24/02/2015

Por que me importaria se a ti ele soa tão falso?
Mesmo que em tuas ventas sejas o verdadeiro poeta,
Mesmo que venhas provar em teoria a falsa lucidez que me cativa
Que reação me provocas além de um tepentuoso tédio?
Me digas
O que seria mais verdadeiro do que as reações do teu incrédulo fascínio que ele me provoca?

23/02/2015

Eu danço contigo todos os dias. No meio da rua como na praia de Itacuruçá, dois loucos e intensos apaixonados pássaros noturnos. Ou quando ouço nossas músicas favoritas, ou até mesmo quando chove. E os pingos quentes se equilibrando na borda do telhado em uma tarde de verão construindo um lindo concerto em meio de uma imensidão de silêncio. O silêncio que nós temos pertence a uma sincronia musical perfeita. E meus olhos dizem tanto a ti como em filmes em câmera lenta em próvia. Como uma bailarina flutuante no gelo dando saltos perfeitos que só cabe a ti saber ler. E tu estás a me ler sempre, até mesmo quando está sempre a se negar. 
E os cantos das árvores sempre contam a mesma história a um casal de pássaros. Então eles saem por aí saltitantes cantando em todas as janelas. Inclusive a tua, como naquela manhã após uma noite na qual uma tempestade bela veio nos visitar. Me abraçaste tão forte que meu mundo se tornou pequeno e simples de acalentar. E os anos e os espaços loucos que corremos e tropeçamos tecendo uma encruzilhada de desencontros uma grande manta que nos protege e acolhe. E é exatamente assim como me sinto por ti agora. Protegida e acolhida como sempre deveria ser. Sinto que nós fomos predestinados, mesmo que por um período curto da nossa existência.

22/02/2015

Vamos nos encontrar no cais, meia-noite chego lá com uma garrafa de vinho, desses, bem baratos e doces. Aquilo que chamam de sangria. 
Eu queria transportar meus sentimentos juvenis e tudo aquilo que já senti nesse embaraço de presente. Não havia ninguém por lá a essa hora. Sentamos, jogamos nossas mochilas sob a cabeça e logo deitamos. Lado a lado olhando o céu nublado conversamos sobre o último álbum lançado da Hope Sandoval. Uma conversa vazia sobre algo na qual eu não conseguia interagir. Então sentei e tomei mais goles de vinho a ponto de esperar a sensação de embriaguez cair como um raio, mas não caiu. Reparou como as palavras estão lisas nesse exato momento? Isso! Nesse exato momento que eu estou escrevendo ou você está lendo. Ou sabe lá quem esteja lendo, não importa. - "Querido, você consegue sentir aquilo que sentimos há três anos atrás?" perguntei. Ele olhou pra mim, com um olhar sóbrio, sem riso, sem espanto respondendo com outra pergunta: -"Aquilo o quê exatamente?" E eu: "Ah, aquela euforia de quando nos encontramos pela primeira vez, de quando te conheci com o Gustavo e a Thaís e saímos saltitantes por uma rua que nunca passamos completamente bêbados por esse mesmo vinho, lembra?"
- "Ah, eu lembro, foi uma noite incrível. Tentamos invadir uma casa, lembra?"
- "Jura? Disso eu não me lembrava"
- "Sim, dormimos na casa do Enrique, todos no chão do quarto. E eu fiquei com o Enrique aquela noite e acho que alguém apertou sua bunda"
- "Quem apertou minha bunda?!" 
- "Ah, o Enrique me formou a isso"
- "Que sacana, sorte de vocês que não percebi. De repente vocês apertaram a bunda da Thaís e acharam que era eu. Mas... aquele dia, assim que cheguei na praia, você estava ficando com a Thaís..."
- "Ah, tava hahaha" 
Mas enfim, você sente ainda essa sensação? Está percebendo que estamos aqui, fazendo exatamente a mesma coisa e mesmo assim parece faltar algo? Ele me olhou novamente com aquele olhar vazio, sóbrio e bêbado ao mesmo tempo e respondeu que as luzes continuavam infinitas. Mas as expectativas são menores como as de antigamente. Que os sonhos são mais simples do que antigamente. Assim como nosso senso de imaginação. 
Naquele tempo sentíamos tudo com uma intensidade tão desconhecida de quem não sabe o que virá no futuro. E olha pra gente agora... Temos trabalhos, filhos, aluguéis, crises existenciais, vícios, paixões auto destrutivas, tristezas e fobias. Naquele tempo sonhávamos com o agora. E agora? O que esperar do amanhã? A noite continua como sempre é apenas vista por novos olhos. 

Terminamos o vinho e jogamos a garrafa na primeira lixeira no caminho pra casa. 

03/02/2015

Vou caminhar sozinha por aí atrás de vaga-lumes com uma garrafa de vinho na mão. Eu saí do meu corpo. Vi a praça vazia e viva. A madrugada pertence a nada. Meu corpo leve e flutuante pertence a ela. Então eu me sinto em prantos, acolhida pela minha própria cor pérola. Lágrimas escorregam lentamente e molham meu cabelo flutuante. Acendo um cigarro. Sento no balanço e me inclino olhando o céu. Não sei porquê eu começo a rir ironicamente. Minha alma está lavada com álcool. O vento sopra suave e forte e faz as árvores cantarem em diferentes tons. Gosto quando o silêncio da cidade me permite ouvir a música dos ventos. Sino dos ventos na varanda. Eu estou longe da cidade, numa estrada coberta de flores azuis e vaga-lumes. Meus passos flutuantes levantam as pétalas secas. Secas pelo rocio, pesadas pelo rocio, ofendidas também pelo rocio  porque o vento não as emergem. Me sinto segura. Me sinto salva pelas três da manhã. Não ouço nada, mas ouço tudo. Eu acordo em cima de um epitáfio e giro por cima dele e me elevo. Cada vez que eu giro, eu me elevo bem alto perto da lua. A lua, ela acende minhas mãos. Eu danço com o plenilúnio e me deito até cair como uma pena. Caí por cima das árvores. Eu me sentia tão leve quanto às folhas. Me senti tão em casa que resolvi morar na praça por um tempo. Eu só existia a noite, então toda vez que o vento soprava a vida era tocada de todas as formas.