silêncio
feito de lágrimas quentes
e do soluçar do vazio
me arrepio da pureza
que me toca o corpo com mentiras
me seduz como pedra sobre a água
que deságua em minh'alma
como um poço infinito e escuro
profundo
que tudo esconde como
a incerteza sobre a dor que sente
pela certeza se o clamor persiste
o amor resiste?
30/11/2017
30/10/2017
quando o tempo é cinza
há nuvens iluminadas pelo sol na minha mente
nuvens levemente coloridas em tons de amarelo
complementando o céu azul celeste
a última vez eu lembro bem
fui até o sul do país
porque disseram que a vista da lua era mais bonita
principalmente se fosse vista de uma roda gigante
e as lágrimas nos olhos que ardem
e o peito que acelera de saudade
promessas soltas que não recordo
me fez entender que todo sentimento é singular
dono de si e suficiente
para que não precisemos fugir para o céu de outra pessoa
quando o tempo é apenas cinza
há nuvens iluminadas pelo sol na minha mente
nuvens levemente coloridas em tons de amarelo
complementando o céu azul celeste
a última vez eu lembro bem
fui até o sul do país
porque disseram que a vista da lua era mais bonita
principalmente se fosse vista de uma roda gigante
e as lágrimas nos olhos que ardem
e o peito que acelera de saudade
promessas soltas que não recordo
me fez entender que todo sentimento é singular
dono de si e suficiente
para que não precisemos fugir para o céu de outra pessoa
quando o tempo é apenas cinza
08/10/2017
o amor é como uma manhã pluvial
é como perder as forças de uma luta em silêncio
é inquieto e não tem pressa
o amor é a segunda-feira dentro do peito
é gritar sem sair a voz
é sorrir com os olhos
o amor é cada pequeno movimento que as folhas fazem quando há vento
amor é quando a gente não lembra que teve alguma escolha e ainda sim, escolheu
o amor é sem querer quando se quer
o amor é quando se quer sem mesmo querer
é a náusea da saúde
é a virtude disfarçada de defeito
é o desleixo da dedicação
o amor é o descuido do cuidado
é a emergência da procrastinação
é como uma página em branco de um caderno de bolso
é tentar pensar em qualquer coisa que possa defini-lo e só conseguir pensar em uma coisa
e mesmo assim não encontrar sequer uma palavra que consiga o elucidar
é como perder as forças de uma luta em silêncio
é inquieto e não tem pressa
o amor é a segunda-feira dentro do peito
é gritar sem sair a voz
é sorrir com os olhos
o amor é cada pequeno movimento que as folhas fazem quando há vento
amor é quando a gente não lembra que teve alguma escolha e ainda sim, escolheu
o amor é sem querer quando se quer
o amor é quando se quer sem mesmo querer
é a náusea da saúde
é a virtude disfarçada de defeito
é o desleixo da dedicação
o amor é o descuido do cuidado
é a emergência da procrastinação
é como uma página em branco de um caderno de bolso
é tentar pensar em qualquer coisa que possa defini-lo e só conseguir pensar em uma coisa
e mesmo assim não encontrar sequer uma palavra que consiga o elucidar
05/08/2017
Tenho acordado tarde, sempre acho que tem alguma coisa errada comigo. Às vezes eu acho que a vida é apenas olhar para o mar e escutar o som das ondas se formando no horizonte. Às vezes eu não acho nada.
Os pequenos espaços de tempo de euforia e veracidade que tenho no cotidiano é o tempo que levo no transporte público quando consigo juntar a melodia que carrego nos fones de ouvido para a paisagem fora da janela, mas ultimamente tenho notado que tudo anda sem sincronia.
Fico entediada, sinto um cansaço que vem do nada e não vejo a hora de dormir novamente.
Eu notei que todas as vezes que acordo eu consigo perceber de cara como vai ser todo o resto do meu dia.
Eu notei que todas às vezes que conheço alguém eu consigo sentir de cara se o amarei por muito tempo.
E o tempo é incontável enquanto vivemos, a vida é tempo enquanto contamos.
