22/12/2014

Faltavam alguns minutos para noturno, faltam alguns passos para os pés tocarem a areia da orla, o vento que balança as árvores fazendo delas murmúrios e sinos anunciando o fim da tarde - despedida - o vento se torna ainda mais suave como algodão doce. Na pele ele é quente e confortável e sua sabedoria é nua e crua na beira do cais. Aos olhos o horizonte em degradê vespertino em tons laranja e azul marinho nota-se que a paisagem não é a mesma de algum tempo atrás. É que de fato ela nunca foi a mesma. Enquanto refletia, o vento sussurrava os encantos da noite e ele tão íntimo e macio tocava sua nuca e seu pescoço com gotas leve de chuva, nunca se sentiu tão sozinha sem se sentir solitária. Aos poucos os postes dos rodapés foram iluminados com luzes corais. A orla precisava ser enfeitada pelos rapazes que não vêem mais os caminhos decertos para alcançar a sua margem. Jovens náufragos em busca de sereias sem canto, tritão, estrelas do mar, compostos do que a Brisa não tem. É tudo quase sempre o mesmo do que costumava ser, enquanto o vento batia violentamente em sua pele macia, se sabia que bastava sua própria companhia e o gosto doce invadia sua certeza em tons nobres dizendo em voz alta para o mar: Eu não estou deslumbrada. E isso basta, isso basta...

05/12/2014

Ele saiu da galeria como quem sai em rumo ao nada. Em pé na calçada com o olhar distante como a paisagem cinza do centro da cidade, tirou uma carteira de cigarro da jaqueta e eu não pensei duas vezes, como impulsiva que sou eu logo perguntei se ele me emprestava o isqueiro. Ele rapidamente me atendeu acendendo o meu cigarro ao dele. Fui intimada por dois mundos negros como a cor do seu cabelo. Pensei rapidamente em fugir como impulsiva que sou, mas apenas pensei - "Desculpa, eu... eu... enfim, obrigada" e direcionei o meu corpo a entrada da galeria, mas não conseguia mover os pés. 
Então ele me olhou nos olhos como se me conhecesse. Veja bem, eu mal consigo olhar nos olhos de alguém, me senti intimada por seu par de mundo negro, como o contraste da paisagem cinza no centro da cidade. Buzinas e asfalto por todos os lugares, pessoas largando a sua rotina de trabalho com seus uniformes apertados, uma tarde fresca de quinta-feira, nuvens, cultura, mendigos, trânsito, mercado, negócios, músicas, protestos, samba e um conjunto de coisas que o Rio de Janeiro representa. Eu me mantive estática, sabe lá por quantos minutos, segundos ou dias e ele sorriu como se me conhecesse...  
Perdi completamente a noção do tempo, o chão, o guarda-chuva e o ônibus pra casa. 
Acho que minha alma está vagando pela galeria até agora. 

01/12/2014

Sobre a intuição

Estática, palavras voam nas asas das minhas costas passando frio pela nuca incomodando a minha garganta, até conseguir finalmente deixar meus lábios levemente dormentes. Um eu-não-sei-o-que-fazer com a minh'alma, um não-saber que música escolher divagam em todos os lugares que penso em correr. Outro dia meu pai não me olhou nos olhos, ele quase nunca olha, mas não importa. Ele pediu para eu seguir meus instintos. Eu não entendi o que ele quis dizer. Eu quase nunca sei o que a maioria das pessoas querem dizer, eu quase nunca sei o que entender, eu não entendo. Palavras aleatórias correm em minhas veias. Preciso arrancá-las de qualquer forma, daria tudo o que tivesse para não conseguir pensar por um minuto - e quando não consigo não pensar, incomoda pra cacete. Meu cigarro acabou faz umas duas semanas, o de canela (aquele que detesto) também. Aí lembrei que não pertenço a nada, deve ser lindo ter uma cotação patética e orgulhosa de não pertencer a nada, mas eu não penso assim. Eu não me sinto bem assim, eu não faço sentido algum assim. Muitas vezes já pertenci àqueles que vagam as noites com uma garrafa de vinho na mão. Pertencer é um verbo profundo demais para se confundir com algo carnal, é bem puritano, na verdade. A Posse pertence a carne, devem pensar. Pertencer a algo é dividir os segredos da alma. Voltando àqueles que pertenci, alguns eu nem me recordo o nome, outros, eu nem sei por onde andam. Nem sei porquê estou escrevendo sobre isso, talvez nem seja isso que eu queira escrever. Mas o fato é que palavras aleatórias correm em minhas veias e dominam meu corpo como um câncer incurável. 
Talvez eu só precise vomitar para ver o que vai sobrar. 
De dia eu pertenço a mim, mas é pela noite que ofereci minh'alma. 

