14/01/2015

Eu achei que tivesse deixado o isqueiro com um estranho qualquer que o pediu emprestado no último sábado no bar. Estava na mochila o tempo inteiro, acendi o cigarro e esperei o tempo passar na Ponta Grossa enquanto o ocaso se derramava nas elevações do campo em frente a praia. O horário de verão faz com que a cor do sol tenha um tom mais avermelhado depois das cinco, talvez seja a cidade, talvez seja a baía ou a maré. Lembrei de um punhado de palavras que eu deveria ter jogado aos seus pés, provável que a essa altura você ainda os acalentasse. Fechei os olhos e a praia mudou de cor, ainda com os olhos fechados, as árvores deixaram o tom salmão aquecido e se enriqueceram de verde, vivo e vibrante no meio da paisagem cinza com flores amarelas.
O vi a primeira vez sentado no mirante em frente a praia, cabelos medianos e a barba por fazer, estático, olhando para o nada. Usava uma camisa branca abraçado as próprias mãos, entrelaçava os dedos, ria consigo mesmo. Eu não conseguia dizer se a paisagem azulada recepcionava a noite ou a manhã, o tempo parou ali, congelada em seus olhos desde sempre. Carregada em seus olhos desde sempre, mesmo que nunca tenha me visto.
Andava horas e horas para chegar a tua morada toda madrugada. Colégios públicos, ruas vazias, o cais, botequins e casas abandonadas ou até mesmo os casebres no interior da Suécia. Vilas mal vividas, luzes de natal, neve, o frio congelante, a praça central, o calor excessivo, sino dos ventos, um campo vazio, fogão a lenha, viagem astral, eu estava completamente apaixonada.
Palavras avulsas, em meio a todo desastre natural da vida, seu sorriso. Utopias, promessas quebradas, promessas vazias. Essências do verão na madrugada do subúrbio, eu te carregava.
Depois de me ausentar do mundo em seus braços, eu senti que poderia ir pra qualquer lugar. Como naquela noite em que ouvimos nossa música favorita no seu antigo quarto.
Mas ao mesmo tempo, o turbilhão de coisas que carregamos juntos durante todo esse tempo se mistura com a vontade louca de enriquecer de verdades e mentiras. Metrôs sem saída, o universo, gosto de café sem açúcar, seus medos e orgulhos, ofensas e pessimismos, a falta de fé no amor. Um sentimento me carrega mais do que a mim mesma, um caos, um labirinto, um modo estranho de lidar com a vida, os erros, os acertos, o fim de um novo começo, a ausência de poesia... e nada mais.

Sobre a calmaria pintada no horizonte cada vez mais distante.