12/12/2015

Introspectivo. Ele sai pela manhã em um dia nublado. Os pingos da chuva desenham a janela do transporte público, nada muito realista, talvez porque tudo seja mesmo de mentira. Ele sai por aí sem abrir o guarda chuva, apenas para sentir as gotas em seu rosto e ter certeza de sua veracidade. A única coisa que ele realmente acredita é no tédio dos dias que correm e escorrem pela janela do transporte público feito gotas em dias de chuva.

O introspectivo tem um mundo inteiro dentro do peito
e o que vem de fora não cabe mais.

03/11/2015

Vago por aí e a nada pertenço, mas às vezes me cai em falta pertencer ao mar. Ando íntima de mim mesma quando não durmo, sumo do cotidiano e engano a vida. A própria vida que me é tão fácil enganar.
A vida é bem isso mesmo, tudo engano, tudo insano, tudo encanto. Porém em cada canto que se vai sozinho é uma ilha inabitável. O isolamento é tortura de muitos e privilégio de poucos. Poucos têm a oportunidade de conversar consigo mesmo.
Fui até a praça da esquina no fim da última tarde. E em cada canto o encanto de seu grupo: rapazes competindo sabedoria; mulheres sorrindo para outros rapazes; crianças correndo pela grama; pessoas em uma conexão divina em infinitos círculos pela praça. Raios de sol atravessando as folhas das árvores que não paravam de balançar por conta do vento e assim formando desenhos na grama. As árvores cantavam, cada uma no seu ritmo fazendo da praça um grande concerto sinfônico e eu, uma mera espectadora de um longa metragem com os melhores atores e a melhor fotografia e trilha sonora.

Vago por aí e a nada pertenço. Ando íntima de mim mesma a maior parte do tempo. A vida é bem isso mesmo, tudo engano, tudo insano, tudo encanto. Poucos têm a oportunidade de conversar consigo mesmo.

 Ser sozinho é uma ilha inabitável e privilégio para poucos.

13/10/2015

Saímos da sua casa chapados a andar pelas ruas de madrugada. O centro da cidade era inteiramente nossa, até você segurar forte a minha mão na avenida principal. O brilho da vida não pertencia aos postes, nem ao céu estrelado dessa terça feira.

Em uma lancheria, falamos dos nossos melhores amigos, das minhas boas lembranças com meu pai na minha infância. Dos nossos sonhos, que ainda não são nossos e das viagens que ainda não fizemos: uma ida ao interior para fotografar a natureza com os nossos próprios olhos.
Eu escrevo com a luz, você escreve com todas as canções que ainda podem ser escritas. Gosto dos seus olhos verdes-veludo, de suas mãos largas e diretas. Eu me seguro para não beijá-los sempre que seus olhos sorriem. Sei que ainda não te falei isso, mas seu corpo inteiro sorri pra mim. E eu me sinto completamente desajeitada sem saber como reagir. 
Essa noite a gente finge que a cidade nos pertence. A gente finge que o limite da nossa entrega ultrapasse o limite de todos os nossos medos.

31/08/2015

que seja o arco íris em volta da lua
que seja o sol mais iluminado de domingo
há uma manta de raios dourados que envolve o seu cabelo
e o oceano nos olhos de uma alma submersa
me afogar e perder essa paisagem não seria tão prudente
quanto navegar na leveza dos possíveis encontros do teu canto

23/06/2015

Estamos perdidos. Sentamos na cama, perdidos. Olhos cheios d'água e de agonia. Ele se diz mais agoniado e triste do que eu. Ele diz isso porque não entende o fato de eu querer fugir das pessoas que me caem em afeto. E digo que não o amo mais, repenso as consequências do desamor e me cai o mesmo: O verdadeiro motivo é que não sei. E de repente odeio essa cidade e caio em mágoa dessas ruas de pedras. E de repente eu amo tudo aquilo que odiei. 
Escrever não me salva. Chorar não me salva. Amar também não me salva. Sei que pode parecer desafeto, mas tudo é tão simples e inalcançável olhando de fora que quando olho pra dentro de mim, não quero mais entrar. E fico perdida, com os olhos cheios d'água e de agonia. E ele me olha perdido como se não entendesse mais nada. E lá fora chove, raios, trovões e barulhos de vento no forro da casa. E de repente por dentro tenho o sol, tenho banhos de chuva quente, tenho blues no fim da tarde e tudo canta. Minha'alma canta, meu corpo e meus olhos se perdem nas coisas que via e nunca encontrava. E ele me olha perdido como se tudo tivesse acabado. E eu quero fugir para uma cidade que ninguém me note. Eu quero fugir de todos que me conhecem, porque de algum modo sei que não tenho nada a mostrar a eles. E ele... ele diz que sou a garota mais incrível que ele já conheceu. E de repente vejo que não tenho mesmo nada a mostrar. As músicas que nós conhecemos, os livros que lemos, os filmes que assistimos juntos; as garotas que ele já amou, as declarações soltas nos guardanapos das lancherias. O Rio, Brasília, O Sul. Tudo se apagando por um momento e voltando como fantasmas que me assombram na cozinha.
Eu só queria que alguém me desse uma sacudida. Eu só queria que alguém me puxasse do abismo da dúvida sem me garantir a certeza. Porque a única certeza que sei é que carrego o peso do próprio mundo e se eu tivesse uma única oportunidade de voltar atrás, simplesmente faria tudo de novo, sem perceber.

