Me molhei,
as meias, o casaco e as botas.
Cheguei bem subindo as escadas até abrir a porta do apartamento.
O apartamento mais cheio de coisas vazias,
inclusive eu.
Aí descobri que não estou muito bem, eu não sei porquê. Eu geralmente nunca sei o porquê. Tô começando a achar isso um tédio. Eu com tédio de mim mesma.
Então troquei as meias, o sapato e peguei o mesmo casaco molhado e desci até a praça, há duas quadras do prédio. Soledade tem seu charme Belle Époque no inverno. As folhas secas caídas molhadas de chuva, os postes com luzes azuis e as poças d'água pelo mal relevo do espaço público. Eu-simplesmente-vivi-aqui-antes, por muito tempo e sozinha.
E encontrei três pessoas sentadas nos bancos molhados. Me pediram as horas e puxaram assunto perguntando de onde era já que nunca tinham me visto por ali. Eu estava sem relógio. Eu estava sem tempo e ao mesmo tempo com uma eternidade nos olhos. Falaram seus nomes, suas idades e riram depois de algum tempo por distração minha coisas que já não me lembro. Eu não estava ali. Eu nunca estou aonde estou. A praça é de algum filme antigo de cidade grande na America central. O vento pertence ao subúrbio da Pensilvânia e os latidos dos vira-latas abandonados da noite pertence àquelas famílias felizes de algum filme de comédia dos anos oitenta. Depois de algum segundo eles disseram que iam embora
e começou a chover.
Aí voltei pra casa.