19/07/2017
todas as pessoas
e seus mundos frágeis e inseguros
então eu me sinto só
e isso nunca foi tão plausível
não as olho nos olhos
não as toco como tocava
eu sequer canto suas canções
não uso vírgulas e rimas
não danço em seus corpos nus
não me visto perto delas
me mudo para o andar de cima
e me isolo de todo esse cortejo social
esses tantos e estranhos modos meus
me afligem como
cada frase pragmática e mal alinhada
cima a cima
baixo a baixo
que pesa quando me toca
que pesa quando se lê
e seus mundos frágeis e inseguros
então eu me sinto só
e isso nunca foi tão plausível
não as olho nos olhos
não as toco como tocava
eu sequer canto suas canções
não uso vírgulas e rimas
não danço em seus corpos nus
não me visto perto delas
me mudo para o andar de cima
e me isolo de todo esse cortejo social
esses tantos e estranhos modos meus
me afligem como
cada frase pragmática e mal alinhada
cima a cima
baixo a baixo
que pesa quando me toca
que pesa quando se lê
16/07/2017
um bêbado caiu em um mar de palavras e se afogou
a cidade entrou em luto
as pessoas rezavam poesias para que sua alma saísse do limbo
não sabe ao certo se existira céu ou inferno
porque a população tinha a crença da condenação e o paraíso
porém, eram poucos e sempre tinham
aqueles que viviam da convicção
de que o limbo era o único lugar seguro
por ser tão incerto e indefinido
a cidade entrou em luto
as pessoas rezavam poesias para que sua alma saísse do limbo
não sabe ao certo se existira céu ou inferno
porque a população tinha a crença da condenação e o paraíso
porém, eram poucos e sempre tinham
aqueles que viviam da convicção
de que o limbo era o único lugar seguro
por ser tão incerto e indefinido
27/06/2017
pressa de viver/o outro anônimo
e sorrisos congelados
nas ruas desconhecidas de Bonsucesso
são apenas impulsos
e o acalanto em desalento
de uma pobre alma suja pelo regresso
um círculo vicioso
para cada minuciosa manhã
de domingo ensolarado
e eu o dedico infinitamente
para aquele que passou
sem jamais ter estado
04/06/2017
30/05/2017
25/05/2017
24/05/2017
pássaros e cigarras
Às vezes minha mente se torna uma jaula escura e limitada, às vezes quero gritar, porém sinto um alívio porque jamais irão me ouvir. Eu deito e velejo para o infinito escuro sobre a minha cabeça. Em solilóquio, palavras soltas com um sorriso ameno nos lábios: árvores, pássaros, notas sequenciais, o tom frio das cores do inverno, neve, lareira, praia vazia, caminhada noturna, cigarro de filtro vermelho, cortinas xadrez, vento que dança com as folhas soltas no chão, uma garrafa de vinho pela metade, ilhas, gaivotas e saudade.
E de repente sinto brotar galhos de trepadeiras no meu coração e elas cobrem toda minh'alma para que
os pássaros e as cigarras possam finalmente cantar.
E de repente sinto brotar galhos de trepadeiras no meu coração e elas cobrem toda minh'alma para que
os pássaros e as cigarras possam finalmente cantar.
17/05/2017
15/05/2017
Para Soledade.
Depois de uma longa espera pelo próximo ônibus na rodoviária da capital do Rio Grande do Sul, acordei pela manhã em uma estrada coberta por Hortências. O ar era incrivelmente fresco. O campo era mais verde que a do cerrado e o outono me era o mais afetuoso inverno. Os pampas sumiam no horizonte e as plantações eram iluminadas pela aurora. Eu estava tão sonolenta que mal conseguia ouvir o barulho do motor do ônibus e entre as súbitas escalas de cochilo, me despertavam os olhos para cada paisagem diferente. Às vezes, o sol sumia entre infinitas filas de araucárias de alguma estrada mais estreita, depois faziam-se riscos de sol iluminando de forma simétrica o corredor do ônibus. Pela janela, via-se algum outro campo de alguma plantação de trigo que, mais uma vez, fora iluminado pelo sol.
Antes de ir para Soledade, um ano antes, eu precisei pegar um avião até Córdova, de Córdova para Mendoza e de Mendoza, para Santiago do Chile. Depois de aguardar algumas horas pelo próximo vôo, chego a Punta Arenas com a trilha em pauta para o fim do trajeto: Puerto Natales.
De longe só se via o contraste de montanhas e as pequenas casas coloridas de uma cidade de apenas dezenove mil habitantes. Um frio congelante em pleno verão, aquecedores, paredes de aquarela, tarde ensolarada e por fim, ruas desertas e vazias. No centro da cidade, uma pequena praça para contemplação. Os bares com mesas nas calçadas não existia nesse lado da Patagônia. As casas eram de madeira, os bares eram de madeira e as portas ficavam sempre fechadas por causa do frio. As principais bebidas eram vinho e uísque e as músicas, por surpresa, eram bem familiares.
Eu não sei bem o que era. Também o cansaço, a maldita turbulência pega atravessando as cordilheiras e ao mesmo tempo, o alívio por não ter feito o trajeto de carro. Puerto Natales foi como encontrar um baú de ouro no fim de um Arco-íris. Se existe um espaço na consciência onde os desejos ocultos ficam guardados, lá estava uma cidade pequena escondida pela Neblina, pelo vasto campo vazio e a contemplação de um horizonte infinito, mesmo que, dessa vez, não rodeada por montanhas cobertas de gelo.
Diferente de Puerto Natales, Soledade é uma cidade com o dobro do tamanho, tanto em população como em espaço. Atrás da Rodoviária Municipal, alguns Pinheiros fazem música quando o vento resolvem tocá-los. O silêncio é confortante e o outono é tão leve quanto as folhas secas jogadas no gramado das praças. Não lembro quantas avenidas tinha, não que isso importe. Não lembro se já andei por toda a cidade, não que isso também importe. Mas comecei a notar que tudo se encaixava desde o primeiro momento que pisei meus pés naquela cidade. Mesmo que, no momento, eu não conhecesse alguém que me convencesse a querer ficar, bastava a insistência dos meus desejos mais pirrônicos, e eu fiquei.
