27/02/2026

No limbo a paz é um perigo
Não farei rodeios dessa vez
Eu quero tirar de mim tudo aquilo que acredito
O fato é que andei e andei e de tanto soube
Tive medo e sei que o clima é denso
Difícil querer estar em qualquer lugar quando não se quer estar em lugar nenhum
Fiz do sofismo a minha filosofia
pois quem te enxerga, faz questão de te ver além

09/07/2025

Quando contradições te levam ao mesmo caminho, só existe um destino.
Já se completam 10 anos que o inverno me leva a viver o que ainda pulsa em mim:
Caminhadas noturnas em cidades vazias. O frio. As árvores dançantes.
Mesmo que carregue gêmeos nesse mapa astral, depois de todo esse tempo, a instabilidade se tornou estável.
Porque, no fundo, é um 'querer' que incomoda os sonhos e desperta no desejo.
No fundo, é o ser do que sempre foi.
E eu sei que a vida vai terminar em trilhas, cachoeiras secretas, praias vazias e fotografia.

27/05/2025

Você sabe o que está fazendo e você sabe que eu sei o que você está fazendo.
Acontece que só existem sombras duras em uma luz inebriante.
O tempo já entrou em colapso. Nossos corpos sofrem a consequência disso.
Em todas as existências, já estamos vivendo o que há de ser vivido.

E resistir à isso, dói.

06/05/2025

Pela lei do legitimo afeto
Recitarei elegias em dias ensolarados
Rezarei poemas sob um inverno pluvioso
Serei coerente com a minha incoerência
Serei imprevisível sobre a minha imprevisibilidade
Farei do meu destino, a minha casualidade
Quebrarei minhas promessas
Iluminarei todas as minhas sombras, não irei ceder a ilusão da perfeição
Haverão nuvens densas sendo guiadas por uma ventania mansa
E chuva com gotas quentes e pesadas que assombram o fim do outono
Te farei perguntas que exitarão ceder respostas
Desenharei meu mapa no seu corpo só pra te deixar perdido
Até que, por escolha, decida ver além do que eu te digo
Assim, dissolveremos tudo aquilo que achávamos saber sobre a vida
Então, finalmente seremos livres porque não teremos mais nada a temer

Existir, por si só, é poesia.

29/04/2025

Às vezes me pego pensando
que a gente se aprisiona nesses conceitos estranhos de liberdade
e fica refém de uns medos tão bobos

e se, no fundo, eu só precise perder o controle?
e se o certo, é eu fazer tudo errado?

25/04/2025

Acho que nem os dias de sol, nem as montanhas mais verdes, nem o mar mais calmo e cristalino, nem o canto mais harmonioso dos pássaros serão dignos de uma alma avessa ao merecimento. 

Para os que vivem no vale fantasioso da culpa, os próprios sonhos se tornam monstros.

Se perdoe. 

30/11/2017

silêncio
feito de lágrimas quentes
e do soluçar do vazio
me arrepio da pureza
que me toca o corpo com mentiras
me seduz como pedra sobre a água
que deságua em minh'alma
como um poço infinito e escuro
profundo
que tudo esconde como
a incerteza sobre a dor que sente
pela certeza se o clamor persiste

o amor resiste?

30/10/2017

quando o tempo é cinza
há nuvens iluminadas pelo sol na minha mente
nuvens levemente coloridas em tons de amarelo
complementando o céu azul celeste
a última vez eu lembro bem
fui até o sul do país
porque disseram que a vista da lua era mais bonita
principalmente se fosse vista de uma roda gigante
e as lágrimas nos olhos que ardem
e o peito que acelera de saudade
promessas soltas que não recordo
me fez entender que todo sentimento é singular
dono de si e suficiente
para que não precisemos fugir para o céu de outra pessoa
quando o tempo é apenas cinza

08/10/2017

o amor é como uma manhã pluvial
é como perder as forças de uma luta em silêncio
é inquieto e não tem pressa
o amor é a segunda-feira dentro do peito
é gritar sem sair a voz
é sorrir com os olhos
o amor é cada pequeno movimento que as folhas fazem quando há vento
amor é quando a gente não lembra que teve alguma escolha e ainda sim, escolheu
o amor é sem querer quando se quer
o amor é quando se quer sem mesmo querer
é a náusea da saúde
é a virtude disfarçada de defeito
é o desleixo da dedicação
o amor é o descuido do cuidado
é a emergência da procrastinação
é como uma página em branco de um caderno de bolso
é tentar pensar em qualquer coisa que possa defini-lo e só conseguir pensar em uma coisa
e mesmo assim não encontrar sequer uma palavra que consiga o elucidar

05/08/2017

Tenho acordado tarde, sempre acho que tem alguma coisa errada comigo. Às vezes eu acho que a vida é apenas olhar para o mar e escutar o som das ondas se formando no horizonte. Às vezes eu não acho nada. 
Os pequenos espaços de tempo de euforia e veracidade que tenho no cotidiano é o tempo que levo no transporte público quando consigo juntar a melodia que carrego nos fones de ouvido para a paisagem fora da janela, mas ultimamente tenho notado que tudo anda sem sincronia. 
Fico entediada, sinto um cansaço que vem do nada e não vejo a hora de dormir novamente. 
Eu notei que todas as vezes que acordo eu consigo perceber de cara como vai ser todo o resto do meu dia. 
Eu notei que todas às vezes que conheço alguém eu consigo sentir de cara se o amarei por muito tempo. 
E o tempo é incontável enquanto vivemos, a vida é tempo enquanto contamos. 

19/07/2017

todas as pessoas
e seus mundos frágeis e inseguros
então eu me sinto só
e isso nunca foi tão plausível
não as olho nos olhos
não as toco como tocava
eu sequer canto suas canções
não uso vírgulas e rimas
não danço em seus corpos nus
não me visto perto delas
me mudo para o andar de cima
e me isolo de todo esse cortejo social
esses tantos e estranhos modos meus
me afligem como
cada frase pragmática e mal alinhada
cima a cima
baixo a baixo
que pesa quando me toca
que pesa quando se lê

16/07/2017

um bêbado caiu em um mar de palavras e se afogou
a cidade entrou em luto
as pessoas rezavam poesias para que sua alma saísse do limbo
não sabe ao certo se existira céu ou inferno
porque a população tinha a crença da condenação e o paraíso
porém, eram poucos e sempre tinham
aqueles que viviam da convicção
de que o limbo era o único lugar seguro
por ser tão incerto e indefinido