18/06/2015

Viajamos no cosmos azul e brilhante. Os olhos estavam fixos um ao outro com um misto de leveza e desespero, também, pela leveza um do outro. Quando ele me aninhou em sua cintura e me deitou nas nuvens, vi o céu estrelado pousar por cima de nós, e com ele, a lua clara e brilhante. A grama era fresca e recém aparada. Não só os nossos corpos, mas o vasto campo era iluminado com um cristal azulado. Um azul marinho de céu a noite. A noite girava em nossa cabeça, corpos suados flutuando sobre a cama e a grama. Um quarto coberto de espelhos moldados e observados por estranhos curiosos e famintos pela energia única que só a gente sentia. Uma grande mansão branca com tetos de vidro e o sol refletia nos nossos corpos no tapete da sala e a gente não via que a hora passava. Muita gente olhava desejando a relevância do valor das coisas que o dinheiro não paga. Essas pessoas não são confiáveis, por alguma razão desconhecida. Se a sintonia é recíproca o segredo é nosso, eles não entendem que para viajar no cosmos só o desejo não basta, é preciso entrega

(de infinitas coisas coisas que não se cabem dizer)

17/06/2015

Sempre achei que as pessoas nasceram para se virarem sozinhas. Sempre achei que o conforto era a base de quase tudo e que todas as escolhas e situações confortáveis trariam o mínimo de satisfação.
Tive situações desconfortáveis na infância. Uma delas é quando meus pais resolveram sair no meio da noite sem que eu os visse. Eu devia ter uns quatro anos de idade, lembro bem que a única reação que tive foi de chorar por achar que eles nunca mais voltariam.
E é assim que me sinto hoje, um poço de desconforto por achar que não preciso sofrer assim por alguém. E tento ser forte e me enganar e tento também superar meus medos contando a mim mesma que aquilo era apenas um equívoco de quem não sabia nada sobre a vida. Acho que na verdade a gente nunca sabe.

14/06/2015

Levanto da cama com cuidado para não te acordar. Ainda é escuro e a janela é uma tela de chuva simples e contínua pintando todo o asfalto molhado com o reflexo coral dos postes da segunda maior avenida da cidade. O apartamento fica no terceiro andar. Te olho e penso no quanto é poético morar numa cidade cujo nome significa 'Solidão'. Alguns dizem que o tempo faz com que nos surgem efeitos que dão juízo ao seu nome. Outros dizem então que ela é regida por uma santa acolhedora. Não me importa, eu sempre me sentirei contigo, principalmente quando estou sozinha. Como no cais, no teu moletom e em todas as manhãs de geada da tua antiga paisagem.
Eu definitivamente entendi que o que sentimos naquele tempo, sempre fará parte de mim, de nós e de tudo. Sobre as ruas que caminhamos, as estradas que viajamos, as camas que dormimos. As xícaras, o gramado, o campo vasto no horizonte da nossa janela e todos os sonhos que carregamos na singela sintonia do ser.

27/05/2015

Soledade, Solitude, Solidão...

