27/04/2017

Tentâmen Sensus IV

ensaio sobre decoro

eu gosto de você
do seu jeito de andar
do seu jeito de mexer o cabelo 
do jeito que você sorri com os olhos
eu gosto da sua teimosia 
da sua falta de lábia
e do seu beijo travado 
eu gosto da maneira como me segura
com seus braços
com seu colo
e o seus olhos castanhos
eu gosto dessa sua tentativa 
de mostrar que sabe o que está fazendo 
mesmo que não saiba de absolutamente nada
eu gosto da maneira como você se encanta
pelas coisas que não são do seu feitio
mesmo que de maneira cega 
não veja que tudo é tão pouco
dentro daquilo que cabe dentro da gente
eu gosto da sua perdição
da sua pretensão 
por querer tão pouco o que ainda não te cabe
e você segue vazio 
por estar tão cheio 
de coisas atravessadas  
mas sim, eu gosto de você 
do que vejo de você
do que espero de você
e do que te sinto
mas por mais que eu goste tanto de gostar de você
sigo meu caminho nos postergando 
por gostar muito menos de você
do quanto eu gosto de mim 

25/04/2017

Tentâmen Sensus III

Enquanto toca Seven Seconds eu vou até a cozinha e preparo um chá. Em três passos eu caminho até o lado mais puro das minhas lembranças: o céu estava calmo depois de desabar seu choro. O subúrbio do Rio de Janeiro recebeu um arco-íris de infinitas cores naquela tarde de primavera. A comunidade nunca foi tão calma. Algumas casas alagadas, alguns corações partidos. Mas o céu nos refletia nosso próprio brilho ultrapassando qualquer casebre malfeito de tijolos. Eu jurava que um dia aquilo tudo ia ter algum sentido em algum momento. Mas o sentido estava ali dentro de mim, o tempo todo esteve e sempre vai estar.

Um arco-íris intenso de infinitas cores dentro do meu peito que repousa nos reflexos das poças d'água que a chuva abriga nos buracos esquecidos pelo chão.

24/04/2017

Tentâmen Sensus II 

De todas as coisas que ocupam a minha mente, insisto em memórias vazias de coisas que até então não tinha nenhuma importância. Ando buscando aquilo que esteja interligado com tudo o que está acontecendo agora. Esse turbilhão de sentimentos revirados e vivos dentro do meu peito, fazendo de mim um mero fantoche dos meus medos, que não consigo controlar; das minhas expectativas, que não consigo deixar passar e por fim, dessa paixão intensa que transborda e sigo desperdiçando com pessoas que não compreendem que tenho pressa. Elas não têm culpa. Eu não tenho culpa.
Eu aprendi a ter compaixão. 

21/04/2017

Tentâmen Sensus I

Saio do escritório as seis e pego a lotação as seis e onze.
Vejo por três dias seguidos uma nebulosa vestida de humano.
Primeiro dia: As cores eram verde com purpurinas azuis.
Segundo dia: Aproximou-se da lua quando pegou a lotação.
Terceiro dia: A nebulosa observara a chuva pensando em Júpiter, mas seu olhar era Plutão.

13/04/2017

Estar sozinha me ensinou que essa coisa de ser livre é pura ilusão. Há quem diga que ter caminhos a percorrer durante uma vida ou uma tarde inteira e não ter que explicar absolutamente nada para ninguém é uma condição de liberdade. As estradas que peguei no caminho entre sudeste e o sul não levaram a lugar nenhum e isso é simples: O caminho está na alma, o ser humano é um parasita, o amor está nas entrelinhas e no fundo, sempre deixamos algo preso em alguém pelos caminhos.

Faz parte do instinto.