Deve haver um caminho, uma direção correta sobre como mover o mundo.
Olhar pela janela e ver raios caindo no horizonte é uma boa maneira de prever o que já está acontecendo: O caos resolveu dar um descanso para os insaciáveis guerreiros do tempo.
Essas estradas que me dão rumo a alma com vida, com esse tino libertino com que encaro minha teimosia. Eu definitivamente me deleito. Me rendo a qualquer trajeto firme de coragem, de dor e sabedoria sem garantia. Afinal, garantir é o verbo de um tolo redundante e o pleonasmo é parido sobre o desespero da insegurança de outrem, outrora uma insistência na certeza morada da esperança.
De afeto contido e sentimentos falidos eu me visto.
Sobre todas essas cores sem nome que deduzo em teu pescoço
eu me perco e
ainda digo de passagem,
que não há volta.
29/11/2014
13/11/2014
Tomou banho e molhou os cabelos, às pressas vestiu o sutiã e a calcinha com cores diferentes. Fez um mês que a mala ainda carrega suas coisas, coisa de gente que a qualquer momento pode partir pra sempre, e ela lembra que finalmente encontrou um lugar que a pertence e encontra um vestido azul de tecido fino, fácil de vestir, sem botões e se veste de praticidade por causa do calor excessivo do Rio de Janeiro. Meias azuis, bota marrom porque foi a primeira coisa que ela encontrou pelo corredor, às pressas, sempre às pressas, e ela lembra que gosta de viver o dia como se a vida inteira durasse apenas vinte e quatro horas. E ela lembra que todas as escolhas que ela fez sozinha foram as mais certas, e ela lembra que precisa ganhar muita grana para a próxima viagem.
Ela espera no ponto entediada, tons alaranjados invadem os eucaliptos em seu horário favorito. O vento sopra como em forma de aviso e não há ninguém na rua às três da tarde. E ela quando fecha os olhos pensa em seu lugar favorito, o campo infinito dos pampas, um destino impagável, apalpável e seu filho correndo de um lado pro outro querendo soltar pipas. E o ônibus chega inteiro de desconhecidos, e ela senta na janela, abre o vidro e ouve Ani Difranco no último volume, ela sorri para as casas que correm, o sol pinta as nuvens de rosa, o céu de laranja e seus olhos de amarelo. E ela deixa o vento bagunçar seu cabelo, e pensa o quão íntimo é ser tocada pelo vento em meio de tanta gente linda, e imagina se essa gente sente o mesmo que ela sente sobre a vida. E ela finalmente chega e dá voltas e ela finalmente volta, o sol em tons vermelhos invadem a praia na volta para casa, ela desceu duas quadras antes porque queria ver o sol se pôr do cais. Ela dançou com o vento, deitou e olhou pro céu e reparou que as nuvens ainda apontam o caminho para o colo dele, como nos velhos tempos em que ela ainda não sabia aonde ele morava.
10/11/2014
Sinto-me rasa. Simples assim: rasa. Mas aí ele me pergunta "o que é ser rasa?" e eu bêbada mal lembro o que respondi. Talvez seja essa falta de profundidade nas coisas, essa falta de entrega, esses campos infinitos e planos que vejo no caminho de sua casa.
Chorar até doer
Rir até doer
Sangrar até doer
Amar até doer
Seja lá qual for a resposta
tudo o que se faz com entrega, dói
Chorar até doer
Rir até doer
Sangrar até doer
Amar até doer
Seja lá qual for a resposta
tudo o que se faz com entrega, dói
Mas é impossível associar a dor com o vazio.
05/11/2014
Era em um quarto pequeno sem paredes, só havia espaço para um colchão velho e um rádio que ganhei do meu pai no meu décimo segundo aniversário. Então eu ouvia minha rádio favorita o tempo inteiro, sabia que a programação do dia se repetia depois da meia noite. Olhando para a única janela do quarto, pequena e redonda, alta para se alcançar de pé, mas deitada, eu tinha a visão de pequenos fragmentos do céu em meio a casas amontoadas no beco dos anjos. O fato é que por pura sorte, naquela madrugada, eu conseguia ver a lua no meio daquela visão e hipnotizada por ondas de tédio e ternura, senti a melodia vindo tocar meus olhos a ponto de deixá-los bastante úmidos. Aquela melodia tão nova e ao mesmo tempo tão esperada, como um bom presságio sobre quem sabe que passará em uma determinada matéria porque garantiu uma boa nota na última prova ou como aquela paisagem lúdica no final da linha dos trens como naqueles filmes antigos de faroeste que meu pai gosta de assistir. O fato é que me senti carregada por ondas de melodia até a lua e a partir desse dia eu achava que poderia escrever um livro sobre uma noite só ou prever o próprio futuro porque os sonhos haviam se tornado mais simples. Mas não há como prever ou sequer escrever uma linha sobre como a lua deixa vestígios de superfícies incógnitas fora do espaço. Os caminhos em volta dele são feito de luzes estrelares que acompanham o espelho que a lua carrega.
No avião, indo para a sua casa, pude notar esse mesmo caminho por cima das nuvens.
O céu é o espelho inverso do mundo.
No avião, indo para a sua casa, pude notar esse mesmo caminho por cima das nuvens.
O céu é o espelho inverso do mundo.