Isso aconteceu há anos atrás quando eu ainda morava na beira do cais. Primeiro a gente se cruzou na praia. Era de noite. Praia vazia. Eu estava sozinha e você também estava sozinho. Você não me viu, pois era daquelas pessoas que gostava de ler o mar e se perder no brilho da orla do outro bairro. A segunda vez que nos vimos, pegamos o mesmo transporte público. Você sentou na minha frente e ficou horas conversando com um senhor e quando desceu, se despediu dele com um 'até logo' e em seguida pensou em voz alta: "por que eu disse isso?" - e mais uma vez, você não me notou.
Fiquei dias pensando em como alguém tão sozinho poderia estar perdido na Praia da Brisa? Alguém tão sozinho quanto eu.
Eu não lembro quando nos falamos a primeira vez. As primeiras lembranças que tenho de você é que a gente saiu algumas vezes para fotografar na praia. A gente ouviu músicas no seu quarto e andamos um bairro inteiro bêbados de vinho pensando em invadir uma mansão. Tudo o que lembro de você são flashes do que realmente importou pra mim: você se tornou o meu melhor amigo, fazíamos tudo juntos, compartilhamos segredos, conhecemos os pais um do outro, fizemos amigos novos juntos, bebemos em um colégio vazio a noite, jogamos ouija e sonhávamos que um dia a gente iria enfeitiçar o mundo com poesia. Outra coisa que importou bastante pra mim foi que a gente se afastou. E eu não sei o porquê. E no fundo por que eu deveria me importar? Tudo um dia acaba, mas os sentimentos ficam guardados aqui dentro, como referências dos próximos momentos que ainda vão acontecer. E eu te agradeço muito por isso.