a vida. É quando fecho os olhos que sinto seus lábios me invadindo o juízo e sinto que cada pedaço dos meus sonhos, até mesmo os mais antigos, se fragmentam em cada curva da sua essência. 
Arrastados e humilhados em praça pública, que dias rancorosos são esses que não o tenho. Largar o mundo para que o tenha ou tê-lo a custa do mundo, não importa como de praxe me doa, esses gatunos não fazem de mim nada, sou ladra de mim mesma. E venho dia após dia sabotar meu próprio medo, mas não conheço tão bem a coragem, exceto quando sinto minhas lágrimas quentes escorrerem meu rosto de saudade daquele que me falta. Assim espero conhecer Coragem, tampouco efêmera, cada vez mais íntima a cada imagem que me carrega a alma.