22/12/2014
Faltavam alguns minutos para noturno, faltam alguns passos para os pés tocarem a areia da orla, o vento que balança as árvores fazendo delas murmúrios e sinos anunciando o fim da tarde - despedida - o vento se torna ainda mais suave como algodão doce. Na pele ele é quente e confortável e sua sabedoria é nua e crua na beira do cais. Aos olhos o horizonte em degradê vespertino em tons laranja e azul marinho nota-se que a paisagem não é a mesma de algum tempo atrás. É que de fato ela nunca foi a mesma. Enquanto refletia, o vento sussurrava os encantos da noite e ele tão íntimo e macio tocava sua nuca e seu pescoço com gotas leve de chuva, nunca se sentiu tão sozinha sem se sentir solitária. Aos poucos os postes dos rodapés foram iluminados com luzes corais. A orla precisava ser enfeitada pelos rapazes que não vêem mais os caminhos decertos para alcançar a sua margem. Jovens náufragos em busca de sereias sem canto, tritão, estrelas do mar, compostos do que a Brisa não tem. É tudo quase sempre o mesmo do que costumava ser, enquanto o vento batia violentamente em sua pele macia, se sabia que bastava sua própria companhia e o gosto doce invadia sua certeza em tons nobres dizendo em voz alta para o mar: Eu não estou deslumbrada. E isso basta, isso basta...
05/12/2014
Ele saiu da galeria como quem sai em rumo ao nada. Em pé na calçada com o olhar distante como a paisagem cinza do centro da cidade, tirou uma carteira de cigarro da jaqueta e eu não pensei duas vezes, como impulsiva que sou eu logo perguntei se ele me emprestava o isqueiro. Ele rapidamente me atendeu acendendo o meu cigarro ao dele. Fui intimada por dois mundos negros como a cor do seu cabelo. Pensei rapidamente em fugir como impulsiva que sou, mas apenas pensei - "Desculpa, eu... eu... enfim, obrigada" e direcionei o meu corpo a entrada da galeria, mas não conseguia mover os pés.
Então ele me olhou nos olhos como se me conhecesse. Veja bem, eu mal consigo olhar nos olhos de alguém, me senti intimada por seu par de mundo negro, como o contraste da paisagem cinza no centro da cidade. Buzinas e asfalto por todos os lugares, pessoas largando a sua rotina de trabalho com seus uniformes apertados, uma tarde fresca de quinta-feira, nuvens, cultura, mendigos, trânsito, mercado, negócios, músicas, protestos, samba e um conjunto de coisas que o Rio de Janeiro representa. Eu me mantive estática, sabe lá por quantos minutos, segundos ou dias e ele sorriu como se me conhecesse...
Perdi completamente a noção do tempo, o chão, o guarda-chuva e o ônibus pra casa.
Acho que minha alma está vagando pela galeria até agora.
01/12/2014
Sobre a intuição
Estática, palavras voam nas asas das minhas costas passando frio pela nuca incomodando a minha garganta, até conseguir finalmente deixar meus lábios levemente dormentes. Um eu-não-sei-o-que-fazer com a minh'alma, um não-saber que música escolher divagam em todos os lugares que penso em correr. Outro dia meu pai não me olhou nos olhos, ele quase nunca olha, mas não importa. Ele pediu para eu seguir meus instintos. Eu não entendi o que ele quis dizer. Eu quase nunca sei o que a maioria das pessoas querem dizer, eu quase nunca sei o que entender, eu não entendo. Palavras aleatórias correm em minhas veias. Preciso arrancá-las de qualquer forma, daria tudo o que tivesse para não conseguir pensar por um minuto - e quando não consigo não pensar, incomoda pra cacete. Meu cigarro acabou faz umas duas semanas, o de canela (aquele que detesto) também. Aí lembrei que não pertenço a nada, deve ser lindo ter uma cotação patética e orgulhosa de não pertencer a nada, mas eu não penso assim. Eu não me sinto bem assim, eu não faço sentido algum assim. Muitas vezes já pertenci àqueles que vagam as noites com uma garrafa de vinho na mão. Pertencer é um verbo profundo demais para se confundir com algo carnal, é bem puritano, na verdade. A Posse pertence a carne, devem pensar. Pertencer a algo é dividir os segredos da alma. Voltando àqueles que pertenci, alguns eu nem me recordo o nome, outros, eu nem sei por onde andam. Nem sei porquê estou escrevendo sobre isso, talvez nem seja isso que eu queira escrever. Mas o fato é que palavras aleatórias correm em minhas veias e dominam meu corpo como um câncer incurável.
Talvez eu só precise vomitar para ver o que vai sobrar.
De dia eu pertenço a mim, mas é pela noite que ofereci minh'alma.