Eu a fotografei com meus olhos em pleno inverno quando as ruas ficavam cobertas por neblina em vespertino. Eu a escrevi poesias na vista de um apartamento grande e vazio. Especulando o silêncio nos caminhos entre um bar e outro, a espera de nada. Andei por ruas pavimentadas por pedras e asfalto liso. Observei a chuva cair em algum quintal gramado coberta de flores roxas. Vi o ocaso terminar sua jornada em seus diferentes pontos. Contemplei o horizonte infinito visto do fim de alguma rua no centro da cidade. Corri por ruas vazias. Ouvi latidos vindo de quadras distantes. Postes com lâmpadas amarelas. O balanço da praça central. Os bares que não dou nome. O parque que, no inverno, recebe infinitos tons de vermelho do ocaso me fazendo querer sonhar com ele pela noite. Desenhei em mim cores de desejo, de intensidade, de melancolia, de uma infinita vontade de permanecer amando em Solitude. Eu não sei o que te fiz, se eu pedi demais ou se estava sendo distraída. Se eu pudesse, nadaria em teu colo entrando pelos seus profundos olhos de cores musgos. Assim, entenderia que Soledade é apenas um fragmento dos caminhos que preciso percorrer pela vida.
Eu não sei bem o que era. Também o cansaço, a maldita turbulência pega atravessando as cordilheiras e ao mesmo tempo, o alívio por não ter feito o trajeto de carro. Puerto Natales foi como encontrar um baú de ouro no fim de um Arco-íris. Se existe um espaço na consciência onde os desejos ocultos ficam guardados, lá estava uma cidade pequena escondida pela Neblina, pelo vasto campo vazio e a contemplação de um horizonte infinito, mesmo que, dessa vez, não rodeada por montanhas cobertas de gelo.
Diferente de Puerto Natales, Soledade é uma cidade com o dobro do tamanho, tanto em população como em espaço. Atrás da Rodoviária Municipal, alguns Pinheiros fazem música quando o vento resolvem tocá-los. O silêncio é confortante e o outono é tão leve quanto as folhas secas jogadas no gramado das praças. Não lembro quantas avenidas tinha, não que isso importe. Não lembro se já andei por toda a cidade, não que isso também importe. Mas comecei a notar que tudo se encaixava desde o primeiro momento que pisei meus pés naquela cidade. Mesmo que, no momento, eu não conhecesse alguém que me convencesse a querer ficar, bastava a insistência dos meus desejos mais pirrônicos, e eu fiquei.
Eu a fotografei com meus olhos em pleno inverno quando as ruas ficavam cobertas por neblina em vespertino. Eu a escrevi poesias na vista de um apartamento grande e vazio. Especulando o silêncio nos caminhos entre um bar e outro, a espera de nada. Andei por ruas pavimentadas por pedras e asfalto liso. Observei a chuva cair em algum quintal gramado coberta de flores roxas. Vi o ocaso terminar sua jornada em seus diferentes pontos. Contemplei o horizonte infinito visto do fim de alguma rua no centro da cidade. Corri por ruas vazias. Ouvi latidos vindo de quadras distantes. Postes com lâmpadas amarelas. O balanço da praça central. Os bares que não dou nome. O parque que, no inverno, recebe infinitos tons de vermelho do ocaso me fazendo querer sonhar com ele pela noite. Desenhei em mim cores de desejo, de intensidade, de melancolia, de uma infinita vontade de permanecer amando em Solitude. Eu não sei o que te fiz, se eu pedi demais ou se estava sendo distraída. Se eu pudesse, nadaria em teu colo entrando pelos seus profundos olhos de cores musgos. Assim, entenderia que Soledade é apenas um fragmento dos caminhos que preciso percorrer pela vida.