29/11/2014

Retroceder

Deve haver um caminho, uma direção correta sobre como mover o mundo.
Olhar pela janela e ver raios caindo no horizonte é uma boa maneira de prever o que já está acontecendo: O caos resolveu dar um descanso para os insaciáveis guerreiros do tempo.
Essas estradas que me dão rumo a alma com vida, com esse tino libertino com que encaro minha teimosia. Eu definitivamente me deleito. Me rendo a qualquer trajeto firme de coragem, de dor e sabedoria sem garantia. Afinal, garantir é o verbo de um tolo redundante e o pleonasmo é parido sobre o desespero da insegurança de outrem, outrora uma insistência na certeza morada da esperança.
De afeto contido e sentimentos falidos eu me visto.
Sobre todas essas cores sem nome que deduzo em teu pescoço
eu me perco e
ainda digo de passagem,
que não há volta.

13/11/2014

Tomou banho e molhou os cabelos, às pressas vestiu o sutiã e a calcinha com cores diferentes. Fez um mês que a mala ainda carrega suas coisas, coisa de gente que a qualquer momento pode partir pra sempre, e ela lembra que finalmente encontrou um lugar que a pertence e encontra um vestido azul de tecido fino, fácil de vestir, sem botões e se veste de praticidade por causa do calor excessivo do Rio de Janeiro. Meias azuis, bota marrom porque foi a primeira coisa que ela encontrou pelo corredor, às pressas, sempre às pressas, e ela lembra que gosta de viver o dia como se a vida inteira durasse apenas vinte e quatro horas. E ela lembra que todas as escolhas que ela fez sozinha foram as mais certas, e ela lembra que precisa ganhar muita grana para a próxima viagem.
Ela espera no ponto entediada, tons alaranjados invadem os eucaliptos em seu horário favorito. O vento sopra como em forma de aviso e não há ninguém na rua às três da tarde. E ela quando fecha os olhos pensa em seu lugar favorito, o campo infinito dos pampas, um destino impagável, apalpável e seu filho correndo de um lado pro outro querendo soltar pipas. E o ônibus chega inteiro de desconhecidos, e ela senta na janela, abre o vidro e ouve Ani Difranco no último volume, ela sorri para as casas que correm, o sol pinta as nuvens de rosa, o céu de laranja e seus olhos de amarelo. E ela deixa o vento bagunçar seu cabelo, e pensa o quão íntimo é ser tocada pelo vento em meio de tanta gente linda, e imagina se essa gente sente o mesmo que ela sente sobre a vida. E ela finalmente chega e dá voltas e ela finalmente volta, o sol em tons vermelhos invadem a praia na volta para casa, ela desceu duas quadras antes porque queria ver o sol se pôr do cais. Ela dançou com o vento, deitou e olhou pro céu e reparou que as nuvens ainda apontam o caminho para o colo dele, como nos velhos tempos em que ela ainda não sabia aonde ele morava. 

10/11/2014

Sinto-me rasa. Simples assim: rasa. Mas aí ele me pergunta "o que é ser rasa?" e eu bêbada mal lembro o que respondi. Talvez seja essa falta de profundidade nas coisas, essa falta de entrega, esses campos infinitos e planos que vejo no caminho de sua casa.
Chorar até doer
Rir até doer
Sangrar até doer
Amar até doer

Seja lá qual for a resposta
tudo o que se faz com entrega, dói
Mas é impossível associar a dor com o vazio. 

05/11/2014

Era em um quarto pequeno sem paredes, só havia espaço para um colchão velho e um rádio que ganhei do meu pai no meu décimo segundo aniversário. Então eu ouvia minha rádio favorita o tempo inteiro, sabia que a programação do dia se repetia depois da meia noite. Olhando para a única janela do quarto, pequena e redonda, alta para se alcançar de pé, mas deitada, eu tinha a visão de pequenos fragmentos do céu em meio a casas amontoadas no beco dos anjos. O fato é que por pura sorte, naquela madrugada, eu conseguia ver a lua no meio daquela visão e hipnotizada por ondas de tédio e ternura, senti a melodia vindo tocar meus olhos a ponto de deixá-los bastante úmidos. Aquela melodia tão nova e ao mesmo tempo tão esperada, como um bom presságio sobre quem sabe que passará em uma determinada matéria porque garantiu uma boa nota na última prova ou como aquela paisagem lúdica no final da linha dos trens como naqueles filmes antigos de faroeste que meu pai gosta de assistir. O fato é que me senti carregada por ondas de melodia até a lua e a partir desse dia eu achava que poderia escrever um livro sobre uma noite só ou prever o próprio futuro porque os sonhos haviam se tornado mais simples. Mas não há como prever ou sequer escrever uma linha sobre como a lua deixa vestígios de superfícies incógnitas fora do espaço. Os caminhos em volta dele são feito de luzes estrelares que acompanham o espelho que a lua carrega.