Hoje fotografei uma bailarina na chuva. 
Me molhei, 
as meias, o casaco e as botas.
Cheguei bem subindo as escadas até abrir a porta do apartamento.
O apartamento mais cheio de coisas vazias,
inclusive eu. 
Aí descobri que não estou muito bem, eu não sei porquê. Eu geralmente nunca sei o porquê. Tô começando a achar isso um tédio. Eu com tédio de mim mesma. 
Então troquei as meias, o sapato e peguei o mesmo casaco molhado e desci até a praça, há duas quadras do prédio. Soledade tem seu charme Belle Époque no inverno. As folhas secas caídas molhadas de chuva, os postes com luzes azuis e as poças d'água pelo mal relevo do espaço público. Eu-simplesmente-vivi-aqui-antes, por muito tempo e sozinha.
E encontrei três pessoas sentadas nos bancos molhados. Me pediram as horas e puxaram assunto perguntando de onde era já que nunca tinham me visto por ali. Eu estava sem relógio. Eu estava sem tempo e ao mesmo tempo com uma eternidade nos olhos. Falaram seus nomes, suas idades e riram depois de algum tempo por distração minha coisas que já não me lembro. Eu não estava ali. Eu nunca estou aonde estou. A praça é de algum filme antigo de cidade grande na America central. O vento pertence ao subúrbio da Pensilvânia e os latidos dos vira-latas abandonados da noite pertence àquelas famílias felizes de algum filme de comédia dos anos oitenta. Depois de algum segundo eles disseram que iam embora 
e começou a chover. 
Aí voltei pra casa. 

10/04/2015

É como aqueles sonhos sobre jardins secretos. 
É como a lua baixa e dourada vista pela janela do quarto.
Eu tenho escutado o mesmo álbum há dias e noites.
Eu tenho desviado caminhos e corrido em atalhos para me encontrar, mas no fim de cada estrada eu não encontro nada além de memórias quentes no meu peito e alma.
Sinto ainda perfumes que me fazem chorar por tempos que nunca chegaram.

Ironias do presente...
apenas. 

24/02/2015

Por que me importaria se a ti ele soa tão falso?
Mesmo que em tuas ventas sejas o verdadeiro poeta,
Mesmo que venhas provar em teoria a falsa lucidez que me cativa
Que reação me provocas além de um tepentuoso tédio?
Me digas
O que seria mais verdadeiro do que as reações do teu incrédulo fascínio que ele me provoca?

23/02/2015

Eu danço contigo todos os dias. No meio da rua como na praia de Itacuruçá, dois loucos e intensos apaixonados pássaros noturnos. Ou quando ouço nossas músicas favoritas, ou até mesmo quando chove. E os pingos quentes se equilibrando na borda do telhado em uma tarde de verão construindo um lindo concerto em meio de uma imensidão de silêncio. O silêncio que nós temos pertence a uma sincronia musical perfeita. E meus olhos dizem tanto a ti como em filmes em câmera lenta em próvia. Como uma bailarina flutuante no gelo dando saltos perfeitos que só cabe a ti saber ler. E tu estás a me ler sempre, até mesmo quando está sempre a se negar. 
E os cantos das árvores sempre contam a mesma história a um casal de pássaros. Então eles saem por aí saltitantes cantando em todas as janelas. Inclusive a tua, como naquela manhã após uma noite na qual uma tempestade bela veio nos visitar. Me abraçaste tão forte que meu mundo se tornou pequeno e simples de acalentar. E os anos e os espaços loucos que corremos e tropeçamos tecendo uma encruzilhada de desencontros uma grande manta que nos protege e acolhe. E é exatamente assim como me sinto por ti agora. Protegida e acolhida como sempre deveria ser. Sinto que nós fomos predestinados, mesmo que por um período curto da nossa existência.

