28/06/2016

eu morava em um cais
mas de vez em quando ia pra minha casa
tomava café da tarde 
e observava a chuva cair na telha da varanda
e no gramado do quintal

eu sentia o cheiro da terra quente
de certo era uma chuva de verão
daquelas que o sol chora de feliz
porque o céu resolveu se abrir 
e desabafar suas ruas

minha rua favorita de morar
em teu colo
teu abraço

meu cais 

21/06/2016

olhar a vida do cais
e as ondas vindo de longe
sem saber o ponto de sua quebra
eu me escondo em uma onda
acreditando estar longe do perigo da queda
finalmente alcanço a orla
a mesma onda na qual eu mergulhei em delírio
quebra tão incompassível em minhas costas
vísceras
coração
sofrimento

o mar é imprevisível
a vida também é

20/06/2016


a gente precisa desatar esses nós dentro da gente
na imensidão de um verde musgo
num gramado ao plenilúnio
numa mansão com tetos de vidro
e nas gotas de suor dos nossos corpos em dança
 até esquecermos então aonde estamos

entre o 'se encontrar' e o 'se perder'
o ápice está nessa eterna busca

15/06/2016

hoje
eu bebi água quando estava com sede
corri quando estava com pressa
atravessei o rio sem nadar
reguei o mar
tomei as flores e os espinhos dentro das minhas vísceras

hoje
eu vi fogos de artificio tortos no céu nublado
senti frio e não coloquei casaco
chorei, chorei e chorei até o olhos arderem em chamas
sorri de canto enganando a tristeza

hoje
as palavras não soam nada
como se apagassem nas vidraças frias do inverno
e a noite os cães latem na vizinhaça
e na porta ao lado, eu não tenho por onde me esconder

hoje
as palavras não soam nada
mas escorregam feito rio de uma torneira fechada às pressas
de um lago raso sem fundo
sem patos e gansos para dar vida a paisagem 

09/06/2016

Lembrei de uma garota que conheci num bar no verão. Loira, cabelos curtos e usava lápis de uma maneira muito peculiar. Olhava de forma desprendida para um copo vazio que segurava e na fachada da noite parecia não ter fim. Eu me aproximei e perguntei a ela se gostaria de dançar. Ela imediatamente sorriu como se esperasse por isso. Não trocamos uma palavra por muito tempo. Por hora, dançávamos em singular. Ela perguntou se eu queria sentar com ela e puxou minha mão sem esperar minha resposta. Entre os bancos afastados da pista de dança, escuros e interruptos, ela me beijou e ainda com a mão na minha cintura, perguntou meu nome. Eu estava sóbria, havia acabado de chegar porque a madrugada no apartamento da rua principal estava por se encher de luz dos postes altos e como era nova na cidade, precisava me enturmar. Seu nome era carolina, era a única coisa que eu consegui ouvir dela além de que gostou do meu cabelo ruivo. Aparentava ser ao menos uns cinco anos mais nova do que eu. Ela levantou da mesa depois de um ultimo beijo com gosto de álcool e depois foi como se ela nunca tivesse existido ou como se eu tivesse apenas sonhado.
A luz, um beijo quente e nada mais. 

05/06/2016

Das certezas que eu teria com quem me sinto afeição: ele moraria numa rua de pedras e sem saída e na aurora da janela do seu quarto ouviria o canto do bonançoso dos pássaros. Ele seria feliz com uma vida modesta e um emprego similar e quando voltasse pra casa no meio da noite, sentiria saudade do vento noturno e do que ainda não viveu. Ele teria sonhos e não pressa. Seria louco e poeta. Dono de uma poesia que te transbordasse a alma como nos pseudônimos. No teu eu lírico, na culpa e no segredo dos teus cantos e por mais que divagassem nas margens dos seus rios, não haveria um intrépido e de profunda tenaz a se afogar nas profundezas do teu simples raso já que a ausência de poesia não se limita nas palavras.



02/06/2016

Aposto que você nem sabe onde estou.

Estou numa rua vazia com postes corais de um bairro do subúrbio no inverno. Ninguém me conhece, eu não conheço ninguém. Moro em um 40m² e quando acordo, ouço pássaros cantando. Particularidades: na sala há uma tv antiga. Na varanda, um sino dos ventos. Da vizinhança tenho o cheiro da lenha queimada. Quando faz sol, vejo minha novela favorita e me sinto nos anos 90. Gosto mais de ver TV quando está sol. Quando está chovendo prefiro o barulho das gotas da chuva caindo no quintal. Na esquina da minha rua tem um ponto de ônibus. Ele vai para o centro da cidade. Eu só gosto de ir ao centro da cidade nas noites de quinta feira, mas quase sempre vou aos domingos. Ou quase sempre, sempre.

Sinto que a vida vai acontecer devagar agora.
Me sinto melhor quando estou sozinha.