27/06/2017

pressa de viver/o outro anônimo 

são apenas acordes vocais
e sorrisos congelados
nas ruas desconhecidas de Bonsucesso

são apenas impulsos 
e o acalanto em desalento
de uma pobre alma suja pelo regresso

um círculo vicioso 
para cada minuciosa manhã 
de domingo ensolarado

e eu o dedico infinitamente
para aquele que passou
sem jamais ter estado

04/06/2017

por convicta
andei por suas terras quentes
nadei pelos seus rios mais profundos
e vi esmeralda brilhando no fundo deste
em queda pelo seu abismo
segurar suas mãos com toda magnitude
e sentir a estranheza mais linda
que é voar sem ao menos ter o pungimento
para possuir suas asas

30/05/2017

minha amada gaivotinha
ao mangue de sal que me espera
o ocaso do cais, um acaso:

revirei-me do avesso
para te merecer em acalento

25/05/2017

vamos evocar o oceano com azul
dessarte o amor está para o mar
para que inclinemos nossa leveza a ela
pois tudo aquilo que é fardo
afunda

24/05/2017

pássaros e cigarras

Às vezes minha mente se torna uma jaula escura e limitada, às vezes quero gritar, porém sinto um alívio porque jamais irão me ouvir. Eu deito e velejo para o infinito escuro sobre a minha cabeça. Em solilóquio, palavras soltas com um sorriso ameno nos lábios: árvores, pássaros, notas sequenciais, o tom frio das cores do inverno, neve, lareira, praia vazia, caminhada noturna, cigarro de filtro vermelho, cortinas xadrez, vento que dança com as folhas soltas no chão, uma garrafa de vinho pela metade, ilhas, gaivotas e saudade.
E de repente sinto brotar galhos de trepadeiras no meu coração e elas cobrem toda minh'alma para que
os pássaros e as cigarras possam finalmente cantar.

17/05/2017

mesmo se eu pudesse
contar em passos
os caminhos que a vida segue
eu ficaria aqui sentada
por toda uma eternidade
só pra ver o que acontece
e o que me viria?
 
os beijos
infinitos
que eu não te dei

15/05/2017

Para Soledade.

Depois de uma longa espera pelo próximo ônibus na rodoviária da capital do Rio Grande do Sul, acordei pela manhã em uma estrada coberta por Hortências. O ar era incrivelmente fresco. O campo era mais verde que a do cerrado e o outono me era o mais afetuoso inverno. Os pampas sumiam no horizonte e as plantações eram iluminadas pela aurora. Eu estava tão sonolenta que mal conseguia ouvir o barulho do motor do ônibus e entre as súbitas escalas de cochilo, me despertavam os olhos para cada paisagem diferente. Às vezes, o sol sumia entre infinitas filas de araucárias de alguma estrada mais estreita, depois faziam-se riscos de sol iluminando de forma simétrica o corredor do ônibus. Pela janela, via-se algum outro campo de alguma plantação de trigo que, mais uma vez, fora iluminado pelo sol. 
Antes de ir para Soledade, um ano antes, eu precisei pegar um avião até Córdova, de Córdova para Mendoza e de Mendoza, para Santiago do Chile. Depois de aguardar algumas horas pelo próximo vôo, chego a Punta Arenas com a trilha em pauta para o fim do trajeto: Puerto Natales. 
De longe só se via o contraste de montanhas e as pequenas casas coloridas de uma cidade de apenas dezenove mil habitantes. Um frio congelante em pleno verão, aquecedores, paredes de aquarela, tarde ensolarada e por fim, ruas desertas e vazias. No centro da cidade, uma pequena praça para contemplação. Os bares com mesas nas calçadas não existia nesse lado da Patagônia. As casas eram de madeira, os bares eram de madeira e as portas ficavam sempre fechadas por causa do frio. As principais bebidas eram vinho e uísque e as músicas, por surpresa, eram bem familiares.
Eu não sei bem o que era. Também o cansaço, a maldita turbulência pega atravessando as cordilheiras e ao mesmo tempo, o alívio por não ter feito o trajeto de carro. Puerto Natales foi como encontrar um baú de ouro no fim de um Arco-íris. Se existe um espaço na consciência onde os desejos ocultos ficam guardados, lá estava uma cidade pequena escondida pela Neblina, pelo vasto campo vazio e a contemplação de um horizonte infinito, mesmo que, dessa vez, não rodeada por montanhas cobertas de gelo.
Diferente de Puerto Natales, Soledade é uma cidade com o dobro do tamanho, tanto em população como em espaço. Atrás da Rodoviária Municipal, alguns Pinheiros fazem música quando o vento resolvem tocá-los. O silêncio é confortante e o outono é tão leve quanto as folhas secas jogadas no gramado das praças. Não lembro quantas avenidas tinha, não que isso importe. Não lembro se já andei por toda a cidade, não que isso também importe. Mas comecei a notar que tudo se encaixava desde o primeiro momento que pisei meus pés naquela cidade. Mesmo que, no momento, eu não conhecesse alguém que me convencesse a querer ficar, bastava a insistência dos meus desejos mais pirrônicos, e eu fiquei.
Eu a fotografei com meus olhos em pleno inverno quando as ruas ficavam cobertas por neblina em vespertino. Eu a escrevi poesias na vista de um apartamento grande e vazio. Especulando o silêncio nos caminhos entre um bar e outro, a espera de nada. Andei por ruas pavimentadas por pedras e asfalto liso. Observei a chuva cair em algum quintal gramado coberta de flores roxas. Vi o ocaso terminar sua jornada em seus diferentes pontos. Contemplei o horizonte infinito visto do fim de alguma rua no centro da cidade. Corri por ruas vazias. Ouvi latidos vindo de quadras distantes. Postes com lâmpadas amarelas. O balanço da praça central. Os bares que não dou nome. O parque que, no inverno, recebe infinitos tons de vermelho do ocaso me fazendo querer sonhar com ele pela noite. Desenhei em mim cores de desejo, de intensidade, de melancolia, de uma infinita vontade de permanecer amando em Solitude. Eu não sei o que te fiz, se eu pedi demais ou se estava sendo distraída. Se eu pudesse, nadaria em teu colo entrando pelos seus profundos olhos de cores musgos. Assim, entenderia que Soledade é apenas um fragmento dos caminhos que preciso percorrer pela vida.
contradições
tão simplórias
como o medo que dissipa o medo
a luz que ofusca o brilho
o escuro que nada esconde
e o amor que tudo conduz
Associo-te a poesia ao sexo, assim como o corpo para o mar.