09/05/2017
07/05/2017
Tentâmen Sensus V
decoro sobre o corpo
tato
caminha sobre meu corpo
que é um mundo
com lugares inexplorados
que nem eu mesma pude conhecer
o pudor que nos aprisiona
o medo que nos aprisiona
chegam de barco afim de explorar terras desconhecidas
de prazer
para o seu bel prazer
desconhecendo que
há profundos caminhos que os levam
para lugar algum
e partem em busca de novas terras
ultrapassando o limite dos caminhos
e morrem antes de conhecerem
a grandeza de uma alma
cujo as terras mais profundas
estão infindo em feridas
decoro sobre o corpo
tato
caminha sobre meu corpo
que é um mundo
com lugares inexplorados
que nem eu mesma pude conhecer
o pudor que nos aprisiona
o medo que nos aprisiona
chegam de barco afim de explorar terras desconhecidas
de prazer
para o seu bel prazer
desconhecendo que
há profundos caminhos que os levam
para lugar algum
e partem em busca de novas terras
ultrapassando o limite dos caminhos
e morrem antes de conhecerem
a grandeza de uma alma
cujo as terras mais profundas
estão infindo em feridas
27/04/2017
Tentâmen Sensus IV
ensaio sobre decoro
eu gosto de você
ensaio sobre decoro
eu gosto de você
do seu jeito de andar
do seu jeito de mexer o cabelo
do jeito que você sorri com os olhos
eu gosto da sua teimosia
da sua falta de lábia
e do seu beijo travado
eu gosto da maneira como me segura
com seus braços
com seu colo
e o seus olhos castanhos
eu gosto dessa sua tentativa
de mostrar que sabe o que está fazendo
mesmo que não saiba de absolutamente nada
eu gosto da maneira como você se encanta
pelas coisas que não são do seu feitio
mesmo que de maneira cega
não veja que tudo é tão pouco
dentro daquilo que cabe dentro da gente
eu gosto da sua perdição
da sua pretensão
por querer tão pouco o que ainda não te cabe
e você segue vazio
por estar tão cheio
de coisas atravessadas
mas sim, eu gosto de você
do que vejo de você
do que espero de você
e do que te sinto
mas por mais que eu goste tanto de gostar de você
sigo meu caminho nos postergando
por gostar muito menos de você
do quanto eu gosto de mim
25/04/2017
Tentâmen Sensus III
Enquanto toca Seven Seconds eu vou até a cozinha e preparo um chá. Em três passos eu caminho até o lado mais puro das minhas lembranças: o céu estava calmo depois de desabar seu choro. O subúrbio do Rio de Janeiro recebeu um arco-íris de infinitas cores naquela tarde de primavera. A comunidade nunca foi tão calma. Algumas casas alagadas, alguns corações partidos. Mas o céu nos refletia nosso próprio brilho ultrapassando qualquer casebre malfeito de tijolos. Eu jurava que um dia aquilo tudo ia ter algum sentido em algum momento. Mas o sentido estava ali dentro de mim, o tempo todo esteve e sempre vai estar.
Um arco-íris intenso de infinitas cores dentro do meu peito que repousa nos reflexos das poças d'água que a chuva abriga nos buracos esquecidos pelo chão.
Enquanto toca Seven Seconds eu vou até a cozinha e preparo um chá. Em três passos eu caminho até o lado mais puro das minhas lembranças: o céu estava calmo depois de desabar seu choro. O subúrbio do Rio de Janeiro recebeu um arco-íris de infinitas cores naquela tarde de primavera. A comunidade nunca foi tão calma. Algumas casas alagadas, alguns corações partidos. Mas o céu nos refletia nosso próprio brilho ultrapassando qualquer casebre malfeito de tijolos. Eu jurava que um dia aquilo tudo ia ter algum sentido em algum momento. Mas o sentido estava ali dentro de mim, o tempo todo esteve e sempre vai estar.
Um arco-íris intenso de infinitas cores dentro do meu peito que repousa nos reflexos das poças d'água que a chuva abriga nos buracos esquecidos pelo chão.
24/04/2017
Tentâmen Sensus II
Eu aprendi a ter compaixão.
21/04/2017
Tentâmen Sensus I
Saio do escritório as seis e pego a lotação as seis e onze.
Vejo por três dias seguidos uma nebulosa vestida de humano.
Primeiro dia: As cores eram verde com purpurinas azuis.
Segundo dia: Aproximou-se da lua quando pegou a lotação.
Terceiro dia: A nebulosa observara a chuva pensando em Júpiter, mas seu olhar era Plutão.
Saio do escritório as seis e pego a lotação as seis e onze.
Vejo por três dias seguidos uma nebulosa vestida de humano.
Primeiro dia: As cores eram verde com purpurinas azuis.
Segundo dia: Aproximou-se da lua quando pegou a lotação.
Terceiro dia: A nebulosa observara a chuva pensando em Júpiter, mas seu olhar era Plutão.
13/04/2017
Estar sozinha me ensinou que essa coisa de ser livre é pura ilusão. Há quem diga que ter caminhos a percorrer durante uma vida ou uma tarde inteira e não ter que explicar absolutamente nada para ninguém é uma condição de liberdade. As estradas que peguei no caminho entre sudeste e o sul não levaram a lugar nenhum e isso é simples: O caminho está na alma, o ser humano é um parasita, o amor está nas entrelinhas e no fundo, sempre deixamos algo preso em alguém pelos caminhos.
Faz parte do instinto.
Faz parte do instinto.
31/03/2017
29/03/2017
24 de Abril
Quando eu era criança, achava que a vida tinha um trajeto, achava que determinadas ligações de acontecimentos em algum momento, em algum ponto final, iam fazer todo o sentido.
A primeira vez que fui a 24 de Abril, era noite. Não sabia que a rua em que eu estava era a 24 de Abril. Não sabia o bairro ou o ponto de referência. Eu apenas fui. No alto de um prédio residencial, eu ouvia de longe pessoas cantando as mesmas músicas que me era de praxe na infância. A noite estava quente. Os sentimentos também. Mas sei que estava bem próxima do céu.
