05/12/2014

Ele saiu da galeria como quem sai em rumo ao nada. Em pé na calçada com o olhar distante como a paisagem cinza do centro da cidade, tirou uma carteira de cigarro da jaqueta e eu não pensei duas vezes, como impulsiva que sou eu logo perguntei se ele me emprestava o isqueiro. Ele rapidamente me atendeu acendendo o meu cigarro ao dele. Fui intimada por dois mundos negros como a cor do seu cabelo. Pensei rapidamente em fugir como impulsiva que sou, mas apenas pensei - "Desculpa, eu... eu... enfim, obrigada" e direcionei o meu corpo a entrada da galeria, mas não conseguia mover os pés. 
Então ele me olhou nos olhos como se me conhecesse. Veja bem, eu mal consigo olhar nos olhos de alguém, me senti intimada por seu par de mundo negro, como o contraste da paisagem cinza no centro da cidade. Buzinas e asfalto por todos os lugares, pessoas largando a sua rotina de trabalho com seus uniformes apertados, uma tarde fresca de quinta-feira, nuvens, cultura, mendigos, trânsito, mercado, negócios, músicas, protestos, samba e um conjunto de coisas que o Rio de Janeiro representa. Eu me mantive estática, sabe lá por quantos minutos, segundos ou dias e ele sorriu como se me conhecesse...  
Perdi completamente a noção do tempo, o chão, o guarda-chuva e o ônibus pra casa. 
Acho que minha alma está vagando pela galeria até agora. 

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