23/05/2016
Outro dia eu desci as escadarias escuras do prédio porque o elevador, como de praxe, estava com defeito. Fui até a esquina da rua em que eu morava, que era também, a rua que ele mora. Chamei-o pelo nome em baixo tom, consequentemente gritei-o e ele apareceu na janela como se já estivesse me esperando. Era só um pedido inesperado de um passeio num começo de tarde, porque eu estava sob efeito de anti depressivos e precisava tomar uma atitude imediata antes que, no próximo segundo, o desejo fosse outro. Saímos por aí, ambos de óculos escuros. Eu porque não conseguia parar de rir sob o efeito dos remédios e ele, pela rotina noite de insônia. Paramos em um bar, apostamos em jogos de sorte e compramos cerveja. Não tínhamos muito para falar, nunca fomos de falar muito um com o outro, mas sei que seus olhos carregavam o lamento da minha despedida. A partir de agora, pensei, não teremos mais encontros nas madrugadas, nem olhares profundos que diziam mais do que qualquer compromisso avesso. Tínhamos compromisso ali, de carne e sangue, de alma e de gozo e tudo o que partilhamos em meio tempo não teve espaços para hipocrisia e corações quebrados pelo simples fato de que não pertencíamos um ao outro, mas quando decidimos quebrar a rotina, algo se fez por si aquilo que não ditamos, não queremos, não desejamos em ato. Era por si só ele mesmo, saudade, por assim bastar. Terminamos a tarde olhando o sol que desenhava sombras na janela, jazz, cafunés, olhares com palavras distorcidas e nunca ditas.
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