A segunda vez que fui na 24 de Abril, eu precisei seguir o endereço anexo em uma prancheta de consulta de rotina. Essa foi a primeira vez que ouvi, de fato, falar dessa rua, sem saber que eu conhecera antes. Pela tarde peguei um táxi às pressas, estava atrasada, como não sabia o endereço, achei cômodo os táxis terem GPS. O taxista não soube localizar o ponto certo, damos algumas voltas, por fim ele me disse: - "Senhora, essa rua começou ali atrás e termina aqui. Não acha melhor descer nesse ponto? Acho que essa rua é bem curta mesmo" - Na dúvida e pressa, desci.
A 24 de abril é uma rua que começa no meio de uma outra rua, e termina, repentinamente, dando inicio a outra. Ela é uma rua tão curta, que ocupa no máximo de 2 a 3 quadras. Me atrasei para a consulta. Realizei o procedimento e fui até o banco na avenida paralela já que não aceitavam a bandeira do meu cartão. Voltei ao consultório, paguei, e em seguida fui ao ponto de ônibus mais próximo em direção a estação. De dia a rua comercial é bem movimentada, e por ter características diferentes do ambiente noturno, eu não sabia que eu já conhecia aquela rua.
Duas semanas depois eu passei, por acaso, pela 24 de Abril a procurar por uma outra rua onde localiza o centro de distribuição de correspondências. Eu esperava um documento importante que não chegou até mim por engano e voltou para o centro de distribuição. Dessa vez o endereço se localizava próximo a praça principal da região, a praça que foi ponto de referência na primeira visita a 24 de Abril. O atendente do primeiro ponto de distribuição próximo a praça, me deu o endereço correto de onde poderia localizar minha correspondência: -"A senhora atravessa a praça, segue reto até a ponte, logo depois da ponte na primeira rua a esquerda, fica no final dela o ponto de distribuição". Eu fui andando, era tarde, lembro que era perto das quinze horas e a temperatura estava muito alta. Me aproximando da ponte, notei que o prédio a direita era familiar. Um prédio residencial muito alto, que só observei nesse mesmo dia. Era ali, a primeira noite na 24 de Abril, a segunda vez a procura pelo consultório e a terceira me perguntando: por que logo aqui?
Passei pela inscrição da faculdade, moraria em outra cidade, mas por ironias do destino, permaneci. Decidi morar no centro da cidade, negociava um apartamento perto da estrada, mas por intervenção, escolhi um conjugado na mesma rua. Uma rua que no final dela, chega na praça principal, a mesma praça em frente a igreja, a mesma praça que foi dada como referência na primeira noite na 24 de Abril.
Vivo meus dias longe dela. Quando é preciso me aproximar, sobe uma ânsia sobre meu estômago congelante, mas sigo e volto, como quem sabe o próprio limite. Outro dia eu quis sair para encontrar a floricultura mais próxima e ter cactus no conjugado. Mas a floricultura mais próxima era na 24 de Abril. Pensei em ir, ensaiei os passos, as possíveis alternativas caso precise fugir ou explicar minha presença naquela rua. Mas não fui.
Os dias correram devagar. Atravesso as ruas com medo de esbarrar por algum fantasma ou vestígio do tipo. Do meu conjugado ouço o sino da igreja em frente a praça bater. Meio dia, às dezoito horas e aos domingos, também às sete. Às vezes vou até a praça nos domingos a noite, fico observando a barraca de pipoca doce, os fiéis assistindo a missa, as crianças no parquinho e os carros passando pela avenida em direção paralela a 24 de Abril. Do outro lado, vejo carros vindo dela.
Um dia sonhei com a 24 de Abril ao amanhecer. Era daqueles amanhecer que ainda não aparecia sol, então era facilmente confundido com o fim da tarde, mas de algum modo eu sabia que era a manhã. As manhãs sempre me deixam melancólicas, mas nesse sonho eu não sentia melancolia. O ponto era em frente a entrada do prédio do lado da ponte, vazio, com flashes de fantasmas que pareciam ser alguém que eu conhecia, mas simplesmente não era.
Ontem eu fui chamada para comparecer a uma entrevista de emprego, o endereço anotado às pressas era "4 de Abril, 2890, centro da cidade, comparecer amanhã às 8:30 da manhã", depois de terminar a ligação, eu percebi que não existia 4 de Abril no centro da cidade, o endereço mais próximo de ser era 24 de Abril. Eu não dormi, eu esqueci completamente por onde andei essa noite. Às sete eu levantei, tomei um banho longo, em seguida saí em direção a entrevista. Atravessei a praça pela manhã a sorrisos, das pessoas sem pressa, dos senhores nos bancos da praça, dos comerciantes e das árvores que há dias de dias nublados, pediam pelo sol. Tão próxima a rua 24 de Abril, caminhando, pouco trânsito, vento frio.
Saindo da entrevista, dei uma pausa no caminhar. A vista daquela direção era a mesma vista do sonho que aqui mencionei. Não vi fantasma algum, mas gostaria. Sorri. Eu sorri como se eu estivesse em um filme e ele acabara de chegar perto da reta final. Eu sempre achei que tudo tinha uma ligação, que tudo no final ia fazer algum sentido. Mas deixei de acreditar nisso há algum tempo atrás. No fundo eu gostaria muito que as minhas frequentes idas a 24 de Abril significassem alguma coisa para que tudo isso fizesse algum sentido, mas a primeira noite nela consequentemente será a única e no final de tudo isso, minhas idas e vindas por essa rua, um dia, não fará mais sentido nem nas minhas mais insignificantes lembranças.
