29/12/2016

te tenho como não te tenho
me viro do avesso
e entro em contradição
por não te querer tanto te querendo
e te encontro sem te procurar
e mesmo que não me queiras por tanto me querer
em ambíguo desejo de insistir e deixar passar
eu te amo justamente
por não querer tanto te amar

16/07/2016

De olhos fechados, eu sinto a chuva. Eu vejo a vista do terraço na avenida. Eu ouço pássaros. Eu sinto o cheiro de grama cortada. Eu sinto a manhã de um infinito domingo de sol. Eu ouço as mesmas canções que meus pais ouviam. Eu sinto o vento bater no emaranhado dos meus cabelos. Eu sinto a dança dos meus pés cansados. Eu sinto a brisa. E maresia. Es gaivotas cantando numa praia vazia. Eu vejo as luzes correrem na avenida de um ônibus movimentado. Eu observo estranhos sorrirem na estação do metrô. Eu sinto o vibrar dos discos de vinil na sala vazia de uma casa com paredes amarelas. Eu sinto cheiro de roupa limpa. Eu ouço gatos noturnos. Eu ouço latidos do subúrbio. É que o silêncio que os olhos carregam quando estão fechados, permitem que a alma grita por um novo mundo. Um mundo que pertence a essência.

28/06/2016

eu morava em um cais
mas de vez em quando ia pra minha casa
tomava café da tarde 
e observava a chuva cair na telha da varanda
e no gramado do quintal

eu sentia o cheiro da terra quente
de certo era uma chuva de verão
daquelas que o sol chora de feliz
porque o céu resolveu se abrir 
e desabafar suas ruas

minha rua favorita de morar
em teu colo
teu abraço

meu cais 

21/06/2016

olhar a vida do cais
e as ondas vindo de longe
sem saber o ponto de sua quebra
eu me escondo em uma onda
acreditando estar longe do perigo da queda
finalmente alcanço a orla
a mesma onda na qual eu mergulhei em delírio
quebra tão incompassível em minhas costas
vísceras
coração
sofrimento

o mar é imprevisível
a vida também é

20/06/2016


a gente precisa desatar esses nós dentro da gente
na imensidão de um verde musgo
num gramado ao plenilúnio
numa mansão com tetos de vidro
e nas gotas de suor dos nossos corpos em dança
 até esquecermos então aonde estamos

entre o 'se encontrar' e o 'se perder'
o ápice está nessa eterna busca

15/06/2016

hoje
eu bebi água quando estava com sede
corri quando estava com pressa
atravessei o rio sem nadar
reguei o mar
tomei as flores e os espinhos dentro das minhas vísceras

hoje
eu vi fogos de artificio tortos no céu nublado
senti frio e não coloquei casaco
chorei, chorei e chorei até o olhos arderem em chamas
sorri de canto enganando a tristeza

hoje
as palavras não soam nada
como se apagassem nas vidraças frias do inverno
e a noite os cães latem na vizinhaça
e na porta ao lado, eu não tenho por onde me esconder

hoje
as palavras não soam nada
mas escorregam feito rio de uma torneira fechada às pressas
de um lago raso sem fundo
sem patos e gansos para dar vida a paisagem 

09/06/2016

Lembrei de uma garota que conheci num bar no verão. Loira, cabelos curtos e usava lápis de uma maneira muito peculiar. Olhava de forma desprendida para um copo vazio que segurava e na fachada da noite parecia não ter fim. Eu me aproximei e perguntei a ela se gostaria de dançar. Ela imediatamente sorriu como se esperasse por isso. Não trocamos uma palavra por muito tempo. Por hora, dançávamos em singular. Ela perguntou se eu queria sentar com ela e puxou minha mão sem esperar minha resposta. Entre os bancos afastados da pista de dança, escuros e interruptos, ela me beijou e ainda com a mão na minha cintura, perguntou meu nome. Eu estava sóbria, havia acabado de chegar porque a madrugada no apartamento da rua principal estava por se encher de luz dos postes altos e como era nova na cidade, precisava me enturmar. Seu nome era carolina, era a única coisa que eu consegui ouvir dela além de que gostou do meu cabelo ruivo. Aparentava ser ao menos uns cinco anos mais nova do que eu. Ela levantou da mesa depois de um ultimo beijo com gosto de álcool e depois foi como se ela nunca tivesse existido ou como se eu tivesse apenas sonhado.
A luz, um beijo quente e nada mais. 

05/06/2016

Das certezas que eu teria com quem me sinto afeição: ele moraria numa rua de pedras e sem saída e na aurora da janela do seu quarto ouviria o canto do bonançoso dos pássaros. Ele seria feliz com uma vida modesta e um emprego similar e quando voltasse pra casa no meio da noite, sentiria saudade do vento noturno e do que ainda não viveu. Ele teria sonhos e não pressa. Seria louco e poeta. Dono de uma poesia que te transbordasse a alma como nos pseudônimos. No teu eu lírico, na culpa e no segredo dos teus cantos e por mais que divagassem nas margens dos seus rios, não haveria um intrépido e de profunda tenaz a se afogar nas profundezas do teu simples raso já que a ausência de poesia não se limita nas palavras.



02/06/2016

Aposto que você nem sabe onde estou.

Estou numa rua vazia com postes corais de um bairro do subúrbio no inverno. Ninguém me conhece, eu não conheço ninguém. Moro em um 40m² e quando acordo, ouço pássaros cantando. Particularidades: na sala há uma tv antiga. Na varanda, um sino dos ventos. Da vizinhança tenho o cheiro da lenha queimada. Quando faz sol, vejo minha novela favorita e me sinto nos anos 90. Gosto mais de ver TV quando está sol. Quando está chovendo prefiro o barulho das gotas da chuva caindo no quintal. Na esquina da minha rua tem um ponto de ônibus. Ele vai para o centro da cidade. Eu só gosto de ir ao centro da cidade nas noites de quinta feira, mas quase sempre vou aos domingos. Ou quase sempre, sempre.