No avião, indo para a sua casa, pude notar esse mesmo caminho por cima das nuvens.
O céu é o espelho inverso do mundo.

29/10/2014

Será que
mesmo quando eu estiver por perto
o vento soprará de forma suave
será que
a noite manterá seu dialeto com a lua
será que
nós manteremos estáticos à espera um do outro
por toda uma vida
de expectativa vazia
será que
cada beijo nos manterá no céu
e o inferno abaixo de nós
nos manterá calados
e durante
a cada olhar descontente
um abismo
cheio desses espaços vazios
que nós insistimos
em pular sempre
toda vez que
achamos que está tudo perdido?

27/10/2014

Livre

O vento
a cidade
o silêncio

cigarros de filtro vermelho
empatia
desespero

destino
ocaso
acaso

seu cabelo
sua barba
seu brilho

o quintal
o latido
a construção

mas por dentro eu escrevo e apago
repetidas vezes 
o vazio
e mesmo vagando pelo campo mais livre
mesmo correndo pelo caminho mais limpo
eu não me sinto livre

16/10/2014

- "Posso te fazer uma pergunta?"
- "Claro. Faz"
- "Ficou chateado quando eu disse que ia morar no Sul?"
- "Chateado não é a palavra certa"
- "E qual seria?"
- "Não sei qual seria, mas óbvio que fiquei triste por saber que você não estará mais aqui"
- "Por isso ficou em silêncio?"
- "U-hum"
(...)
- "Não sei o que fazer"
- "Com o quê?"
- "Com tudo, tudo, tudo..."
- "Hum... Te entendo"
- "Quer esperar o tempo passar comigo?"
- "Nós sempre acabamos fazendo isso, no final das contas... Não precisa pedir."

20/09/2014

Nada

A noite é ampla como a vista da sacada do vigésimo andar. Infinitas luzes brilhando em todo lugar até sumir na imensidão do horizonte, mas o pensamento me carrega para um campo vazio onde ninguém pisa há meses. O rocio veste a grama onde as estrelas refletem nesse mesmo orvalho dividindo a luz do sol pela manhã, talvez uma única prova de compreensão de pensamentos. Fecho os olhos e por um momento consigo sentir o cheiro desse vazio, caminho inquieta pela varanda do apartamento me escondendo dos meus próprios pensamentos, mas eles me carregam, me sofrem e me matam aos poucos. Tudo o que eu queria era esquecer o antes, o agora e o depois. Não há mais sonhos que salvem, nunca esperei ser salva por nada e nem ninguém. 
A única coisa que sei é que o mundo está cheio desses espaços vazios entre os abismos e ao mesmo tempo cheio de nada entre as palavras. 

19/09/2014

O oposto da sua elegia em uma possível tarde de primavera

O sol está prestes a se pôr, a luz em tons laranja acende o cobre dos fios dos seus cabelos castanhos, suas pupilas se comprimem na imensidão do coral dos seus olhos e você os fecha com um sorriso largo e tímido. A praça tem o vestígio vivo da primavera e as lágrimas espalhadas sobre a grama embaixo das árvores de pipoca. Escolhemos estar sóbrios em uma tarde de terça-feira. O vento confessa seus redemoinhos em volta do lago e dança com suas mínimas folhas secas de fim de inverno,

vestígio de que a morte só acontece para um novo recomeço.

17/09/2014

Os dias

Meus olhos que queimam
Minhas mãos desenham linhas inquietas
É que carrego música nos ombros e
me levanto da cadeira e olho pela janela
Lua,
tão pura
tão pura
que meus olhos queimam
e minhas mãos tremem
é que carrego o peso dos dias na alma
deito na cama
olho para o teto
e vejo o céu.

Cada um leva os dias a sua maneira.

12/09/2014

A plea for tenderness 

Condenação

Considero o que sinto apenas como prova de demasia. 
Esse lamurio inconsequente que carrego até às pontas dos pés.
Eu não me movo um passo sequer, por isso.
Não me orgulho disso, como bem sabes. 
Mas o colo do pensamento em que me repouso me condena. 
Que pena.
Que pena de mim. 