09/05/2017

o infinito

do amor eu quero a essência
porque a essência não cabe em um corpo

se eu coubesse em uma poesia
certamente morreria sufocada

07/05/2017

Tentâmen Sensus V

decoro sobre o corpo

tato
caminha sobre meu corpo
que é um mundo
com lugares inexplorados
que nem eu mesma pude conhecer
o pudor que nos aprisiona
o medo que nos aprisiona
chegam de barco afim de explorar terras desconhecidas
de prazer
para o seu bel prazer
desconhecendo que
há profundos caminhos que os levam
para lugar algum
e partem em busca de novas terras
ultrapassando o limite dos caminhos
e morrem antes de conhecerem
a grandeza de uma alma
cujo as terras mais profundas
estão infindo em feridas

27/04/2017

Tentâmen Sensus IV

ensaio sobre decoro

eu gosto de você
do seu jeito de andar
do seu jeito de mexer o cabelo 
do jeito que você sorri com os olhos
eu gosto da sua teimosia 
da sua falta de lábia
e do seu beijo travado 
eu gosto da maneira como me segura
com seus braços
com seu colo
e o seus olhos castanhos
eu gosto dessa sua tentativa 
de mostrar que sabe o que está fazendo 
mesmo que não saiba de absolutamente nada
eu gosto da maneira como você se encanta
pelas coisas que não são do seu feitio
mesmo que de maneira cega 
não veja que tudo é tão pouco
dentro daquilo que cabe dentro da gente
eu gosto da sua perdição
da sua pretensão 
por querer tão pouco o que ainda não te cabe
e você segue vazio 
por estar tão cheio 
de coisas atravessadas  
mas sim, eu gosto de você 
do que vejo de você
do que espero de você
e do que te sinto
mas por mais que eu goste tanto de gostar de você
sigo meu caminho nos postergando 
por gostar muito menos de você
do quanto eu gosto de mim 

25/04/2017

Tentâmen Sensus III

Enquanto toca Seven Seconds eu vou até a cozinha e preparo um chá. Em três passos eu caminho até o lado mais puro das minhas lembranças: o céu estava calmo depois de desabar seu choro. O subúrbio do Rio de Janeiro recebeu um arco-íris de infinitas cores naquela tarde de primavera. A comunidade nunca foi tão calma. Algumas casas alagadas, alguns corações partidos. Mas o céu nos refletia nosso próprio brilho ultrapassando qualquer casebre malfeito de tijolos. Eu jurava que um dia aquilo tudo ia ter algum sentido em algum momento. Mas o sentido estava ali dentro de mim, o tempo todo esteve e sempre vai estar.

Um arco-íris intenso de infinitas cores dentro do meu peito que repousa nos reflexos das poças d'água que a chuva abriga nos buracos esquecidos pelo chão.

24/04/2017

Tentâmen Sensus II 

De todas as coisas que ocupam a minha mente, insisto em memórias vazias de coisas que até então não tinha nenhuma importância. Ando buscando aquilo que esteja interligado com tudo o que está acontecendo agora. Esse turbilhão de sentimentos revirados e vivos dentro do meu peito, fazendo de mim um mero fantoche dos meus medos, que não consigo controlar; das minhas expectativas, que não consigo deixar passar e por fim, dessa paixão intensa que transborda e sigo desperdiçando com pessoas que não compreendem que tenho pressa. Elas não têm culpa. Eu não tenho culpa.
Eu aprendi a ter compaixão. 

21/04/2017

Tentâmen Sensus I

Saio do escritório as seis e pego a lotação as seis e onze.
Vejo por três dias seguidos uma nebulosa vestida de humano.
Primeiro dia: As cores eram verde com purpurinas azuis.
Segundo dia: Aproximou-se da lua quando pegou a lotação.
Terceiro dia: A nebulosa observara a chuva pensando em Júpiter, mas seu olhar era Plutão.

13/04/2017

Estar sozinha me ensinou que essa coisa de ser livre é pura ilusão. Há quem diga que ter caminhos a percorrer durante uma vida ou uma tarde inteira e não ter que explicar absolutamente nada para ninguém é uma condição de liberdade. As estradas que peguei no caminho entre sudeste e o sul não levaram a lugar nenhum e isso é simples: O caminho está na alma, o ser humano é um parasita, o amor está nas entrelinhas e no fundo, sempre deixamos algo preso em alguém pelos caminhos.

Faz parte do instinto.

31/03/2017

eu percebi que as músicas que eu tenho escutado
não se fragmentam na atual paisagem em que me encontro
eu preciso seguir meus instintos