06/03/2017
Cheguei na praia perto das seis. Eu não cogitava entrar no mar já que a noite estava caindo. Mas estava tão calor que eu resolvi pôr os pés na borda para sentir a temperatura, sem nenhuma pretensão ou algo assim. Quando eu finalmente coloquei os pés na água, já estava passando pelas minhas coxas. Depois os quadris e os seios. Por algum minuto eu fechei os olhos e vi seu rosto. Quando dei por mim estava envolvida pela água e me joguei. Flutuei em alto mar sem me preocupar com o tempo, com a tempestade que estava por vir e com a chuva.
Existe maneira mais profunda de se apaixonar por alguém?
Existe maneira mais profunda de se apaixonar por alguém?
05/03/2017
ela começa a dançar pelo estômago
fria como o fim de outono
pula até se segurar ao coração
e se mantém quente como o fim da primavera
ela queima e machuca
como um verbo que não cabe na existência
e fica presa entre o peito e o céu da boca
então ela recita versos pelo corpo inteiro
aos pés de caminhos desandados
e as mãos que não resistem aos toques
toda vez que vê aquele que se sabe o nome
mas desconhece o infinito que te provoca
essa tão inquietante lamúria
se transforma em fogos artifícios
fogos que queimam em silêncio dentro do peito
como se o próprio silêncio
o fizesse sempre
amar sozinho
fria como o fim de outono
pula até se segurar ao coração
e se mantém quente como o fim da primavera
ela queima e machuca
como um verbo que não cabe na existência
e fica presa entre o peito e o céu da boca
então ela recita versos pelo corpo inteiro
aos pés de caminhos desandados
e as mãos que não resistem aos toques
toda vez que vê aquele que se sabe o nome
mas desconhece o infinito que te provoca
essa tão inquietante lamúria
se transforma em fogos artifícios
fogos que queimam em silêncio dentro do peito
como se o próprio silêncio
o fizesse sempre
amar sozinho
28/02/2017
ansiedade
escuto meu álbum favorito
estou na rua com meu melhor amigo
ruas vazias, batidas oitentistas
vento batendo nas árvores natalinas
é verão
é janeiro
é outono no gramado do campus
minha casa favorita está vazia
é salmão
cor de verão salmão
eu quero desesperadamente apertar no quatrocentos e sete
não tem ninguém
tem você
cabelo castanho
sorrir com os olhos
passeios na praça no centro da cidade
barraca de churros
trailer de cachorro-quente sem salsicha
chuva
jornaleiros fechados
passagem de verão
clima de invern
como nos filmes de dois mil e quatro
quando eu ainda chorava de saudade daquilo que ainda não tinha vivido
eu estou vivendo
estou esperando
estou esperando por mim mesma
só pra despertar no agora
25/02/2017
Saí do apartamento as duas da manhã. Encontrei com ele na esquina da minha rua. Com um cliente ou dois, a pizzaria mais próxima estava prestes a fechar. Em um bairro silencioso do continente, há muita gente que ainda estava acordada, assim como a gente. Resolvemos caminhar mesmo que o céu prometesse mais chuva. E choveu. As gotas caíram quentes e grossas. Conforme as chuva apertava, diminuíamos o ritmo dos passos aproveitando cada gota como se o céu pudesse nos abençoar. Eu poderia fotografar o que sentíamos, mas era impossível, e mesmo que eu tentasse descrevê-lo, não descreveria com tanta veracidade.
22/02/2017
O jardim de Aquário é logo na esquina. Atravesso a avenida e em seguida, duas quadras. Pedras Portuguesas, ruas serenas, botecos com os nomes de seus donos. A praça tem o calor vivo das crianças do subúrbio, mas a serenidade vista em seus olhos são como pássaros noturnos a espera da manhã. Sento em frente a rampa de convivência coletiva. São quase nove da noite e não tenho pressa. Eu caminho como se estivesse passando em frente ao seu prédio quando volto pra casa.
Eu não consigo parar de pensar sobre os trajetos percorridos dos dias que ainda estão por vir.
19/02/2017
Morei em tantos lugares, esbarrei com tantas pessoas. Pessoas de todos os tipos e idade. Por causa dessas pessoas deixei de ter muitas dúvidas e nenhuma certeza de nada. As pessoas são complexas, o que elas fazem, o que elas sentem, a maneira como dizem amar, se são felizes ou não, se estão fazendo a coisa certa para si ou para a sociedade. Sem dúvidas, as que eu mais gostei de conhecer foram as pessoas loucas. Aquelas que são loucas pra viver, aquelas que sentem dor, aquelas que choram, aquelas que surtam, aquelas que perdem o equilíbrio. É impressionante como eu vejo tanta vivacidade nessas pessoas que se expõem, que se libertam, que se abrem infinitamente para si e para o mundo. Eu gosto é de gente caótica. De gente que se apaixona sempre, de gente que sempre tem dúvida sobre tudo e certeza de nada. De gente que grita, implora e luta. Sobre as pessoas socialmente e emocionalmente estáveis, eu nada pude aprender com elas. Pois vejo beleza no contraste do que não se deve ser. Entre aquelas que tem medo de se jogar no mar, há sempre aquelas que se entrega a ele, nem que seja para se afogar de amor.
