A primeira vez que fui a 24 de Abril, era noite. Não sabia que a rua em que eu estava era a 24 de Abril. Não sabia o bairro ou o ponto de referência. Eu apenas fui. No alto de um prédio residencial, eu ouvia de longe pessoas cantando as mesmas músicas que me era de praxe na infância. A noite estava quente. Os sentimentos também. Mas sei que estava bem próxima do céu.
A segunda vez que fui na 24 de Abril, eu precisei seguir o endereço anexo em uma prancheta de consulta de rotina. Essa foi a primeira vez que ouvi, de fato, falar dessa rua, sem saber que eu conhecera antes. Pela tarde peguei um táxi às pressas, estava atrasada, como não sabia o endereço, achei cômodo os táxis terem GPS. O taxista não soube localizar o ponto certo, damos algumas voltas, por fim ele me disse: - "Senhora, essa rua começou ali atrás e termina aqui. Não acha melhor descer nesse ponto? Acho que essa rua é bem curta mesmo" - Na dúvida e pressa, desci.
A 24 de abril é uma rua que começa no meio de uma outra rua, e termina, repentinamente, dando inicio a outra. Ela é uma rua tão curta, que ocupa no máximo de 2 a 3 quadras. Me atrasei para a consulta. Realizei o procedimento e fui até o banco na avenida paralela já que não aceitavam a bandeira do meu cartão. Voltei ao consultório, paguei, e em seguida fui ao ponto de ônibus mais próximo em direção a estação. De dia a rua comercial é bem movimentada, e por ter características diferentes do ambiente noturno, eu não sabia que eu já conhecia aquela rua.
Duas semanas depois eu passei, por acaso, pela 24 de Abril a procurar por uma outra rua onde localiza o centro de distribuição de correspondências. Eu esperava um documento importante que não chegou até mim por engano e voltou para o centro de distribuição. Dessa vez o endereço se localizava próximo a praça principal da região, a praça que foi ponto de referência na primeira visita a 24 de Abril. O atendente do primeiro ponto de distribuição próximo a praça, me deu o endereço correto de onde poderia localizar minha correspondência: -"A senhora atravessa a praça, segue reto até a ponte, logo depois da ponte na primeira rua a esquerda, fica no final dela o ponto de distribuição". Eu fui andando, era tarde, lembro que era perto das quinze horas e a temperatura estava muito alta. Me aproximando da ponte, notei que o prédio a direita era familiar. Um prédio residencial muito alto, que só observei nesse mesmo dia. Era ali, a primeira noite na 24 de Abril, a segunda vez a procura pelo consultório e a terceira me perguntando: por que logo aqui?
Passei pela inscrição da faculdade, moraria em outra cidade, mas por ironias do destino, permaneci. Decidi morar no centro da cidade, negociava um apartamento perto da estrada, mas por intervenção, escolhi um conjugado na mesma rua. Uma rua que no final dela, chega na praça principal, a mesma praça em frente a igreja, a mesma praça que foi dada como referência na primeira noite na 24 de Abril.
Vivo meus dias longe dela. Quando é preciso me aproximar, sobe uma ânsia sobre meu estômago congelante, mas sigo e volto, como quem sabe o próprio limite. Outro dia eu quis sair para encontrar a floricultura mais próxima e ter cactus no conjugado. Mas a floricultura mais próxima era na 24 de Abril. Pensei em ir, ensaiei os passos, as possíveis alternativas caso precise fugir ou explicar minha presença naquela rua. Mas não fui.
Os dias correram devagar. Atravesso as ruas com medo de esbarrar por algum fantasma ou vestígio do tipo. Do meu conjugado ouço o sino da igreja em frente a praça bater. Meio dia, às dezoito horas e aos domingos, também às sete. Às vezes vou até a praça nos domingos a noite, fico observando a barraca de pipoca doce, os fiéis assistindo a missa, as crianças no parquinho e os carros passando pela avenida em direção paralela a 24 de Abril. Do outro lado, vejo carros vindo dela.
Um dia sonhei com a 24 de Abril ao amanhecer. Era daqueles amanhecer que ainda não aparecia sol, então era facilmente confundido com o fim da tarde, mas de algum modo eu sabia que era a manhã. As manhãs sempre me deixam melancólicas, mas nesse sonho eu não sentia melancolia. O ponto era em frente a entrada do prédio do lado da ponte, vazio, com flashes de fantasmas que pareciam ser alguém que eu conhecia, mas simplesmente não era.
Ontem eu fui chamada para comparecer a uma entrevista de emprego, o endereço anotado às pressas era "4 de Abril, 2890, centro da cidade, comparecer amanhã às 8:30 da manhã", depois de terminar a ligação, eu percebi que não existia 4 de Abril no centro da cidade, o endereço mais próximo de ser era 24 de Abril. Eu não dormi, eu esqueci completamente por onde andei essa noite. Às sete eu levantei, tomei um banho longo, em seguida saí em direção a entrevista. Atravessei a praça pela manhã a sorrisos, das pessoas sem pressa, dos senhores nos bancos da praça, dos comerciantes e das árvores que há dias de dias nublados, pediam pelo sol. Tão próxima a rua 24 de Abril, caminhando, pouco trânsito, vento frio.
Saindo da entrevista, dei uma pausa no caminhar. A vista daquela direção era a mesma vista do sonho que aqui mencionei. Não vi fantasma algum, mas gostaria. Sorri. Eu sorri como se eu estivesse em um filme e ele acabara de chegar perto da reta final. Eu sempre achei que tudo tinha uma ligação, que tudo no final ia fazer algum sentido. Mas deixei de acreditar nisso há algum tempo atrás. No fundo eu gostaria muito que as minhas frequentes idas a 24 de Abril significassem alguma coisa para que tudo isso fizesse algum sentido, mas a primeira noite nela consequentemente será a única e no final de tudo isso, minhas idas e vindas por essa rua, um dia, não fará mais sentido nem nas minhas mais insignificantes lembranças.
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