28/02/2017

ansiedade
escuto meu álbum favorito 
estou na rua com meu melhor amigo
ruas vazias, batidas oitentistas
vento batendo nas árvores natalinas 
é verão
é janeiro
é outono no gramado do campus
minha casa favorita está vazia
é salmão
cor de verão salmão
eu quero desesperadamente apertar no quatrocentos e sete
não tem ninguém
tem você
cabelo castanho
sorrir com os olhos
passeios na praça no centro da cidade
barraca de churros
trailer de cachorro-quente sem salsicha
chuva
jornaleiros fechados
passagem de verão
clima de invern
como nos filmes de dois mil e quatro
quando eu ainda chorava de saudade daquilo que ainda não tinha vivido
eu estou vivendo
estou esperando
estou esperando por mim mesma
só pra despertar no agora

25/02/2017

Saí do apartamento as duas da manhã. Encontrei com ele na esquina da minha rua. Com um cliente ou dois, a pizzaria mais próxima estava prestes a fechar. Em um bairro silencioso do continente, há muita gente que ainda estava acordada, assim como a gente. Resolvemos caminhar mesmo que o céu prometesse mais chuva. E choveu. As gotas caíram quentes e grossas. Conforme as chuva apertava, diminuíamos o ritmo dos passos aproveitando cada gota como se o céu pudesse nos abençoar. Eu poderia fotografar o que sentíamos, mas era impossível, e mesmo que eu tentasse descrevê-lo, não descreveria com tanta veracidade.

22/02/2017

O jardim de Aquário é logo na esquina. Atravesso a avenida e em seguida, duas quadras. Pedras Portuguesas, ruas serenas, botecos com os nomes de seus donos. A praça tem o calor vivo das crianças do subúrbio, mas a serenidade vista em seus olhos são como pássaros noturnos a espera da manhã. Sento em frente a rampa de convivência coletiva. São quase nove da noite e não tenho pressa. Eu caminho como se estivesse passando em frente ao seu prédio quando volto pra casa. 
Eu não consigo parar de pensar sobre os trajetos percorridos dos dias que ainda estão por vir.

19/02/2017

Morei em tantos lugares, esbarrei com tantas pessoas. Pessoas de todos os tipos e idade. Por causa dessas pessoas deixei de ter muitas dúvidas e nenhuma certeza de nada. As pessoas são complexas, o que elas fazem, o que elas sentem, a maneira como dizem amar, se são felizes ou não, se estão fazendo a coisa certa para si ou para a sociedade. Sem dúvidas, as que eu mais gostei de conhecer foram as pessoas loucas. Aquelas que são loucas pra viver, aquelas que sentem dor, aquelas que choram, aquelas que surtam, aquelas que perdem o equilíbrio. É impressionante como eu vejo tanta vivacidade nessas pessoas que se expõem, que se libertam, que se abrem infinitamente para si e para o mundo. Eu gosto é de gente caótica. De gente que se apaixona sempre, de gente que sempre tem dúvida sobre tudo e certeza de nada. De gente que grita, implora e luta. Sobre as pessoas socialmente e emocionalmente estáveis, eu nada pude aprender com elas. Pois vejo beleza no contraste do que não se deve ser. Entre aquelas que tem medo de se jogar no mar, há sempre aquelas que se entrega a ele, nem que seja para se afogar de amor.

17/02/2017

Isso aconteceu há anos atrás quando eu ainda morava na beira do cais. Primeiro a gente se cruzou na praia. Era de noite. Praia vazia. Eu estava sozinha e você também estava sozinho. Você não me viu, pois era daquelas pessoas que gostava de ler o mar e se perder no brilho da orla do outro bairro. A segunda vez que nos vimos, pegamos o mesmo transporte público. Você sentou na minha frente e ficou horas conversando com um senhor e quando desceu, se despediu dele com um 'até logo' e em seguida pensou em voz alta: "por que eu disse isso?" - e mais uma vez, você não me notou.
Fiquei dias pensando em como alguém tão sozinho poderia estar perdido na Praia da Brisa? Alguém tão sozinho quanto eu.
Eu não lembro quando nos falamos a primeira vez. As primeiras lembranças que tenho de você é que a gente saiu algumas vezes para fotografar na praia. A gente ouviu músicas no seu quarto e andamos um bairro inteiro bêbados de vinho pensando em invadir uma mansão. Tudo o que lembro de você são flashes do que realmente importou pra mim: você se tornou o meu melhor amigo, fazíamos tudo juntos, compartilhamos segredos, conhecemos os pais um do outro, fizemos amigos novos juntos, bebemos em um colégio vazio a noite, jogamos ouija e sonhávamos que um dia a gente iria enfeitiçar o mundo com poesia. Outra coisa que importou bastante pra mim foi que a gente se afastou. E eu não sei o porquê. E no fundo por que eu deveria me importar? Tudo um dia acaba, mas os sentimentos ficam guardados aqui dentro, como referências dos próximos momentos que ainda vão acontecer. E eu te agradeço muito por isso.

