Eu espero que, mesmo no silêncio, você continue valseando sobre a vida comigo.
23/08/2014
Quando palavras de salvação não nos cabem mais, penso no que desenhar nas páginas vazias dos últimos dias. O fato é que mesmo dando voltas e voltas em torno de um futuro incerto, a única coisa que resta nessa batida é manter o mesmo ritmo que nos valsa. Às vezes, balanço contra o ritmo. Você assiste e espera. Fecha os olhos para tentar compreender o som mesmo quando a música acaba. E eu sigo o ritmo desenfreado até começar a próxima música.
22/08/2014
O verão em câmera lenta, o cais, o vento, música dos anos oitenta. Olhar a chuva bater nas folhas das árvores da janela do quarto, escrever poemas sobre o nada. O nada. O tudo. O cheiro de pisca-pisca queimado, o natal, o mormaço da primavera. Músicas natalinas, o toca-discos tocando na sala vazia de uma manhã de Domingo. Domingo, samba no rádio do vizinho, calor, churrasco no quintal. Tocar teclado músicas favoritas em noites de sábado, chorar com músicas que te fazem sentir falta do que nunca viveu. Ansiedade. Esperar muito, esperar por pouco o ônibus aparecer na esquina. O vento da praia, andar de mãos dadas, vinho barato, correr contra o vento, sorrir para estranhos, caminhar sozinha, dormir no cais. Astrologia, signo de virgem regido por vênus, afrodite, gritar de emoção, viagem astral. Casa de madeira, neblina de segunda-feira. Esperar o nada, o tudo. Sonhar, ter medo, ter esperança, desesperança e desamor. Sorriso largo, olhos tristes, decepção, encontro, desencontro. Fato, mentira, árvores secas, deserto, ruas vazias, madrugada, o vento, a beira do cais, a meia-lua, a lua, a meia-noite. Subúrbio, a chuva, ah, a chuva! Cães latindo na porta dos vizinhos, filmes desconhecidos, músicas que não consigo saber o nome. Sair a noite sem destino, sonhar com desconhecidos, cores do céu em tons de azul na aurora sem que o sol apareça, ter uma melhor amiga e não a ter mais, desentendimentos, ressentimentos, relacionamentos, a vida.
08/08/2014
Echappé
Desci do táxi as sete da noite, sei que soa estranho escrever por extenso, mas acho que temos intimidade o suficiente para isso. A procura da portaria do prédio, a única referência que eu tinha era que ficava logo em cima de um supermercado e a noite brilhava com a publicidade local em tons de azul marinho e laranja e logo no segundo andar uma sala ao encontro. A sala, uma mistura óbvia de rosa e branco para uma escola de Ballet. Faltavam quinze minutos para a aula experimental começar, sentei-me ao divã também cor de rosa, nada contra rosa, mas o feminino soava tão óbvio para aquela cena que quase pensei que era uma escola feita somente para o universo feminino. Na parede dos corredores fotos de espetáculos da turma de veteranos, plumas brancas e bailarinas com cóques impecáveis. Mas algo ao fundo sonoro me chamava atenção a toda aquela delicadeza ambiental dando contraste a tudo que ali tinha de referência e repentinamente confessado, um jovem rapaz de olhos claros sai de uma das salas eufórico perguntando para si mesmo em voz alta pelo sumiço de suas alunas. Levemente se inclina no bebedouro a minha frente, até que, por delírio nota minha presença: "Você veio para a aula de street dance?" - E eu, falhando a voz respondi: "Não, vim para o ballet clássico" e ele, sem pudor me encarou a alma e dançou com ela infinitamente por nanosegundos e por fim respondeu: "Que pena..."
07/08/2014
Eu não tenho paciência com as pessoas, sei que isso é egoísta pra caramba, mas veja bem, as redes sociais estão fazendo do mundo um caos. Não só pelo excesso de informações desnecessárias (e muitas vezes duvidosas) mas também pelo burbilhão (o que seria isso?) de pessoas carentes precisando de atenção e aprovação de outras pessoas a maior parte do tempo. Caro leitor fantasma desse humilde blog de amores falidos, eu não estou sendo nem um pouco justa, eu sei. E na maior parte do tempo sou assim: carente, necessitando de atenção de outro alguém o tempo inteiro. Mas pela primeira vez resolvi ser transparente ao mundo me dedicando ao movimento do meu corpo ao som de Debussy, dançando em meia ponta no abismo e abaixo o céu. Música liberta a alma da castidade social e sim, não há nada melhor do que dançar sozinha de olhos fechados esperando que ninguém me cure desse vazio gostoso que é a arte de viver em Solitude.
01/08/2014
É que no fundo eu adoraria...
Eu jamais saberia contar com a vida sem uma versão de egos feridos como os retratos das viagens que eu adoraria esquecer. Pela primeira vez em anos, eu não desejaria estar em qualquer lugar no mundo, adoraria e jamais fale comigo em pretérito imperfeito, tudo bem, reafirma. Nada como perder a vida do que não fazer o que no fundo faria. Quem sou eu me pergunto em voz alta, grito até, como em um murmúrio de sábios contos dos anônimos das ruas que sonham com a gentileza da sabedoria compartilhada na praça central.
É que fundo eu adoraria caber nas suas palavras, gostaria que você me carregasse em seus olhos em todos os lugares que fosse, assim eu não me sentiria tão incomodada com os amores platônicos que você semeia nas estações de metrô, semeie também seu pessimismo em mim, vamos terminar aquela garrafa de vinho seco que compramos no Cabidinho, vamos engolir cada pedacinho de medo que nos prenda até que a garrafa de vinho termine. Amanhã será outro dia, meu bem. Eu não quero ver o tempo passar.