17/02/2017
Isso aconteceu há anos atrás quando eu ainda morava na beira do cais. Primeiro a gente se cruzou na praia. Era de noite. Praia vazia. Eu estava sozinha e você também estava sozinho. Você não me viu, pois era daquelas pessoas que gostava de ler o mar e se perder no brilho da orla do outro bairro. A segunda vez que nos vimos, pegamos o mesmo transporte público. Você sentou na minha frente e ficou horas conversando com um senhor e quando desceu, se despediu dele com um 'até logo' e em seguida pensou em voz alta: "por que eu disse isso?" - e mais uma vez, você não me notou.
Fiquei dias pensando em como alguém tão sozinho poderia estar perdido na Praia da Brisa? Alguém tão sozinho quanto eu.
Eu não lembro quando nos falamos a primeira vez. As primeiras lembranças que tenho de você é que a gente saiu algumas vezes para fotografar na praia. A gente ouviu músicas no seu quarto e andamos um bairro inteiro bêbados de vinho pensando em invadir uma mansão. Tudo o que lembro de você são flashes do que realmente importou pra mim: você se tornou o meu melhor amigo, fazíamos tudo juntos, compartilhamos segredos, conhecemos os pais um do outro, fizemos amigos novos juntos, bebemos em um colégio vazio a noite, jogamos ouija e sonhávamos que um dia a gente iria enfeitiçar o mundo com poesia. Outra coisa que importou bastante pra mim foi que a gente se afastou. E eu não sei o porquê. E no fundo por que eu deveria me importar? Tudo um dia acaba, mas os sentimentos ficam guardados aqui dentro, como referências dos próximos momentos que ainda vão acontecer. E eu te agradeço muito por isso.
Fiquei dias pensando em como alguém tão sozinho poderia estar perdido na Praia da Brisa? Alguém tão sozinho quanto eu.
Eu não lembro quando nos falamos a primeira vez. As primeiras lembranças que tenho de você é que a gente saiu algumas vezes para fotografar na praia. A gente ouviu músicas no seu quarto e andamos um bairro inteiro bêbados de vinho pensando em invadir uma mansão. Tudo o que lembro de você são flashes do que realmente importou pra mim: você se tornou o meu melhor amigo, fazíamos tudo juntos, compartilhamos segredos, conhecemos os pais um do outro, fizemos amigos novos juntos, bebemos em um colégio vazio a noite, jogamos ouija e sonhávamos que um dia a gente iria enfeitiçar o mundo com poesia. Outra coisa que importou bastante pra mim foi que a gente se afastou. E eu não sei o porquê. E no fundo por que eu deveria me importar? Tudo um dia acaba, mas os sentimentos ficam guardados aqui dentro, como referências dos próximos momentos que ainda vão acontecer. E eu te agradeço muito por isso.
15/02/2017
Me sinto submersa.
Te encontrar me fez ver um lado de mim que eu ainda não conhecia. Algo que eu não sabia que se era o correto a ser feito, ou sentido. Te olhar, fazer tranças em teu cabelo longo, tocar a tua barba e perceber a cor viva dos teus lábios naturalmente rosados, me fez ignorar que esses profundos olhos emaranhados de verde musgo não pediram para que eu pudesse te salvar. Foi tudo uma coisa estúpida que eu criei e escolhi para que os meus vazios e ansiosos dias fossem salvos.
Não tenho as mais doces lembranças de ti porque não deu tempo para que elas fossem criadas. As poucas que tiveram, não há nenhuma veracidade. Mas eu estupidamente te quero. Te quero como o as gaivotas voam sobre a brisa do verão, te quero como o farol aceso de um porto marítimo abandonado. Te quero com lamúria. Te quero com ardor. Mesmo que tenhas escolhido te proteger disso, mesmo que tenhas a indecência do doesto contra meus sentimentos e resolveste fazer do nosso tempo o teu desenfado. Eu te desejo, com valimento, todo esse ardor que desconheces.
Te encontrar me fez ver um lado de mim que eu ainda não conhecia. Algo que eu não sabia que se era o correto a ser feito, ou sentido. Te olhar, fazer tranças em teu cabelo longo, tocar a tua barba e perceber a cor viva dos teus lábios naturalmente rosados, me fez ignorar que esses profundos olhos emaranhados de verde musgo não pediram para que eu pudesse te salvar. Foi tudo uma coisa estúpida que eu criei e escolhi para que os meus vazios e ansiosos dias fossem salvos.