10/09/2014

Que pesar essa sensação desesperada de me sentir calma. Não importa que dia é hoje, o que me bastaria viver o presente se eu queria estar nas ruas silenciosas do subúrbio daquela cidade fria? Esse futuro que me dói o corpo de tão incerto. Mas amo o desenho do seu nome que me leva a sentir o peito queimar quando pronunciado. 
Que queime essa ânsia das suas mãos largas, o vinho barato na beira do mar, as ondas mudas tocando as rochas daquela ilha e me ilha, isole essa injúria que me inunda a vida. É quando fecho os olhos que sinto seus lábios me invadindo o juízo e sinto que cada pedaço dos meus sonhos, até mesmo os mais antigos, se fragmentam em cada curva da sua essência. 
Arrastados e humilhados em praça pública, que dias rancorosos são esses que não o tenho. Largar o mundo para que o tenha ou tê-lo a custa do mundo, não importa como de praxe me doa, esses gatunos não fazem de mim nada, sou ladra de mim mesma. E venho dia após dia sabotar meu próprio medo, mas não conheço tão bem a coragem, exceto quando sinto minhas lágrimas quentes escorrerem meu rosto de saudade daquele que me falta. Assim espero conhecer Coragem, tampouco efêmera, cada vez mais íntima a cada imagem que me carrega a alma. 

23/08/2014

Quando palavras de salvação não nos cabem mais, penso no que desenhar nas páginas vazias dos últimos dias. O fato é que mesmo dando voltas e voltas em torno de um futuro incerto, a única coisa que resta nessa batida é manter o mesmo ritmo que nos valsa. Às vezes, balanço contra o ritmo. Você assiste e espera. Fecha os olhos para tentar compreender o som mesmo quando a música acaba. E eu sigo o ritmo desenfreado até começar a próxima música. 
Eu espero que, mesmo no silêncio, você continue valseando sobre a vida comigo.

22/08/2014

O verão em câmera lenta, o cais, o vento, música dos anos oitenta. Olhar a chuva bater nas folhas das árvores da janela do quarto, escrever poemas sobre o nada. O nada. O tudo. O cheiro de pisca-pisca queimado, o natal, o mormaço da primavera. Músicas natalinas, o toca-discos tocando na sala vazia de uma manhã de Domingo. Domingo, samba no rádio do vizinho, calor, churrasco no quintal. Tocar teclado músicas favoritas em noites de sábado, chorar com músicas que te fazem sentir falta do que nunca viveu. Ansiedade. Esperar muito, esperar por pouco o ônibus aparecer na esquina. O vento da praia, andar de mãos dadas, vinho barato, correr contra o vento, sorrir para estranhos, caminhar sozinha, dormir no cais. Astrologia, signo de virgem regido por vênus, afrodite, gritar de emoção, viagem astral. Casa de madeira, neblina de segunda-feira. Esperar o nada, o tudo. Sonhar, ter medo, ter esperança, desesperança e desamor. Sorriso largo, olhos tristes, decepção, encontro, desencontro. Fato, mentira, árvores secas, deserto, ruas vazias, madrugada, o vento, a beira do cais, a meia-lua, a lua, a meia-noite. Subúrbio, a chuva, ah, a chuva! Cães latindo na porta dos vizinhos, filmes desconhecidos, músicas que não consigo saber o nome. Sair a noite sem destino, sonhar com desconhecidos, cores do céu em tons de azul na aurora sem que o sol apareça, ter uma melhor amiga e não a ter mais, desentendimentos, ressentimentos, relacionamentos, a vida.

08/08/2014

Echappé

Desci do táxi as sete da noite, sei que soa estranho escrever por extenso, mas acho que temos intimidade o suficiente para isso. A procura da portaria do prédio, a única referência que eu tinha era que ficava logo em cima de um supermercado e a noite brilhava com a publicidade local em tons de azul marinho e laranja e logo no segundo andar uma sala ao encontro. A sala, uma mistura óbvia de rosa e branco para uma escola de Ballet. Faltavam quinze minutos para a aula experimental começar, sentei-me ao divã também cor de rosa, nada contra rosa, mas o feminino soava tão óbvio para aquela cena que quase pensei que era uma escola feita somente para o universo feminino. Na parede dos corredores fotos de espetáculos da turma de veteranos, plumas brancas e bailarinas com cóques impecáveis. Mas algo ao fundo sonoro me chamava atenção a toda aquela delicadeza ambiental dando contraste a tudo que ali tinha de referência e repentinamente confessado, um jovem rapaz de olhos claros sai de uma das salas eufórico perguntando para si mesmo em voz alta pelo sumiço de suas alunas. Levemente se inclina no bebedouro a minha frente, até que, por delírio nota minha presença: "Você veio para a aula de street dance?" - E eu, falhando a voz respondi: "Não, vim para o ballet clássico" e ele, sem pudor me encarou a alma e dançou com ela infinitamente por nanosegundos e por fim respondeu: "Que pena..."