Sinto que a vida vai acontecer devagar agora.
Me sinto melhor quando estou sozinha.

30/05/2016

Assisto sentada em frente a um quadro alguém desenhar linhas retas. Do outro lado da rua, um cão sem dono é alimentado por uma senhora sem pressa. No céu há nuvens cinzas anunciando chuva. Mas alguém continua desenhando em linhas retas naquele quadro.
Quando chove, sinto falta do sol. Quando há sol, almejo a chuva. Sinto falta do cerrado quando estou no Sul e sinto falta do Sul quando estou em Brasília.
Está tudo certo: As linhas, o clima, o cão e a pressa.
Só há algo de errado na minha sintonia.

24/05/2016

Gosto desse horário da manhã, quando o céu está claro e ainda não tem sol. Eu poderia confundir com o fim de tarde facilmente. mas é manhã, e eu perdi mais uma noite de sono. 

23/05/2016

Outro dia eu desci as escadarias escuras do prédio porque o elevador, como de praxe, estava com defeito. Fui até a esquina da rua em que eu morava, que era também, a rua que ele mora. Chamei-o pelo nome em baixo tom, consequentemente gritei-o e ele apareceu na janela como se já estivesse me esperando. Era só um pedido inesperado de um passeio num começo de tarde, porque eu estava sob efeito de anti depressivos e precisava tomar uma atitude imediata antes que, no próximo segundo, o desejo fosse outro. Saímos por aí, ambos de óculos escuros. Eu porque não conseguia parar de rir sob o efeito dos remédios e ele, pela rotina noite de insônia. Paramos em um bar, apostamos em jogos de sorte e compramos cerveja. Não tínhamos muito para falar, nunca fomos de falar muito um com o outro, mas sei que seus olhos carregavam o lamento da minha despedida. A partir de agora, pensei, não teremos mais encontros nas madrugadas, nem olhares profundos que diziam mais do que qualquer compromisso avesso. Tínhamos compromisso ali, de carne e sangue, de alma e de gozo e tudo o que partilhamos em meio tempo não teve espaços para hipocrisia e corações quebrados pelo simples fato de que não pertencíamos um ao outro, mas quando decidimos quebrar a rotina, algo se fez por si aquilo que não ditamos, não queremos, não desejamos em ato. Era por si só ele mesmo, saudade, por assim bastar. Terminamos a tarde olhando o sol que desenhava sombras na janela, jazz, cafunés, olhares com palavras distorcidas e nunca ditas.

12/05/2016

Companhia

Hoje fui até o mercado e pensei em comprar um vinho.
Tinha uma voz que ficava tagarelando o tempo inteiro na minha cabeça. Não é de hoje que isso acontece, às vezes gosto do que ela fala, mas em grande parte é um emaranhado de coisas sem sentido que me deixam pra baixo, como se houvesse alguma razão. Olhei plantas no setor de jardinagem, pensei em comprar cactos. Dei em desdém e lembrei que talvez um sorvete de macadâmia me faria bem. Lembrei do vinho. A fila estava tão grande que decidi deixar a mercadoria e voltei de mãos vazias. Mas a voz estava na minha cabeça, cantando cada música que tocava no aleatório nos fones de ouvido. 
De algum modo estranho, eu achei isso bonito. Acho não poderia haver melhor companhia para uma quinta à noite. 

25/02/2016

Vênus, Júpiter

Para Eric

Caminhamos por aí de mãos entrelaçadas no ritmo do vento que busca a chuva.
Em pequenos espaços obscuros entre as pálpebras, tua boca e a maneira de como sorri com os olhos quando me carrega.
É que há dias que o verão tenta mostrar como será o inverno daqui a frente.
Pés quentes, mãos frias, lábios úmidos de chuva ou de saliva.
Eu me sinto transbordar por um colégio público noturno, a cidade é mais bonita quando não há ninguém ocupando os espaços públicos.
Sinto a sensação de posse do mundo.
Você solta a minha mão para acender o cigarro, enche a boca de fumaça e a solta contra a luz de um poste amarelo. Olho e penso o quanto você é excitante.
E como fica lindo quando traga o cigarro e me lasca um beijo com um gosto amargo.
Mas há espaço entre as cores também.
Daquelas que carregamos nos olhos dos dias vazios.
E o que resta é aquilo que também transborda com tudo aquilo que levamos com o tempo.
E os espaços pequenos obscuros das minhas pálpebras carregam teu colo, a manhã e o alívio de mais um dia contigo.
Esperarei por Vênus e Júpiter entrelaçarem em meu colo.
Por mais que os dias sigam caminhando nem sempre ao seu lado,
de toda a razão o amor  sempre é perdoado. 

07/02/2016

Fragmentos sobre o mar

Você tem um jeito de mar que me faz flutuar olhando o céu. 
As ondas curtas e silenciosas ultrapassam a minha nuca de uma maneira que quando chega na orla, agride as pedras que te impedem de ir muito longe. 
É que contigo eu estou no fundo, longe da multidão da praia, é simples quando se já está em alto mar.
Eu não sei nadar, mas no seu mar eu me sinto segura. 
Porque sou um porto, e você é meu cais. 
Eu sou apenas um corpo flutuante sendo carregada pelas suas ondas. 
Que me ilha e me equilibra. 
E se eu me desequilibrar, não haveria nada que me impedisse de me afogar em você.