29/03/2017

24 de Abril

Quando eu era criança, achava que a vida tinha um trajeto, achava que determinadas ligações de acontecimentos em algum momento, em algum ponto final, iam fazer todo o sentido.
A primeira vez que fui a 24 de Abril, era noite. Não sabia que a rua em que eu estava era a 24 de Abril. Não sabia o bairro ou o ponto de referência. Eu apenas fui. No alto de um prédio residencial, eu ouvia de longe pessoas cantando as mesmas músicas que me era de praxe na infância. A noite estava quente. Os sentimentos também. Mas sei que estava bem próxima do céu. 
A segunda vez que fui na 24 de Abril, eu precisei seguir o endereço anexo em uma prancheta de consulta de rotina. Essa foi a primeira vez que ouvi, de fato, falar dessa rua, sem saber que eu conhecera antes. Pela tarde peguei um táxi às pressas, estava atrasada, como não sabia o endereço, achei cômodo os táxis terem GPS. O taxista não soube localizar o ponto certo, damos algumas voltas, por fim ele me disse: - "Senhora, essa rua começou ali atrás e termina aqui. Não acha melhor descer nesse ponto? Acho que essa rua é bem curta mesmo" - Na dúvida e pressa, desci. 
A 24 de abril é uma rua que começa no meio de uma outra rua, e termina, repentinamente, dando inicio a outra. Ela é uma rua tão curta, que ocupa no máximo de 2 a 3 quadras. Me atrasei para a consulta. Realizei o procedimento e fui até o banco na avenida paralela já que não aceitavam a bandeira do meu cartão. Voltei ao consultório, paguei, e em seguida fui ao ponto de ônibus mais próximo em direção a estação. De dia a rua comercial é bem movimentada, e por ter características diferentes do ambiente noturno, eu não sabia que eu já conhecia aquela rua. 
Duas semanas depois eu passei, por acaso, pela 24 de Abril a procurar por uma outra rua onde localiza o centro de distribuição de correspondências. Eu esperava um documento importante que não chegou até mim por engano e voltou para o centro de distribuição. Dessa vez o endereço se localizava próximo a praça principal da região, a praça que foi ponto de referência na primeira visita a 24 de Abril. O atendente do primeiro ponto de distribuição próximo a praça, me deu o endereço correto de onde poderia localizar minha correspondência: -"A senhora atravessa a praça, segue reto até a ponte, logo depois da ponte na primeira rua a esquerda, fica no final dela o ponto de distribuição". Eu fui andando, era tarde, lembro que era perto das quinze horas e a temperatura estava muito alta. Me aproximando da ponte, notei que o prédio a direita era familiar. Um prédio residencial muito alto, que só observei nesse mesmo dia. Era ali, a primeira noite na 24 de Abril, a segunda vez a procura pelo consultório e a terceira me perguntando: por que logo aqui? 
Passei pela inscrição da faculdade, moraria em outra cidade, mas por ironias do destino, permaneci. Decidi morar no centro da cidade, negociava um apartamento perto da estrada, mas por intervenção, escolhi um conjugado na mesma rua. Uma rua que no final dela, chega na praça principal, a mesma praça em frente a igreja, a mesma praça que foi dada como referência na primeira noite na 24 de Abril. 
Vivo meus dias longe dela. Quando é preciso me aproximar, sobe uma ânsia sobre meu estômago congelante, mas sigo e volto, como quem sabe o próprio limite. Outro dia eu quis sair para encontrar a floricultura mais próxima e ter cactus no conjugado. Mas a floricultura mais próxima era na 24 de Abril. Pensei em ir, ensaiei os passos, as possíveis alternativas caso precise fugir ou explicar minha presença naquela rua. Mas não fui. 
Os dias correram devagar. Atravesso as ruas com medo de esbarrar por algum fantasma ou vestígio do tipo. Do meu conjugado ouço o sino da igreja em frente a praça bater. Meio dia, às dezoito horas e aos domingos, também às sete. Às vezes vou até a praça nos domingos a noite, fico observando a barraca de pipoca doce, os fiéis assistindo a missa, as crianças no parquinho e os carros passando pela avenida em direção paralela a 24 de Abril. Do outro lado, vejo carros vindo dela. 
Um dia sonhei com a 24 de Abril ao amanhecer. Era daqueles amanhecer que ainda não aparecia sol, então era facilmente confundido com o fim da tarde, mas de algum modo eu sabia que era a manhã. As manhãs sempre me deixam melancólicas, mas nesse sonho eu não sentia melancolia. O ponto era em frente a entrada do prédio do lado da ponte, vazio, com flashes de fantasmas que pareciam ser alguém que eu conhecia, mas simplesmente não era. 
Ontem eu fui chamada para comparecer a uma entrevista de emprego, o endereço anotado às pressas era "4 de Abril, 2890, centro da cidade, comparecer amanhã às 8:30 da manhã", depois de terminar a ligação, eu percebi que não existia 4 de Abril no centro da cidade, o endereço mais próximo de ser era 24 de Abril. Eu não dormi, eu esqueci completamente por onde andei essa noite. Às sete eu levantei, tomei um banho longo, em seguida saí em direção a entrevista. Atravessei a praça pela manhã a sorrisos, das pessoas sem pressa, dos senhores nos bancos da praça, dos comerciantes e das árvores que há dias de dias nublados, pediam pelo sol. Tão próxima a rua 24 de Abril, caminhando, pouco trânsito, vento frio. 
Saindo da entrevista, dei uma pausa no caminhar. A vista daquela direção era a mesma vista do sonho que aqui mencionei. Não vi fantasma algum, mas gostaria. Sorri. Eu sorri como se eu estivesse em um filme e ele acabara de chegar perto da reta final. Eu sempre achei que tudo tinha uma ligação, que tudo no final ia fazer algum sentido. Mas deixei de acreditar nisso há algum tempo atrás. No fundo eu gostaria muito que as minhas frequentes idas a 24 de Abril significassem alguma coisa para que tudo isso fizesse algum sentido, mas a primeira noite nela consequentemente será a única e no final de tudo isso, minhas idas e vindas por essa rua, um dia, não fará mais sentido nem nas minhas mais insignificantes lembranças.

06/03/2017

Cheguei na praia perto das seis. Eu não cogitava entrar no mar já que a noite estava caindo. Mas estava tão calor que eu resolvi pôr os pés na borda para sentir a temperatura, sem nenhuma pretensão ou algo assim. Quando eu finalmente coloquei os pés na água, já estava passando pelas minhas coxas. Depois os quadris e os seios. Por algum minuto eu fechei os olhos e vi seu rosto. Quando dei por mim estava envolvida pela água e me joguei. Flutuei em alto mar sem me preocupar com o tempo, com a tempestade que estava por vir e com a chuva.

Existe maneira mais profunda de se apaixonar por alguém?

05/03/2017

ela começa a dançar pelo estômago
fria como o fim de outono
pula até se segurar ao coração
e se mantém quente como o fim da primavera

ela queima e machuca
como um verbo que não cabe na existência
e fica presa entre o peito e o céu da boca

então ela recita versos pelo corpo inteiro
aos pés de caminhos desandados
e as mãos que não resistem aos toques

toda vez que vê aquele que se sabe o nome
mas desconhece o infinito que te provoca
essa tão inquietante lamúria
se transforma em fogos artifícios

fogos que queimam em silêncio dentro do peito
como se o próprio silêncio
o fizesse sempre
amar sozinho

28/02/2017

ansiedade
escuto meu álbum favorito 
estou na rua com meu melhor amigo
ruas vazias, batidas oitentistas
vento batendo nas árvores natalinas 
é verão
é janeiro
é outono no gramado do campus
minha casa favorita está vazia
é salmão
cor de verão salmão
eu quero desesperadamente apertar no quatrocentos e sete
não tem ninguém
tem você
cabelo castanho
sorrir com os olhos
passeios na praça no centro da cidade
barraca de churros
trailer de cachorro-quente sem salsicha
chuva
jornaleiros fechados
passagem de verão
clima de invern
como nos filmes de dois mil e quatro
quando eu ainda chorava de saudade daquilo que ainda não tinha vivido
eu estou vivendo
estou esperando
estou esperando por mim mesma
só pra despertar no agora

25/02/2017

Saí do apartamento as duas da manhã. Encontrei com ele na esquina da minha rua. Com um cliente ou dois, a pizzaria mais próxima estava prestes a fechar. Em um bairro silencioso do continente, há muita gente que ainda estava acordada, assim como a gente. Resolvemos caminhar mesmo que o céu prometesse mais chuva. E choveu. As gotas caíram quentes e grossas. Conforme as chuva apertava, diminuíamos o ritmo dos passos aproveitando cada gota como se o céu pudesse nos abençoar. Eu poderia fotografar o que sentíamos, mas era impossível, e mesmo que eu tentasse descrevê-lo, não descreveria com tanta veracidade.