07/08/2014

Eu não tenho paciência com as pessoas, sei que isso é egoísta pra caramba, mas veja bem, as redes sociais estão fazendo do mundo um caos. Não só pelo excesso de informações desnecessárias (e muitas vezes duvidosas) mas também pelo burbilhão (o que seria isso?) de pessoas carentes precisando de atenção e aprovação de outras pessoas a maior parte do tempo. Caro leitor fantasma desse humilde blog de amores falidos, eu não estou sendo nem um pouco justa, eu sei. E na maior parte do tempo sou assim: carente, necessitando de atenção de outro alguém o tempo inteiro. Mas pela primeira vez resolvi ser transparente ao mundo me dedicando ao movimento do meu corpo ao som de Debussy, dançando em meia ponta no abismo e abaixo o céu. Música liberta a alma da castidade social e sim, não há nada melhor do que dançar sozinha de olhos fechados esperando que ninguém me cure desse vazio gostoso que é a arte de viver em Solitude.

01/08/2014

É que no fundo eu adoraria...

Eu jamais saberia contar com a vida sem uma versão de egos feridos como os retratos das viagens que eu adoraria esquecer. Pela primeira vez em anos, eu não desejaria estar em qualquer lugar no mundo, adoraria e jamais fale comigo em pretérito imperfeito, tudo bem, reafirma. Nada como perder a vida do que não fazer o que no fundo faria. Quem sou eu me pergunto em voz alta, grito até, como em um murmúrio de sábios contos dos anônimos das ruas que sonham com a gentileza da sabedoria compartilhada na praça central. 
É que fundo eu adoraria caber nas suas palavras, gostaria que você me carregasse em seus olhos em todos os lugares que fosse, assim eu não me sentiria tão incomodada com os amores platônicos que você semeia nas estações de metrô, semeie também seu pessimismo em mim, vamos terminar aquela garrafa de vinho seco que compramos no Cabidinho, vamos engolir cada pedacinho de medo que nos prenda até que a garrafa de vinho termine. Amanhã será outro dia, meu bem. Eu não quero ver o tempo passar.

28/07/2014

Sabe, eu não gosto daqueles olhos grandes e redondos que ela tem. Nada contra os amores platônicos de transporte público, exceto que de certa vez ela foi percebida olhando um rapaz do serviço público pelo reflexo da janela do metrô. Eu desaprendi a escrever tem muito tempo, ninguém lê meus textos falidos de amores falidos e ninguém lê também, os dela. Nada de jogo de palavras e rimas. Caramba, por que não demos certo?
"...Acho que não tem muita explicação, assim como não tem muita explicação o fato após de tantos desencontros a gente ainda estar aqui, falando sobre como nós sentimos um com o outro." você diz.
"Lembro da gente comprando vinho no Cabidinho naquela noite, trazendo pra cá de madrugada em copos descartáveis. Aquela foi a última vez que consegui fazer um retrato seu sem que você cobrisse o rosto"
Você aguardou ansioso pelo nosso reencontro, te esperei sair do trabalho naquela livraria em Botafogo, aquela do lado do cinema novo, lembra? Se chama Prefácio, isso mesmo, aonde você tirou um retrato meu com a sua câmera analógica e pediu um espresso e eu como de praxe, um chocolate quente. Sabe que nunca gostei de café e você tentou muitas e muitas vezes me ensinar esse feitio.
Quando subiu as escadas da livraria, ofegante e ansioso, senti meu coração gelar. Todos sabem que o gelo machuca quando se mantém no corpo por muito tempo e a minha alma dói, quando lembro que nunca serei aquela de olhos grandes e redondos da Asa Norte.
Você passa na minha cabeça como um filme de chromo, mas eu não revelo nada. Eu não relevo nada, com você nunca relevei, eu sei. Nunca relevei nada com ninguém e nem comigo mesma, eu sei que estou me devendo isso.
Fiquei reparando quantos detalhes mudaram desde a última vez em que estive no seu quarto enquanto você tomava banho, escorregando no piso de madeira de meias e fixando a sombra daquele adesivo de estrela colada no teto toda vez em que eu fechava meus olhos.
Você diz que não a viu mais e que foi bom tudo ter sido como foi e que a calma consome a sua alma e dessa vez o amor renasce pelo Aterro e aqui estamos contando o tempo, com a sorte e o universo. Ontem  me disse que não queria que nada estivesse no nosso caminho novamente e quando lembro da gente saindo do seu quarto depois de uma longa tarde de conversa e reencontro os seus pais na sala, algo renasceu ali no simples sorriso que seus pais me deram, me senti acolhida e eu tinha me esquecido como era.
Mas hoje, além de Hope Sandoval, eu me destruo com o seu silêncio, gostaria e muito em não aguardar qualquer mensagem sua ansiosa esperando que esse medo bobo de não te ter por perto (da alma) me faça cair em prantos, pois afinal, nunca serei Beatriz ou Mariana e tudo é novo demais, inseguro demais, esperançoso demais, lindo demais... E nada demais faz bem.

