Ela espera no ponto entediada, tons alaranjados invadem os eucaliptos em seu horário favorito. O vento sopra como em forma de aviso e não há ninguém na rua às três da tarde. E ela quando fecha os olhos pensa em seu lugar favorito, o campo infinito dos pampas, um destino impagável, apalpável e seu filho correndo de um lado pro outro querendo soltar pipas. E o ônibus chega inteiro de desconhecidos, e ela senta na janela, abre o vidro e ouve Ani Difranco no último volume, ela sorri para as casas que correm, o sol pinta as nuvens de rosa, o céu de laranja e seus olhos de amarelo. E ela deixa o vento bagunçar seu cabelo, e pensa o quão íntimo é ser tocada pelo vento em meio de tanta gente linda, e imagina se essa gente sente o mesmo que ela sente sobre a vida. E ela finalmente chega e dá voltas e ela finalmente volta, o sol em tons vermelhos invadem a praia na volta para casa, ela desceu duas quadras antes porque queria ver o sol se pôr do cais. Ela dançou com o vento, deitou e olhou pro céu e reparou que as nuvens ainda apontam o caminho para o colo dele, como nos velhos tempos em que ela ainda não sabia aonde ele morava.
13/11/2014
Tomou banho e molhou os cabelos, às pressas vestiu o sutiã e a calcinha com cores diferentes. Fez um mês que a mala ainda carrega suas coisas, coisa de gente que a qualquer momento pode partir pra sempre, e ela lembra que finalmente encontrou um lugar que a pertence e encontra um vestido azul de tecido fino, fácil de vestir, sem botões e se veste de praticidade por causa do calor excessivo do Rio de Janeiro. Meias azuis, bota marrom porque foi a primeira coisa que ela encontrou pelo corredor, às pressas, sempre às pressas, e ela lembra que gosta de viver o dia como se a vida inteira durasse apenas vinte e quatro horas. E ela lembra que todas as escolhas que ela fez sozinha foram as mais certas, e ela lembra que precisa ganhar muita grana para a próxima viagem.