22/02/2017

O jardim de Aquário é logo na esquina. Atravesso a avenida e em seguida, duas quadras. Pedras Portuguesas, ruas serenas, botecos com os nomes de seus donos. A praça tem o calor vivo das crianças do subúrbio, mas a serenidade vista em seus olhos são como pássaros noturnos a espera da manhã. Sento em frente a rampa de convivência coletiva. São quase nove da noite e não tenho pressa. Eu caminho como se estivesse passando em frente ao seu prédio quando volto pra casa. 
Eu não consigo parar de pensar sobre os trajetos percorridos dos dias que ainda estão por vir.

19/02/2017

Morei em tantos lugares, esbarrei com tantas pessoas. Pessoas de todos os tipos e idade. Por causa dessas pessoas deixei de ter muitas dúvidas e nenhuma certeza de nada. As pessoas são complexas, o que elas fazem, o que elas sentem, a maneira como dizem amar, se são felizes ou não, se estão fazendo a coisa certa para si ou para a sociedade. Sem dúvidas, as que eu mais gostei de conhecer foram as pessoas loucas. Aquelas que são loucas pra viver, aquelas que sentem dor, aquelas que choram, aquelas que surtam, aquelas que perdem o equilíbrio. É impressionante como eu vejo tanta vivacidade nessas pessoas que se expõem, que se libertam, que se abrem infinitamente para si e para o mundo. Eu gosto é de gente caótica. De gente que se apaixona sempre, de gente que sempre tem dúvida sobre tudo e certeza de nada. De gente que grita, implora e luta. Sobre as pessoas socialmente e emocionalmente estáveis, eu nada pude aprender com elas. Pois vejo beleza no contraste do que não se deve ser. Entre aquelas que tem medo de se jogar no mar, há sempre aquelas que se entrega a ele, nem que seja para se afogar de amor.

17/02/2017

Isso aconteceu há anos atrás quando eu ainda morava na beira do cais. Primeiro a gente se cruzou na praia. Era de noite. Praia vazia. Eu estava sozinha e você também estava sozinho. Você não me viu, pois era daquelas pessoas que gostava de ler o mar e se perder no brilho da orla do outro bairro. A segunda vez que nos vimos, pegamos o mesmo transporte público. Você sentou na minha frente e ficou horas conversando com um senhor e quando desceu, se despediu dele com um 'até logo' e em seguida pensou em voz alta: "por que eu disse isso?" - e mais uma vez, você não me notou.
Fiquei dias pensando em como alguém tão sozinho poderia estar perdido na Praia da Brisa? Alguém tão sozinho quanto eu.
Eu não lembro quando nos falamos a primeira vez. As primeiras lembranças que tenho de você é que a gente saiu algumas vezes para fotografar na praia. A gente ouviu músicas no seu quarto e andamos um bairro inteiro bêbados de vinho pensando em invadir uma mansão. Tudo o que lembro de você são flashes do que realmente importou pra mim: você se tornou o meu melhor amigo, fazíamos tudo juntos, compartilhamos segredos, conhecemos os pais um do outro, fizemos amigos novos juntos, bebemos em um colégio vazio a noite, jogamos ouija e sonhávamos que um dia a gente iria enfeitiçar o mundo com poesia. Outra coisa que importou bastante pra mim foi que a gente se afastou. E eu não sei o porquê. E no fundo por que eu deveria me importar? Tudo um dia acaba, mas os sentimentos ficam guardados aqui dentro, como referências dos próximos momentos que ainda vão acontecer. E eu te agradeço muito por isso.

15/02/2017

Me sinto submersa.
Te encontrar me fez ver um lado de mim que eu ainda não conhecia. Algo que eu não sabia que se era o correto a ser feito, ou sentido. Te olhar, fazer tranças em teu cabelo longo, tocar a tua barba e perceber a cor viva dos teus lábios naturalmente rosados, me fez ignorar que esses profundos olhos emaranhados de verde musgo não pediram para que eu pudesse te salvar. Foi tudo uma coisa estúpida que eu criei e escolhi para que os meus vazios e ansiosos dias fossem salvos.
Não tenho as mais doces lembranças de ti porque não deu tempo para que elas fossem criadas. As poucas que tiveram, não há nenhuma veracidade. Mas eu estupidamente te quero. Te quero como o as gaivotas voam sobre a brisa do verão, te quero como o farol aceso de um porto marítimo abandonado. Te quero com lamúria. Te quero com ardor. Mesmo que tenhas escolhido te proteger disso, mesmo que tenhas a indecência do doesto contra meus sentimentos e resolveste fazer do nosso tempo o teu desenfado. Eu te desejo, com valimento, todo esse ardor que desconheces.

13/02/2017

eu descreveria
a imensidão do pesar que sinto
mas eu me mantenho estática
diante a infinitos porquês

eu prefiro acreditar
na tua vulnerabilidade
do que aceitar
como injúria
esse temor que te cala

01/02/2017

Me esqueci em que dia da semana estamos. No chão do quarto e no meio do barulho da chuva, a madrugada nunca me foi tão íntima. Há muito tempo que eu não me ouvia. Na tela da TV uma mulher com vestido branco dança sorrindo, graciosamente dança no ritmo da chuva e eu choro no ritmo do céu. Trovões, na esquina um desconhecido chamado Conrado. - Oi, tudo bem com você? - Não muito bem... - O que houve? Eu sou assim, pessimista e sempre com um mau presságio como desculpa e ele, Conrado, diz que pessimismo é paixão frustrada. Sei lá.... Paixão pode ser qualquer coisa então, qualquer coisa mesmo, uma vontade intensa e reprimida. O problema é que estou morando sozinha em uma cidade na qual não conheço ninguém, até fiz amigos aqui, mas de pouca data. Eu não vou voltar. Algo me prende aqui, é muito intuitivo, tanto que quando sonho que estou voltando, eu me sinto em uma estrada sem rumo. É complexo e angustiante e além do mais eu estou há dias sem dormir. Se quer saber mesmo, quero ser livre, mas saber o que fazer com essa liberdade. Olhe bem, eu estou morando em uma cidade sozinha, posso fazer o que eu quiser e quando quiser, porém eu continuo sem saber o que é ser livre. Eu sei que liberdade é uma questão pressuposto, são momentos de euforia, mas liberdade, é no fundo, não ter medo. Conrado me contou em seguida que seu maior sonho era tocar pelo mundo. Os olhos ressaltaram um brilho único e distante com uma frase típica de otimismo. Eu sei que ele vai. A gente consegue tudo o que quer, sabia? Tudo o que realmente queremos. Ele, ainda com o brilho distante nos olhos, contou que tudo pelo que lutou, teve seu sucesso. Sabe, é fato que o medo é instintivo, uma auto preservação, mas é que eu nunca soube diferenciar intuição do medo a não ser que eles entrem em conflito e comecem a brigar dentro da gente para que no final nós saiamos machucados. Se algum dia alguém me pedir um conselho, eu vou dizer: Confie na intuição, o medo é apenas um conforto. E se é a intuição que sempre diz sim? Não, o desejo que sempre diz sim. A intuição se quer dá alguma resposta. Mas Conrado, está amanhecendo, eu acho que foi um dia ruim para uma prosa. Não se preocupe pela curiosidade de não saber quem eu sou porque nem eu mesma sei. Mas eu concordo que por poucas linhas em um bloco de anotações, nos conhecemos muito mais do que muitos desconhecidos por aí.