09/07/2014

coral e azul marinho

As duas da manhã
as luzes dos postes corais
silêncio na rua oásis
bato na sua porta
e me atende me convidando para entrar
sento no sofá e ele vai até a cozinha e pega uma xícara de chá
mesmo no outono
o vento sopra quente
na rua oásis 
a primavera se torna presente
pelas simples cores das flores noturnas
azul marinho é a cor mais pura
entre o vulgar vermelho das entradas principais das casas corais
mas a sua é verde
com luzes cinzas
como os dias de chuva
e assim eu entendo bem
como o silêncio pode fazer tão bem
ao pensar que
quando tudo o que perdemos
nos fazem ganhar muito mais
do que quando temos tudo

20/06/2014

Há mais de uma semana fico olhando para uma caixa azul com letras brancas. Alguém me disse que aquilo iria inibir a angústia de dias. Me pergunto o tempo todo se sou forte, porque sinto minhas pernas bambas há dias. Será que eu mesma não me conheço? Porque a pessoa que eu jurava me conhecer quer me fazer duvidar disso o tempo todo. Às vezes fico pensando nas senhoras casadas por anos sentadas no meio da praça, trazendo com elas o tempo vazio pelo olhar, agredidas por amar demais os homens que brincam de jurar sentimentos vazios. A cidade inundada por lágrimas de mentira, eles se diziam chorando de tanto rir. Porque para algumas pessoas dominar o mundo não é necessário quando já se manipula uma única entre elas. Ser feliz pela caixa azul se torna um vicio. Sabe, talvez eu tenha muito medo de ser feliz o tempo todo, de viver emendada pelas coisas que não vejo quando estou simplesmente triste. Nada afoga esse peso, mas talvez seja melhor viver assim do que morrer aos poucos.

15/06/2014

Tem uma coisa que não me sai da cabeça.
Você é um cara bonito e rico, é triste e gentil quando está comigo. Não sei ao certo do que precisa, mas gosto de cuidar de quem me faz bem. Eu não sei de qual maneira poderia ajudá-lo, mesmo que esse mundo cheio de coisas vazias tragam um pouco de egoísmo para o seu modo de agir, eu consigo ver seu coração cheio de coisas lindas prontas para explodir quando sorri pra mim.
Sabe lá porquê as coisas são assim, seus pais deveriam te dar mais atenção, seus pais deveriam dar mais atenção a eles mesmos. Enquanto pensarem que os sonhos divagam na memória por puro acaso, jamais entenderão a forma de como eles foram escritos.

09/06/2014

A poça d'água são esses teus olhinhos cansados entrelaçados em minhas mãos enquanto eu mexo lentamente no teu cabelo negro e ondulado. Eu preciso de um cigarro, a saudade é mais amarga que um trago e a sua ausência vicia a falta que tu me fazes.

26/05/2014

...

