23/06/2015

Estamos perdidos. Sentamos na cama, perdidos. Olhos cheios d'água e de agonia. Ele se diz mais agoniado e triste do que eu. Ele diz isso porque não entende o fato de eu querer fugir das pessoas que me caem em afeto. E digo que não o amo mais, repenso as consequências do desamor e me cai o mesmo: O verdadeiro motivo é que não sei. E de repente odeio essa cidade e caio em mágoa dessas ruas de pedras. E de repente eu amo tudo aquilo que odiei. 
Escrever não me salva. Chorar não me salva. Amar também não me salva. Sei que pode parecer desafeto, mas tudo é tão simples e inalcançável olhando de fora que quando olho pra dentro de mim, não quero mais entrar. E fico perdida, com os olhos cheios d'água e de agonia. E ele me olha perdido como se não entendesse mais nada. E lá fora chove, raios, trovões e barulhos de vento no forro da casa. E de repente por dentro tenho o sol, tenho banhos de chuva quente, tenho blues no fim da tarde e tudo canta. Minha'alma canta, meu corpo e meus olhos se perdem nas coisas que via e nunca encontrava. E ele me olha perdido como se tudo tivesse acabado. E eu quero fugir para uma cidade que ninguém me note. Eu quero fugir de todos que me conhecem, porque de algum modo sei que não tenho nada a mostrar a eles. E ele... ele diz que sou a garota mais incrível que ele já conheceu. E de repente vejo que não tenho mesmo nada a mostrar. As músicas que nós conhecemos, os livros que lemos, os filmes que assistimos juntos; as garotas que ele já amou, as declarações soltas nos guardanapos das lancherias. O Rio, Brasília, O Sul. Tudo se apagando por um momento e voltando como fantasmas que me assombram na cozinha.
Eu só queria que alguém me desse uma sacudida. Eu só queria que alguém me puxasse do abismo da dúvida sem me garantir a certeza. Porque a única certeza que sei é que carrego o peso do próprio mundo e se eu tivesse uma única oportunidade de voltar atrás, simplesmente faria tudo de novo, sem perceber.

18/06/2015

Viajamos no cosmos azul e brilhante. Os olhos estavam fixos um ao outro com um misto de leveza e desespero, também, pela leveza um do outro. Quando ele me aninhou em sua cintura e me deitou nas nuvens, vi o céu estrelado pousar por cima de nós, e com ele, a lua clara e brilhante. A grama era fresca e recém aparada. Não só os nossos corpos, mas o vasto campo era iluminado com um cristal azulado. Um azul marinho de céu a noite. A noite girava em nossa cabeça, corpos suados flutuando sobre a cama e a grama. Um quarto coberto de espelhos moldados e observados por estranhos curiosos e famintos pela energia única que só a gente sentia. Uma grande mansão branca com tetos de vidro e o sol refletia nos nossos corpos no tapete da sala e a gente não via que a hora passava. Muita gente olhava desejando a relevância do valor das coisas que o dinheiro não paga. Essas pessoas não são confiáveis, por alguma razão desconhecida. Se a sintonia é recíproca o segredo é nosso, eles não entendem que para viajar no cosmos só o desejo não basta, é preciso entrega

(de infinitas coisas coisas que não se cabem dizer)

17/06/2015

Sempre achei que as pessoas nasceram para se virarem sozinhas. Sempre achei que o conforto era a base de quase tudo e que todas as escolhas e situações confortáveis trariam o mínimo de satisfação.
Tive situações desconfortáveis na infância. Uma delas é quando meus pais resolveram sair no meio da noite sem que eu os visse. Eu devia ter uns quatro anos de idade, lembro bem que a única reação que tive foi de chorar por achar que eles nunca mais voltariam.
E é assim que me sinto hoje, um poço de desconforto por achar que não preciso sofrer assim por alguém. E tento ser forte e me enganar e tento também superar meus medos contando a mim mesma que aquilo era apenas um equívoco de quem não sabia nada sobre a vida. Acho que na verdade a gente nunca sabe.

14/06/2015

Levanto da cama com cuidado para não te acordar. Ainda é escuro e a janela é uma tela de chuva simples e contínua pintando todo o asfalto molhado com o reflexo coral dos postes da segunda maior avenida da cidade. O apartamento fica no terceiro andar. Te olho e penso no quanto é poético morar numa cidade cujo nome significa 'Solidão'. Alguns dizem que o tempo faz com que nos surgem efeitos que dão juízo ao seu nome. Outros dizem então que ela é regida por uma santa acolhedora. Não me importa, eu sempre me sentirei contigo, principalmente quando estou sozinha. Como no cais, no teu moletom e em todas as manhãs de geada da tua antiga paisagem.
Eu definitivamente entendi que o que sentimos naquele tempo, sempre fará parte de mim, de nós e de tudo. Sobre as ruas que caminhamos, as estradas que viajamos, as camas que dormimos. As xícaras, o gramado, o campo vasto no horizonte da nossa janela e todos os sonhos que carregamos na singela sintonia do ser.