26/01/2017

eu queria dizer que, excepcionalmente hoje, no dia chuvoso de uma quinta-feira em um bairro silencioso do continente, onde as cores da paisagem se misturam de verde, azul e cinza, deverá existir alguém, um único e solitário alguém, que vá compreender o genuíno das gostas da chuva que caem na janela como um gesto simples de existência e não vai se sentir indiferente como se a vida perdesse o sentido quando paramos pra observar a chuva.

08/01/2017

Lazúli. Eu preciso viver próxima do mar. Areia clara e seca. Cor de açúcar mascavo. Meus pés afundam quando paro e flutuam quando corro. A orla é pavimentada com pedras lazúli. Lazúli da cor mar. O vento sopra pro sul. Meu cabelo voa, meu vestido branco voa, as tendas dos quiosques voam, as folhas secas voam, as ondas correm, correm, correm e batem na orla como quem não quer mais voltar. 
Eu preciso viver próxima do mar.

03/01/2017

Se não fosse horário de verão, poderia dizer que nesse momento o tempo atravessa pelas quinze da tarde de uma terça feira. Pedi um suco em uma lanchonete aqui do bairro, sentei nas mesinhas postas na calçada e observei que, não sei se pela composição das cores infinitas em tom de laranja e verde ou pelo sebo do lado na lanchonete com um cartaz nostálgico do filme Casablanca, é que observando as pessoas daqui da mesa, é como se elas estivessem encenando em alguma telenovela brasileira dos anos noventa. Veja bem, estou sentada em uma mesa rústica de madeira. Há sombra na calçada coberta, e no bar do outro lado no sebo, tem um senhor que chutaria ter uns setenta anos de idade sentado em uma mesa de plástico vermelha que pertence a um bar sem nome. Eu não sei o que ele pensa, mas acredito que pela expressão de nostalgia que aquele olhar perdido nos pensamentos traz, ele deve estar sentindo exatamente o que sinto agora. Em algum momento de sua vida, talvez nos anos oitenta, ele sentiu que se perdeu na paisagem como em um filme mudo ou até mesmo fazendo anotações sobre pessoas com olhares perdidos em uma tarde nostálgica de terça feira.

29/12/2016

te tenho como não te tenho
me viro do avesso
e entro em contradição
por não te querer tanto te querendo
e te encontro sem te procurar
e mesmo que não me queiras por tanto me querer
em ambíguo desejo de insistir e deixar passar
eu te amo justamente
por não querer tanto te amar

16/07/2016

De olhos fechados, eu sinto a chuva. Eu vejo a vista do terraço na avenida. Eu ouço pássaros. Eu sinto o cheiro de grama cortada. Eu sinto a manhã de um infinito domingo de sol. Eu ouço as mesmas canções que meus pais ouviam. Eu sinto o vento bater no emaranhado dos meus cabelos. Eu sinto a dança dos meus pés cansados. Eu sinto a brisa. E maresia. Es gaivotas cantando numa praia vazia. Eu vejo as luzes correrem na avenida de um ônibus movimentado. Eu observo estranhos sorrirem na estação do metrô. Eu sinto o vibrar dos discos de vinil na sala vazia de uma casa com paredes amarelas. Eu sinto cheiro de roupa limpa. Eu ouço gatos noturnos. Eu ouço latidos do subúrbio. É que o silêncio que os olhos carregam quando estão fechados, permitem que a alma grita por um novo mundo. Um mundo que pertence a essência.

28/06/2016

eu morava em um cais
mas de vez em quando ia pra minha casa
tomava café da tarde 
e observava a chuva cair na telha da varanda
e no gramado do quintal

eu sentia o cheiro da terra quente
de certo era uma chuva de verão
daquelas que o sol chora de feliz
porque o céu resolveu se abrir 
e desabafar suas ruas

minha rua favorita de morar
em teu colo
teu abraço

meu cais 

21/06/2016

olhar a vida do cais
e as ondas vindo de longe
sem saber o ponto de sua quebra
eu me escondo em uma onda
acreditando estar longe do perigo da queda
finalmente alcanço a orla
a mesma onda na qual eu mergulhei em delírio
quebra tão incompassível em minhas costas
vísceras
coração
sofrimento

o mar é imprevisível
a vida também é

20/06/2016


a gente precisa desatar esses nós dentro da gente
na imensidão de um verde musgo
num gramado ao plenilúnio
numa mansão com tetos de vidro
e nas gotas de suor dos nossos corpos em dança
 até esquecermos então aonde estamos

entre o 'se encontrar' e o 'se perder'
o ápice está nessa eterna busca

15/06/2016

hoje
eu bebi água quando estava com sede
corri quando estava com pressa
atravessei o rio sem nadar
reguei o mar
tomei as flores e os espinhos dentro das minhas vísceras

hoje
eu vi fogos de artificio tortos no céu nublado
senti frio e não coloquei casaco
chorei, chorei e chorei até o olhos arderem em chamas
sorri de canto enganando a tristeza

hoje
as palavras não soam nada
como se apagassem nas vidraças frias do inverno
e a noite os cães latem na vizinhaça
e na porta ao lado, eu não tenho por onde me esconder

hoje
as palavras não soam nada
mas escorregam feito rio de uma torneira fechada às pressas
de um lago raso sem fundo
sem patos e gansos para dar vida a paisagem 

09/06/2016

Lembrei de uma garota que conheci num bar no verão. Loira, cabelos curtos e usava lápis de uma maneira muito peculiar. Olhava de forma desprendida para um copo vazio que segurava e na fachada da noite parecia não ter fim. Eu me aproximei e perguntei a ela se gostaria de dançar. Ela imediatamente sorriu como se esperasse por isso. Não trocamos uma palavra por muito tempo. Por hora, dançávamos em singular. Ela perguntou se eu queria sentar com ela e puxou minha mão sem esperar minha resposta. Entre os bancos afastados da pista de dança, escuros e interruptos, ela me beijou e ainda com a mão na minha cintura, perguntou meu nome. Eu estava sóbria, havia acabado de chegar porque a madrugada no apartamento da rua principal estava por se encher de luz dos postes altos e como era nova na cidade, precisava me enturmar. Seu nome era carolina, era a única coisa que eu consegui ouvir dela além de que gostou do meu cabelo ruivo. Aparentava ser ao menos uns cinco anos mais nova do que eu. Ela levantou da mesa depois de um ultimo beijo com gosto de álcool e depois foi como se ela nunca tivesse existido ou como se eu tivesse apenas sonhado.
A luz, um beijo quente e nada mais. 