Não tenho as mais doces lembranças de ti porque não deu tempo para que elas fossem criadas. As poucas que tiveram, não há nenhuma veracidade. Mas eu estupidamente te quero. Te quero como o as gaivotas voam sobre a brisa do verão, te quero como o farol aceso de um porto marítimo abandonado. Te quero com lamúria. Te quero com ardor. Mesmo que tenhas escolhido te proteger disso, mesmo que tenhas a indecência do doesto contra meus sentimentos e resolveste fazer do nosso tempo o teu desenfado. Eu te desejo, com valimento, todo esse ardor que desconheces.
13/02/2017
01/02/2017
Me esqueci em que dia da semana estamos. No chão do quarto e no meio do barulho da chuva, a madrugada nunca me foi tão íntima. Há muito tempo que eu não me ouvia. Na tela da TV uma mulher com vestido branco dança sorrindo, graciosamente dança no ritmo da chuva e eu choro no ritmo do céu. Trovões, na esquina um desconhecido chamado Conrado. - Oi, tudo bem com você? - Não muito bem... - O que houve? Eu sou assim, pessimista e sempre com um mau presságio como desculpa e ele, Conrado, diz que pessimismo é paixão frustrada. Sei lá.... Paixão pode ser qualquer coisa então, qualquer coisa mesmo, uma vontade intensa e reprimida. O problema é que estou morando sozinha em uma cidade na qual não conheço ninguém, até fiz amigos aqui, mas de pouca data. Eu não vou voltar. Algo me prende aqui, é muito intuitivo, tanto que quando sonho que estou voltando, eu me sinto em uma estrada sem rumo. É complexo e angustiante e além do mais eu estou há dias sem dormir. Se quer saber mesmo, quero ser livre, mas saber o que fazer com essa liberdade. Olhe bem, eu estou morando em uma cidade sozinha, posso fazer o que eu quiser e quando quiser, porém eu continuo sem saber o que é ser livre. Eu sei que liberdade é uma questão pressuposto, são momentos de euforia, mas liberdade, é no fundo, não ter medo. Conrado me contou em seguida que seu maior sonho era tocar pelo mundo. Os olhos ressaltaram um brilho único e distante com uma frase típica de otimismo. Eu sei que ele vai. A gente consegue tudo o que quer, sabia? Tudo o que realmente queremos. Ele, ainda com o brilho distante nos olhos, contou que tudo pelo que lutou, teve seu sucesso. Sabe, é fato que o medo é instintivo, uma auto preservação, mas é que eu nunca soube diferenciar intuição do medo a não ser que eles entrem em conflito e comecem a brigar dentro da gente para que no final nós saiamos machucados. Se algum dia alguém me pedir um conselho, eu vou dizer: Confie na intuição, o medo é apenas um conforto. E se é a intuição que sempre diz sim? Não, o desejo que sempre diz sim. A intuição se quer dá alguma resposta. Mas Conrado, está amanhecendo, eu acho que foi um dia ruim para uma prosa. Não se preocupe pela curiosidade de não saber quem eu sou porque nem eu mesma sei. Mas eu concordo que por poucas linhas em um bloco de anotações, nos conhecemos muito mais do que muitos desconhecidos por aí.
26/01/2017
eu queria dizer que, excepcionalmente hoje, no dia chuvoso de uma quinta-feira em um bairro silencioso do continente, onde as cores da paisagem se misturam de verde, azul e cinza, deverá existir alguém, um único e solitário alguém, que vá compreender o genuíno das gostas da chuva que caem na janela como um gesto simples de existência e não vai se sentir indiferente como se a vida perdesse o sentido quando paramos pra observar a chuva.
08/01/2017
Lazúli. Eu preciso viver próxima do mar. Areia clara e seca. Cor de açúcar mascavo. Meus pés afundam quando paro e flutuam quando corro. A orla é pavimentada com pedras lazúli. Lazúli da cor mar. O vento sopra pro sul. Meu cabelo voa, meu vestido branco voa, as tendas dos quiosques voam, as folhas secas voam, as ondas correm, correm, correm e batem na orla como quem não quer mais voltar.
Eu preciso viver próxima do mar.
03/01/2017
Se não fosse horário de verão, poderia dizer que nesse momento o tempo atravessa pelas quinze da tarde de uma terça feira. Pedi um suco em uma lanchonete aqui do bairro, sentei nas mesinhas postas na calçada e observei que, não sei se pela composição das cores infinitas em tom de laranja e verde ou pelo sebo do lado na lanchonete com um cartaz nostálgico do filme Casablanca, é que observando as pessoas daqui da mesa, é como se elas estivessem encenando em alguma telenovela brasileira dos anos noventa. Veja bem, estou sentada em uma mesa rústica de madeira. Há sombra na calçada coberta, e no bar do outro lado no sebo, tem um senhor que chutaria ter uns setenta anos de idade sentado em uma mesa de plástico vermelha que pertence a um bar sem nome. Eu não sei o que ele pensa, mas acredito que pela expressão de nostalgia que aquele olhar perdido nos pensamentos traz, ele deve estar sentindo exatamente o que sinto agora. Em algum momento de sua vida, talvez nos anos oitenta, ele sentiu que se perdeu na paisagem como em um filme mudo ou até mesmo fazendo anotações sobre pessoas com olhares perdidos em uma tarde nostálgica de terça feira.