30/05/2016

Assisto sentada em frente a um quadro alguém desenhar linhas retas. Do outro lado da rua, um cão sem dono é alimentado por uma senhora sem pressa. No céu há nuvens cinzas anunciando chuva. Mas alguém continua desenhando em linhas retas naquele quadro.
Quando chove, sinto falta do sol. Quando há sol, almejo a chuva. Sinto falta do cerrado quando estou no Sul e sinto falta do Sul quando estou em Brasília.
Está tudo certo: As linhas, o clima, o cão e a pressa.
Só há algo de errado na minha sintonia.

24/05/2016

Gosto desse horário da manhã, quando o céu está claro e ainda não tem sol. Eu poderia confundir com o fim de tarde facilmente. mas é manhã, e eu perdi mais uma noite de sono. 

23/05/2016

Outro dia eu desci as escadarias escuras do prédio porque o elevador, como de praxe, estava com defeito. Fui até a esquina da rua em que eu morava, que era também, a rua que ele mora. Chamei-o pelo nome em baixo tom, consequentemente gritei-o e ele apareceu na janela como se já estivesse me esperando. Era só um pedido inesperado de um passeio num começo de tarde, porque eu estava sob efeito de anti depressivos e precisava tomar uma atitude imediata antes que, no próximo segundo, o desejo fosse outro. Saímos por aí, ambos de óculos escuros. Eu porque não conseguia parar de rir sob o efeito dos remédios e ele, pela rotina noite de insônia. Paramos em um bar, apostamos em jogos de sorte e compramos cerveja. Não tínhamos muito para falar, nunca fomos de falar muito um com o outro, mas sei que seus olhos carregavam o lamento da minha despedida. A partir de agora, pensei, não teremos mais encontros nas madrugadas, nem olhares profundos que diziam mais do que qualquer compromisso avesso. Tínhamos compromisso ali, de carne e sangue, de alma e de gozo e tudo o que partilhamos em meio tempo não teve espaços para hipocrisia e corações quebrados pelo simples fato de que não pertencíamos um ao outro, mas quando decidimos quebrar a rotina, algo se fez por si aquilo que não ditamos, não queremos, não desejamos em ato. Era por si só ele mesmo, saudade, por assim bastar. Terminamos a tarde olhando o sol que desenhava sombras na janela, jazz, cafunés, olhares com palavras distorcidas e nunca ditas.

12/05/2016

Companhia

Hoje fui até o mercado e pensei em comprar um vinho.
Tinha uma voz que ficava tagarelando o tempo inteiro na minha cabeça. Não é de hoje que isso acontece, às vezes gosto do que ela fala, mas em grande parte é um emaranhado de coisas sem sentido que me deixam pra baixo, como se houvesse alguma razão. Olhei plantas no setor de jardinagem, pensei em comprar cactos. Dei em desdém e lembrei que talvez um sorvete de macadâmia me faria bem. Lembrei do vinho. A fila estava tão grande que decidi deixar a mercadoria e voltei de mãos vazias. Mas a voz estava na minha cabeça, cantando cada música que tocava no aleatório nos fones de ouvido. 
De algum modo estranho, eu achei isso bonito. Acho não poderia haver melhor companhia para uma quinta à noite.