15/02/2017

Me sinto submersa.
Te encontrar me fez ver um lado de mim que eu ainda não conhecia. Algo que eu não sabia que se era o correto a ser feito, ou sentido. Te olhar, fazer tranças em teu cabelo longo, tocar a tua barba e perceber a cor viva dos teus lábios naturalmente rosados, me fez ignorar que esses profundos olhos emaranhados de verde musgo não pediram para que eu pudesse te salvar. Foi tudo uma coisa estúpida que eu criei e escolhi para que os meus vazios e ansiosos dias fossem salvos.
Não tenho as mais doces lembranças de ti porque não deu tempo para que elas fossem criadas. As poucas que tiveram, não há nenhuma veracidade. Mas eu estupidamente te quero. Te quero como o as gaivotas voam sobre a brisa do verão, te quero como o farol aceso de um porto marítimo abandonado. Te quero com lamúria. Te quero com ardor. Mesmo que tenhas escolhido te proteger disso, mesmo que tenhas a indecência do doesto contra meus sentimentos e resolveste fazer do nosso tempo o teu desenfado. Eu te desejo, com valimento, todo esse ardor que desconheces.

13/02/2017

eu descreveria
a imensidão do pesar que sinto
mas eu me mantenho estática
diante a infinitos porquês

eu prefiro acreditar
na tua vulnerabilidade
do que aceitar
como injúria
esse temor que te cala

01/02/2017

Me esqueci em que dia da semana estamos. No chão do quarto e no meio do barulho da chuva, a madrugada nunca me foi tão íntima. Há muito tempo que eu não me ouvia. Na tela da TV uma mulher com vestido branco dança sorrindo, graciosamente dança no ritmo da chuva e eu choro no ritmo do céu. Trovões, na esquina um desconhecido chamado Conrado. - Oi, tudo bem com você? - Não muito bem... - O que houve? Eu sou assim, pessimista e sempre com um mau presságio como desculpa e ele, Conrado, diz que pessimismo é paixão frustrada. Sei lá.... Paixão pode ser qualquer coisa então, qualquer coisa mesmo, uma vontade intensa e reprimida. O problema é que estou morando sozinha em uma cidade na qual não conheço ninguém, até fiz amigos aqui, mas de pouca data. Eu não vou voltar. Algo me prende aqui, é muito intuitivo, tanto que quando sonho que estou voltando, eu me sinto em uma estrada sem rumo. É complexo e angustiante e além do mais eu estou há dias sem dormir. Se quer saber mesmo, quero ser livre, mas saber o que fazer com essa liberdade. Olhe bem, eu estou morando em uma cidade sozinha, posso fazer o que eu quiser e quando quiser, porém eu continuo sem saber o que é ser livre. Eu sei que liberdade é uma questão pressuposto, são momentos de euforia, mas liberdade, é no fundo, não ter medo. Conrado me contou em seguida que seu maior sonho era tocar pelo mundo. Os olhos ressaltaram um brilho único e distante com uma frase típica de otimismo. Eu sei que ele vai. A gente consegue tudo o que quer, sabia? Tudo o que realmente queremos. Ele, ainda com o brilho distante nos olhos, contou que tudo pelo que lutou, teve seu sucesso. Sabe, é fato que o medo é instintivo, uma auto preservação, mas é que eu nunca soube diferenciar intuição do medo a não ser que eles entrem em conflito e comecem a brigar dentro da gente para que no final nós saiamos machucados. Se algum dia alguém me pedir um conselho, eu vou dizer: Confie na intuição, o medo é apenas um conforto. E se é a intuição que sempre diz sim? Não, o desejo que sempre diz sim. A intuição se quer dá alguma resposta. Mas Conrado, está amanhecendo, eu acho que foi um dia ruim para uma prosa. Não se preocupe pela curiosidade de não saber quem eu sou porque nem eu mesma sei. Mas eu concordo que por poucas linhas em um bloco de anotações, nos conhecemos muito mais do que muitos desconhecidos por aí.