Ontem a noite reconheci esse buraco no peito que me incomoda por alguns dias. Bebi com estranhos na minha própria casa e a cozinha estava cheia de garrafas de bebida vazias que eu não bebi.
Talvez devesse vomitar cada choro incompreendido, mas não consegui ter uma conversa profunda com nenhum daqueles enquanto chapávamos. Exceto quando fui para a sacada do apartamento fumar um cigarro, um deles se aproximou perguntando se eu estava chorando e eu não soube responder se era a fumaça do cigarro que fazia meus olhos arderem ou se toda aquela situação era deprimida demais para ser admitida, mas nada mais do que isso.
Talvez eu estivesse sonhando ou sei lá, mas você gritou "eu te amo" naquela manhã na rodoviária no meio de tanta gente, talvez não tivesse tanta gente assim. Quando lembro desses dias é como se todo o resto fosse apagado da memória e você dança no meu canto em primeiro plano desde sempre.
Uma noitada dessa não deixa colo para pousar. O céu perdeu seu álibi. Eu já estou acostumada, antes eu desabava por qualquer coisa.
Não se encontram dignos de ouvirem o que tenho a dizer. Tudo é distorcido demais e quantas vezes digo que as palavras limitam. Minha boca é mais próxima dos meus ouvidos do que dos seus. Sou a primeira a ouvir o que falo e a fala tem uma cadência bem diferente da cadência dos pensamentos. Mas o pensando é mais próximo do meu ouvido do que o meu coração, vai ver é por isso que falo tanta besteira, mas não quero te perder da memória e nem se eu quisesse eu poderia.
Luzes corais no fundo do mar, minhas estrelas cheias do [seu] céu. O vento faz redemoinhos e desaparecem em cada esquina. Há uma dívida gigante entre a lua e o mundo. Estática olhando o movimento que esse momento faz, devagar para alguém que se apaixonou rápido demais. Ah, permanece brilhando o vazio do céu essa lua sádica encarando o mundo, o seu mundo mesmo que nem perceba eu estarei aqui contemplando o mar e as luzes corais de cada esquina. As minhas estrelas moram no seu céu, sempre foi assim [e nele, elas se apagarão]

19/05/2014

Elegia de honestidade

Preciso ser honesta comigo mesma. A essa altura imagino que o sol já tenha se escondido atrás de alguma floresta negra, eu quase nunca sei como usar as palavras. Não entendo o que te encanta tanto, mas se soubesse como elas me limitam, se soubesse como essa merda de barreira e milhas de distância atrapalha a vida de todo mundo, sonhar quase sempre se torna vazio em meio disso tudo.
E digo mais, preciso ser honesta comigo mesma. Eu estou cansada de falar sobre o amor porque achava que sabia. E o que me move... O que me move é isso, essa confusão toda que me possibilita saídas. 
Hoje eu e ela tomamos um café em frente ao lago, o sol rebatia o reflexo nos olho dela enquanto dizia que minha vida está resolvida a partir do momento que sei aonde estou. Paramos de falar por segundos e eu preciso ser honesta comigo mesma e "isso é óbvio" (pensamos) e começamos a rir de algo que todos já sabiam: ela, meus pais e todos, menos eu. Preciso ser honesta comigo mesma: Eu sou livre! E me desculpa estar construindo um labirinto sem saída na sua mente sendo tão subjetiva. Mas não quero falar sobre isso, assim abertamente, preciso digerir isso intensamente e por fim, fugir.
Eu odeio escrever quando me sinto assim, assim eu nem sei, dizem que tenho um espírito livre e você não entende que eu simplesmente não tenho. Estou dando volta em palavras... Minha cabeça dá nó a cada segundo e a cada palavra que me é sugerida torna-se limitada e subjetiva supostamente contra a mim, como as uso. E quando penso que as palavras podem ser longas até que chegue na luz desses olhos em que moro, eu paro de escrever.

Me desculpe. 

01/05/2014

Essa semana fui a uma livraria e comprei um bloco de notas sem pauta. Parece um detalhe simples, mas me senti livre para desenhar o que eu quisesse em um caderno vazio de espaços certos de escrita.
Chovia tristeza às quinze da tarde e tocava meu jazz favorito do fundo do espaço de Economia.

Mas eu não tenho motivos para tristeza.

Lembrei de você, que guarda todas as pulseiras que esqueci no seu quarto quando não brigávamos por coisas que até hoje não entendemos. Lembrei do modo como você move o mundo com o seu sorriso, do cheiro de café das livrarias que íamos juntos e de filmes que deixamos de revelar porque possivelmente revelaria nossa imagem juntos deixando-o em uma caixa de desapegos emocionais em uma campanha de dia dos namorados em uma livraria que nunca fomos juntos e eu sorri quando o fiz, mas não foi um alívio.

Lembrei do nosso primeiro beijo na rua principal do centro da cidade quando senti meu coração parar de ver tudo o que estava em volta. Das nossas tardes fotografando os prédios altos, os gatos nos parques e um ao outro como se não houvesse mais nada de belo nesse mundo simples.

Lembrei das tardes que dormiamos esperando o tempo juntos parar, isso mesmo, parar. O tempo corria demais quando estávamos juntos, esse foi o ponto chave para tudo desmoronar. Eu tive receio, você teve pavor. Eu não sabia aonde estava pisando, você sabia o quanto isso iria nos causar. Mas senti meu coração parar de ver tudo em volta e corri na direção que o desconhecido aprecia: O caos.