05/06/2016

Das certezas que eu teria com quem me sinto afeição: ele moraria numa rua de pedras e sem saída e na aurora da janela do seu quarto ouviria o canto do bonançoso dos pássaros. Ele seria feliz com uma vida modesta e um emprego similar e quando voltasse pra casa no meio da noite, sentiria saudade do vento noturno e do que ainda não viveu. Ele teria sonhos e não pressa. Seria louco e poeta. Dono de uma poesia que te transbordasse a alma como nos pseudônimos. No teu eu lírico, na culpa e no segredo dos teus cantos e por mais que divagassem nas margens dos seus rios, não haveria um intrépido e de profunda tenaz a se afogar nas profundezas do teu simples raso já que a ausência de poesia não se limita nas palavras.



02/06/2016

Aposto que você nem sabe onde estou.

Estou numa rua vazia com postes corais de um bairro do subúrbio no inverno. Ninguém me conhece, eu não conheço ninguém. Moro em um 40m² e quando acordo, ouço pássaros cantando. Particularidades: na sala há uma tv antiga. Na varanda, um sino dos ventos. Da vizinhança tenho o cheiro da lenha queimada. Quando faz sol, vejo minha novela favorita e me sinto nos anos 90. Gosto mais de ver TV quando está sol. Quando está chovendo prefiro o barulho das gotas da chuva caindo no quintal. Na esquina da minha rua tem um ponto de ônibus. Ele vai para o centro da cidade. Eu só gosto de ir ao centro da cidade nas noites de quinta feira, mas quase sempre vou aos domingos. Ou quase sempre, sempre.

Sinto que a vida vai acontecer devagar agora.
Me sinto melhor quando estou sozinha.

30/05/2016

Assisto sentada em frente a um quadro alguém desenhar linhas retas. Do outro lado da rua, um cão sem dono é alimentado por uma senhora sem pressa. No céu há nuvens cinzas anunciando chuva. Mas alguém continua desenhando em linhas retas naquele quadro.
Quando chove, sinto falta do sol. Quando há sol, almejo a chuva. Sinto falta do cerrado quando estou no Sul e sinto falta do Sul quando estou em Brasília.
Está tudo certo: As linhas, o clima, o cão e a pressa.
Só há algo de errado na minha sintonia.

24/05/2016

Gosto desse horário da manhã, quando o céu está claro e ainda não tem sol. Eu poderia confundir com o fim de tarde facilmente. mas é manhã, e eu perdi mais uma noite de sono. 

23/05/2016

Outro dia eu desci as escadarias escuras do prédio porque o elevador, como de praxe, estava com defeito. Fui até a esquina da rua em que eu morava, que era também, a rua que ele mora. Chamei-o pelo nome em baixo tom, consequentemente gritei-o e ele apareceu na janela como se já estivesse me esperando. Era só um pedido inesperado de um passeio num começo de tarde, porque eu estava sob efeito de anti depressivos e precisava tomar uma atitude imediata antes que, no próximo segundo, o desejo fosse outro. Saímos por aí, ambos de óculos escuros. Eu porque não conseguia parar de rir sob o efeito dos remédios e ele, pela rotina noite de insônia. Paramos em um bar, apostamos em jogos de sorte e compramos cerveja. Não tínhamos muito para falar, nunca fomos de falar muito um com o outro, mas sei que seus olhos carregavam o lamento da minha despedida. A partir de agora, pensei, não teremos mais encontros nas madrugadas, nem olhares profundos que diziam mais do que qualquer compromisso avesso. Tínhamos compromisso ali, de carne e sangue, de alma e de gozo e tudo o que partilhamos em meio tempo não teve espaços para hipocrisia e corações quebrados pelo simples fato de que não pertencíamos um ao outro, mas quando decidimos quebrar a rotina, algo se fez por si aquilo que não ditamos, não queremos, não desejamos em ato. Era por si só ele mesmo, saudade, por assim bastar. Terminamos a tarde olhando o sol que desenhava sombras na janela, jazz, cafunés, olhares com palavras distorcidas e nunca ditas.

12/05/2016

Companhia

Hoje fui até o mercado e pensei em comprar um vinho.
Tinha uma voz que ficava tagarelando o tempo inteiro na minha cabeça. Não é de hoje que isso acontece, às vezes gosto do que ela fala, mas em grande parte é um emaranhado de coisas sem sentido que me deixam pra baixo, como se houvesse alguma razão. Olhei plantas no setor de jardinagem, pensei em comprar cactos. Dei em desdém e lembrei que talvez um sorvete de macadâmia me faria bem. Lembrei do vinho. A fila estava tão grande que decidi deixar a mercadoria e voltei de mãos vazias. Mas a voz estava na minha cabeça, cantando cada música que tocava no aleatório nos fones de ouvido. 
De algum modo estranho, eu achei isso bonito. Acho não poderia haver melhor companhia para uma quinta à noite. 

25/02/2016

Vênus, Júpiter

Para Eric

Caminhamos por aí de mãos entrelaçadas no ritmo do vento que busca a chuva.
Em pequenos espaços obscuros entre as pálpebras, tua boca e a maneira de como sorri com os olhos quando me carrega.
É que há dias que o verão tenta mostrar como será o inverno daqui a frente.
Pés quentes, mãos frias, lábios úmidos de chuva ou de saliva.
Eu me sinto transbordar por um colégio público noturno, a cidade é mais bonita quando não há ninguém ocupando os espaços públicos.
Sinto a sensação de posse do mundo.
Você solta a minha mão para acender o cigarro, enche a boca de fumaça e a solta contra a luz de um poste amarelo. Olho e penso o quanto você é excitante.
E como fica lindo quando traga o cigarro e me lasca um beijo com um gosto amargo.
Mas há espaço entre as cores também.
Daquelas que carregamos nos olhos dos dias vazios.
E o que resta é aquilo que também transborda com tudo aquilo que levamos com o tempo.
E os espaços pequenos obscuros das minhas pálpebras carregam teu colo, a manhã e o alívio de mais um dia contigo.
Esperarei por Vênus e Júpiter entrelaçarem em meu colo.
Por mais que os dias sigam caminhando nem sempre ao seu lado,
de toda a razão o amor  sempre é perdoado. 