22/02/2015

Vamos nos encontrar no cais, meia-noite chego lá com uma garrafa de vinho, desses, bem baratos e doces. Aquilo que chamam de sangria. 
Eu queria transportar meus sentimentos juvenis e tudo aquilo que já senti nesse embaraço de presente. Não havia ninguém por lá a essa hora. Sentamos, jogamos nossas mochilas sob a cabeça e logo deitamos. Lado a lado olhando o céu nublado conversamos sobre o último álbum lançado da Hope Sandoval. Uma conversa vazia sobre algo na qual eu não conseguia interagir. Então sentei e tomei mais goles de vinho a ponto de esperar a sensação de embriaguez cair como um raio, mas não caiu. Reparou como as palavras estão lisas nesse exato momento? Isso! Nesse exato momento que eu estou escrevendo ou você está lendo. Ou sabe lá quem esteja lendo, não importa. - "Querido, você consegue sentir aquilo que sentimos há três anos atrás?" perguntei. Ele olhou pra mim, com um olhar sóbrio, sem riso, sem espanto respondendo com outra pergunta: -"Aquilo o quê exatamente?" E eu: "Ah, aquela euforia de quando nos encontramos pela primeira vez, de quando te conheci com o Gustavo e a Thaís e saímos saltitantes por uma rua que nunca passamos completamente bêbados por esse mesmo vinho, lembra?"
- "Ah, eu lembro, foi uma noite incrível. Tentamos invadir uma casa, lembra?"
- "Jura? Disso eu não me lembrava"
- "Sim, dormimos na casa do Enrique, todos no chão do quarto. E eu fiquei com o Enrique aquela noite e acho que alguém apertou sua bunda"
- "Quem apertou minha bunda?!" 
- "Ah, o Enrique me formou a isso"
- "Que sacana, sorte de vocês que não percebi. De repente vocês apertaram a bunda da Thaís e acharam que era eu. Mas... aquele dia, assim que cheguei na praia, você estava ficando com a Thaís..."
- "Ah, tava hahaha" 
Mas enfim, você sente ainda essa sensação? Está percebendo que estamos aqui, fazendo exatamente a mesma coisa e mesmo assim parece faltar algo? Ele me olhou novamente com aquele olhar vazio, sóbrio e bêbado ao mesmo tempo e respondeu que as luzes continuavam infinitas. Mas as expectativas são menores como as de antigamente. Que os sonhos são mais simples do que antigamente. Assim como nosso senso de imaginação. 
Naquele tempo sentíamos tudo com uma intensidade tão desconhecida de quem não sabe o que virá no futuro. E olha pra gente agora... Temos trabalhos, filhos, aluguéis, crises existenciais, vícios, paixões auto destrutivas, tristezas e fobias. Naquele tempo sonhávamos com o agora. E agora? O que esperar do amanhã? A noite continua como sempre é apenas vista por novos olhos. 

Terminamos o vinho e jogamos a garrafa na primeira lixeira no caminho pra casa. 

03/02/2015

Vou caminhar sozinha por aí atrás de vaga-lumes com uma garrafa de vinho na mão. Eu saí do meu corpo. Vi a praça vazia e viva. A madrugada pertence a nada. Meu corpo leve e flutuante pertence a ela. Então eu me sinto em prantos, acolhida pela minha própria cor pérola. Lágrimas escorregam lentamente e molham meu cabelo flutuante. Acendo um cigarro. Sento no balanço e me inclino olhando o céu. Não sei porquê eu começo a rir ironicamente. Minha alma está lavada com álcool. O vento sopra suave e forte e faz as árvores cantarem em diferentes tons. Gosto quando o silêncio da cidade me permite ouvir a música dos ventos. Sino dos ventos na varanda. Eu estou longe da cidade, numa estrada coberta de flores azuis e vaga-lumes. Meus passos flutuantes levantam as pétalas secas. Secas pelo rocio, pesadas pelo rocio, ofendidas também pelo rocio  porque o vento não as emergem. Me sinto segura. Me sinto salva pelas três da manhã. Não ouço nada, mas ouço tudo. Eu acordo em cima de um epitáfio e giro por cima dele e me elevo. Cada vez que eu giro, eu me elevo bem alto perto da lua. A lua, ela acende minhas mãos. Eu danço com o plenilúnio e me deito até cair como uma pena. Caí por cima das árvores. Eu me sentia tão leve quanto às folhas. Me senti tão em casa que resolvi morar na praça por um tempo. Eu só existia a noite, então toda vez que o vento soprava a vida era tocada de todas as formas. 

