Eu queria transportar meus sentimentos juvenis e tudo aquilo que já senti nesse embaraço de presente. Não havia ninguém por lá a essa hora. Sentamos, jogamos nossas mochilas sob a cabeça e logo deitamos. Lado a lado olhando o céu nublado conversamos sobre o último álbum lançado da Hope Sandoval. Uma conversa vazia sobre algo na qual eu não conseguia interagir. Então sentei e tomei mais goles de vinho a ponto de esperar a sensação de embriaguez cair como um raio, mas não caiu. Reparou como as palavras estão lisas nesse exato momento? Isso! Nesse exato momento que eu estou escrevendo ou você está lendo. Ou sabe lá quem esteja lendo, não importa. - "Querido, você consegue sentir aquilo que sentimos há três anos atrás?" perguntei. Ele olhou pra mim, com um olhar sóbrio, sem riso, sem espanto respondendo com outra pergunta: -"Aquilo o quê exatamente?" E eu: "Ah, aquela euforia de quando nos encontramos pela primeira vez, de quando te conheci com o Gustavo e a Thaís e saímos saltitantes por uma rua que nunca passamos completamente bêbados por esse mesmo vinho, lembra?"
- "Ah, eu lembro, foi uma noite incrível. Tentamos invadir uma casa, lembra?"
- "Jura? Disso eu não me lembrava"
- "Sim, dormimos na casa do Enrique, todos no chão do quarto. E eu fiquei com o Enrique aquela noite e acho que alguém apertou sua bunda"
- "Quem apertou minha bunda?!"
- "Ah, o Enrique me formou a isso"
- "Que sacana, sorte de vocês que não percebi. De repente vocês apertaram a bunda da Thaís e acharam que era eu. Mas... aquele dia, assim que cheguei na praia, você estava ficando com a Thaís..."
- "Ah, tava hahaha"
Mas enfim, você sente ainda essa sensação? Está percebendo que estamos aqui, fazendo exatamente a mesma coisa e mesmo assim parece faltar algo? Ele me olhou novamente com aquele olhar vazio, sóbrio e bêbado ao mesmo tempo e respondeu que as luzes continuavam infinitas. Mas as expectativas são menores como as de antigamente. Que os sonhos são mais simples do que antigamente. Assim como nosso senso de imaginação.
Naquele tempo sentíamos tudo com uma intensidade tão desconhecida de quem não sabe o que virá no futuro. E olha pra gente agora... Temos trabalhos, filhos, aluguéis, crises existenciais, vícios, paixões auto destrutivas, tristezas e fobias. Naquele tempo sonhávamos com o agora. E agora? O que esperar do amanhã? A noite continua como sempre é apenas vista por novos olhos.
Terminamos o vinho e jogamos a garrafa na primeira lixeira no caminho pra casa.