Lembrei da forma de como você se sentiu inseguro, eu falei tanto e tanto e não disse nada. Porque não havia coerência nas palavras que eu dizia e não havia coerência nos atos que você tomava, mas senti meu coração parar de ver tudo em volta e corri na direção que o amor não perdoa: O caos.

Mas a principal lembrança que eu tenho é que esqueci o motivo de ter fugido disso tudo. F
Faria tudo de novo. 

27/04/2014

Em meio aos meus sentimentos confusos queria conversar sobre o que tinha me deixado triste. Você mudou seu tom de voz e disse que precisava saber imediatamente o porquê. - "é que às vezes acho que eu vou acabar me sentindo sozinha perdida no meio disso tudo. Eu priorizo outras coisas, sabe? Atenção, conversas profundas, paixões fulminantes e..." e você responde "mas pensando bem acho que você está certa, vivemos em lugares distantes e..." e o problema é que você não entendia o fato que você era distante até quando estava por perto. Mas é seu jeito, eu entendo. Conforto era seu colo de palavras. Você não me deixava desconfiar de você, isso eu amava. Você me visitava com frequência, isso eu amava. Você me fazia rir, isso eu também amava. Aliás, eu amava várias coisas em você e era incapaz de ver o contrário disso naquele momento. Lembro que no nosso primeiro encontro eu segurei sua mão gelada e ansiosa por segurar a minha. E não, eu não estava com medo dos pássaros... Tão pouco do mar que refletia o sol naquela tarde. Meu amigo, você nunca me deixou desapontada, desesperada e confusa. Eu notava cada pedacinho da sua carência. De cara não foi, amor. De cara não foi amor. Te digo mais, nem o tempo tem essa mágica.

26/02/2014

Me impressiona a forma de como suas palavras me travam.
De repente me vejo dançando na sala, com as luzes apagadas chorando de tanta falta
que é sentir a lua distante demais, eu sei

que o espaço é pequeno demais para deixar o vento soprar
então, sem solução, eu danço e danço e quando vejo
faço das palavras um nó imenso

que não consigo desatar.

15/01/2014

O Tempo II

Paro para olhar o tempo
Há quem diria ver algo antes, o poeta
soma todas as belezas encontradas em um silêncio
subtrai o que pisamos no chão
e eleva todo o corpo ao infinito céu.
Nessa madrugada,
paro para sentir o vento.
Há quem diria sentir o prelúdio
e o cheiro, o cais, o mar, a imensidão da ternura
e derruba todo o corpo caindo em sonhos
de abraços corroendo a mente
e sente
infinitamente
que estamos apaixonados.
Mas na realidade
Paro para olhar o tempo,
do sofá entrelaço minhas próprias mãos,
vago inconsequente por falta de uma certeza
daquele colo vazio por ser o único que vejo
e encontro e acordo e não vejo nada
porque paro para olhar o tempo
há quem diria ver algo antes, o cego
subtrai todo o afeto perdido nas palavras
somando os passos pisados no chão
e eleva todo o corpo a imensidão do tédio.

Eu sei que falta pouco para eu começar a viver de novo.

07/01/2014

Epitáfio, eu viverei para sempre

Esta noite silêncio é música. A cidade está estática, apagada, sem velhos boêmios, sem loucura, sem poesia. Morrerei queimada pelo tédio, pelo vazio do cotidiano e pela sacada do apartamento. E brevemente sinto a brisa pousar em meu leito de vida. Estou viva, sorte daqueles que sonham. Aqueles que sonham com o começo do dia, 'bom dia' de uma perspectiva diferente. 'Óbvio que terei', óbvio... Caminhar sem fôlego até o trabalho e ter pressa para voltar. Saudade mora perto, tão perto o quanto você imagina. A gente sente saudade de quem ama o tempo todo, e não basta estar perto, não basta absolutamente nada. E caminhando pela sala, ouvindo música pelos cantos da cozinha, gritando do banheiro coisas aleatórias do tipo, 'Ei, você lembra de quando é esse álbum?' - Eu não sei, eu... eu perdi a noção do tempo, sabe? Sinto que viverei pra sempre e ao mesmo tempo, que morrerei ali, anestesiada pela minha própria euforia. E o fim da noite, seja como o dia, que seja sem fôlego, sem palavras, sem voz, sem sono, por medo de estar sonhando. Essa expectativa se entrelaça na figura do mesmo. Medo de perder o tempo, de novo, do mundo que não encaro por teimosia. Minha cara: Precisa apanhar mais da vida, encontrar 'aquilo que você ama e... deixar isso te matar'
No final, a gente acha que escolhe como deveremos morrer e finge estar preparados para o próprio funeral.