20/01/2015

Sempre te amarei no inverno


Se eu pudesse escolher teu nome, seria outro. Embora eu ame o nome que já tens. Assim, me faz lembrar do quanto tua mente é livre. Na última madrugada eu saí do bar para fumar outro cigarro, gosto de ressaltar que deixei de fumar cigarros de filtro vermelho. Ah, não importa! Não compreenderias, tsc, não quero que me compreendas, na verdade. Eu apenas...
Não queria me ocupar das palavras de outras pessoas, palavras soltas e mal formadas e desesperadas e aleatórias. Como esses blocos de notas que a gente encontra perdido, encardido, vazio, cheio de notas pretendidas e não escritas, e não desenhadas e não cuspidas, tão inútil, tão perdido. Como a escrita e um bloco deixou de ser tão íntimo? Se esconde de uma imensidão de letras cravadas na ponta dos dedos, letras também aleatórias e desesperadas por uma palavra indefinida, por uma frase sem sentido, tão pueril e reticente, mas ainda sim insaciável. E ao invés de soltá-las para serem engolidas, eu resolvi escrever pra ti, ou por ti, ou por mim.
Queria ressaltar que além dos cigarros, eu ando me apaixonando por aí. Por cervejas amargas, por conversas inacabadas, por promessas não cumpridas, por ciúmes... por medo de não conseguir mais respirar. Tenho muita, muita vontade de gritar! De correr em direção a ti e ao mesmo tempo sumir do mundo. O tempo é como unguento, a escrita é como anestesia, talvez eu nunca mais o veja na vida.
Talvez eu sobreviva apenas com os fragmentos que restou em mim, ou seja pedaços inteiros, ou montados. Dos teus sorrisos difíceis, da tua mão larga, do teu nariz de palhaço, da tua insana falta de delicadeza. A falta de acalanto em contos perdidos. A raiva descomunal de ter partido. Dúvidas semeadores de desalentos. O vento, o vento, o vento. A partida descomunal, desalentos semeadores de discórdia, e vou me afastando de qualquer memória amarga de sua presença, sendo que a amargura do tempo é a mais viciante das memórias. E tuas melhores memórias me preenchem, palavras pretendidas e não escritas, e não desenhadas e não cuspidas. Vomitadas... é, acho que seria a palavra mais aleatória e repugnante a ser citada, e desesperadas e vazias, e cheias e incompreendidas por um sentimento louco e incontrolável de querer estar mais perto de ti do que nunca. De te admirar mais do que nunca. De te amar mais do que nunca. Mas tu apenas irá digerir palavras e palavras são desintencionadas, promessas tão vulgares quanto pueris e reticentes, mas ainda assim insaciáveis.

15/01/2015

Sinto minha pele derreter nesses quarenta e tantos graus.
Eu estou perdida no meu próprio quarto, noite, não escuto nada além do barulho do ventilador.
Diria que minha mente está em uma dimensão inventada por poetas esperançosos de solidão. 

Eles não vêem o quanto me sinto pequena perto da imensidão do mundo.

14/01/2015

Eu achei que tivesse deixado o isqueiro com um estranho qualquer que o pediu emprestado no último sábado no bar. Estava na mochila o tempo inteiro, acendi o cigarro e esperei o tempo passar na Ponta Grossa enquanto o ocaso se derramava nas elevações do campo em frente a praia. O horário de verão faz com que a cor do sol tenha um tom mais avermelhado depois das cinco, talvez seja a cidade, talvez seja a baía ou a maré. Lembrei de um punhado de palavras que eu deveria ter jogado aos seus pés, provável que a essa altura você ainda os acalentasse. Fechei os olhos e a praia mudou de cor, ainda com os olhos fechados, as árvores deixaram o tom salmão aquecido e se enriqueceram de verde, vivo e vibrante no meio da paisagem cinza com flores amarelas.
O vi a primeira vez sentado no mirante em frente a praia, cabelos medianos e a barba por fazer, estático, olhando para o nada. Usava uma camisa branca abraçado as próprias mãos, entrelaçava os dedos, ria consigo mesmo. Eu não conseguia dizer se a paisagem azulada recepcionava a noite ou a manhã, o tempo parou ali, congelada em seus olhos desde sempre. Carregada em seus olhos desde sempre, mesmo que nunca tenha me visto.
Andava horas e horas para chegar a tua morada toda madrugada. Colégios públicos, ruas vazias, o cais, botequins e casas abandonadas ou até mesmo os casebres no interior da Suécia. Vilas mal vividas, luzes de natal, neve, o frio congelante, a praça central, o calor excessivo, sino dos ventos, um campo vazio, fogão a lenha, viagem astral, eu estava completamente apaixonada.
Palavras avulsas, em meio a todo desastre natural da vida, seu sorriso. Utopias, promessas quebradas, promessas vazias. Essências do verão na madrugada do subúrbio, eu te carregava.
Depois de me ausentar do mundo em seus braços, eu senti que poderia ir pra qualquer lugar. Como naquela noite em que ouvimos nossa música favorita no seu antigo quarto.
Mas ao mesmo tempo, o turbilhão de coisas que carregamos juntos durante todo esse tempo se mistura com a vontade louca de enriquecer de verdades e mentiras. Metrôs sem saída, o universo, gosto de café sem açúcar, seus medos e orgulhos, ofensas e pessimismos, a falta de fé no amor. Um sentimento me carrega mais do que a mim mesma, um caos, um labirinto, um modo estranho de lidar com a vida, os erros, os acertos, o fim de um novo começo, a ausência de poesia... e nada mais.

Sobre a calmaria pintada no horizonte cada vez mais distante.