07/02/2016

Fragmentos sobre o mar

Você tem um jeito de mar que me faz flutuar olhando o céu. 
As ondas curtas e silenciosas ultrapassam a minha nuca de uma maneira que quando chega na orla, agride as pedras que te impedem de ir muito longe. 
É que contigo eu estou no fundo, longe da multidão da praia, é simples quando se já está em alto mar.
Eu não sei nadar, mas no seu mar eu me sinto segura. 
Porque sou um porto, e você é meu cais. 
Eu sou apenas um corpo flutuante sendo carregada pelas suas ondas. 
Que me ilha e me equilibra. 
E se eu me desequilibrar, não haveria nada que me impedisse de me afogar em você. 

12/12/2015

Introspectivo. Ele sai pela manhã em um dia nublado. Os pingos da chuva desenham a janela do transporte público, nada muito realista, talvez porque tudo seja mesmo de mentira. Ele sai por aí sem abrir o guarda chuva, apenas para sentir as gotas em seu rosto e ter certeza de sua veracidade. A única coisa que ele realmente acredita é no tédio dos dias que correm e escorrem pela janela do transporte público feito gotas em dias de chuva.

O introspectivo tem um mundo inteiro dentro do peito
e o que vem de fora não cabe mais.

03/11/2015

Vago por aí e a nada pertenço, mas às vezes me cai em falta pertencer ao mar. Ando íntima de mim mesma quando não durmo, sumo do cotidiano e engano a vida. A própria vida que me é tão fácil enganar.
A vida é bem isso mesmo, tudo engano, tudo insano, tudo encanto. Porém em cada canto que se vai sozinho é uma ilha inabitável. O isolamento é tortura de muitos e privilégio de poucos. Poucos têm a oportunidade de conversar consigo mesmo.
Fui até a praça da esquina no fim da última tarde. E em cada canto o encanto de seu grupo: rapazes competindo sabedoria; mulheres sorrindo para outros rapazes; crianças correndo pela grama; pessoas em uma conexão divina em infinitos círculos pela praça. Raios de sol atravessando as folhas das árvores que não paravam de balançar por conta do vento e assim formando desenhos na grama. As árvores cantavam, cada uma no seu ritmo fazendo da praça um grande concerto sinfônico e eu, uma mera espectadora de um longa metragem com os melhores atores e a melhor fotografia e trilha sonora.

Vago por aí e a nada pertenço. Ando íntima de mim mesma a maior parte do tempo. A vida é bem isso mesmo, tudo engano, tudo insano, tudo encanto. Poucos têm a oportunidade de conversar consigo mesmo.

 Ser sozinho é uma ilha inabitável e privilégio para poucos.

13/10/2015

Saímos da sua casa chapados a andar pelas ruas de madrugada. O centro da cidade era inteiramente nossa, até você segurar forte a minha mão na avenida principal. O brilho da vida não pertencia aos postes, nem ao céu estrelado dessa terça feira.

Em uma lancheria, falamos dos nossos melhores amigos, das minhas boas lembranças com meu pai na minha infância. Dos nossos sonhos, que ainda não são nossos e das viagens que ainda não fizemos: uma ida ao interior para fotografar a natureza com os nossos próprios olhos.
Eu escrevo com a luz, você escreve com todas as canções que ainda podem ser escritas. Gosto dos seus olhos verdes-veludo, de suas mãos largas e diretas. Eu me seguro para não beijá-los sempre que seus olhos sorriem. Sei que ainda não te falei isso, mas seu corpo inteiro sorri pra mim. E eu me sinto completamente desajeitada sem saber como reagir. 
Essa noite a gente finge que a cidade nos pertence. A gente finge que o limite da nossa entrega ultrapasse o limite de todos os nossos medos.

31/08/2015

que seja o arco íris em volta da lua
que seja o sol mais iluminado de domingo
há uma manta de raios dourados que envolve o seu cabelo
e o oceano nos olhos de uma alma submersa
me afogar e perder essa paisagem não seria tão prudente
quanto navegar na leveza dos possíveis encontros do teu canto

23/06/2015

Estamos perdidos. Sentamos na cama, perdidos. Olhos cheios d'água e de agonia. Ele se diz mais agoniado e triste do que eu. Ele diz isso porque não entende o fato de eu querer fugir das pessoas que me caem em afeto. E digo que não o amo mais, repenso as consequências do desamor e me cai o mesmo: O verdadeiro motivo é que não sei. E de repente odeio essa cidade e caio em mágoa dessas ruas de pedras. E de repente eu amo tudo aquilo que odiei. 
Escrever não me salva. Chorar não me salva. Amar também não me salva. Sei que pode parecer desafeto, mas tudo é tão simples e inalcançável olhando de fora que quando olho pra dentro de mim, não quero mais entrar. E fico perdida, com os olhos cheios d'água e de agonia. E ele me olha perdido como se não entendesse mais nada. E lá fora chove, raios, trovões e barulhos de vento no forro da casa. E de repente por dentro tenho o sol, tenho banhos de chuva quente, tenho blues no fim da tarde e tudo canta. Minha'alma canta, meu corpo e meus olhos se perdem nas coisas que via e nunca encontrava. E ele me olha perdido como se tudo tivesse acabado. E eu quero fugir para uma cidade que ninguém me note. Eu quero fugir de todos que me conhecem, porque de algum modo sei que não tenho nada a mostrar a eles. E ele... ele diz que sou a garota mais incrível que ele já conheceu. E de repente vejo que não tenho mesmo nada a mostrar. As músicas que nós conhecemos, os livros que lemos, os filmes que assistimos juntos; as garotas que ele já amou, as declarações soltas nos guardanapos das lancherias. O Rio, Brasília, O Sul. Tudo se apagando por um momento e voltando como fantasmas que me assombram na cozinha.
Eu só queria que alguém me desse uma sacudida. Eu só queria que alguém me puxasse do abismo da dúvida sem me garantir a certeza. Porque a única certeza que sei é que carrego o peso do próprio mundo e se eu tivesse uma única oportunidade de voltar atrás, simplesmente faria tudo de novo, sem perceber.

18/06/2015

Viajamos no cosmos azul e brilhante. Os olhos estavam fixos um ao outro com um misto de leveza e desespero, também, pela leveza um do outro. Quando ele me aninhou em sua cintura e me deitou nas nuvens, vi o céu estrelado pousar por cima de nós, e com ele, a lua clara e brilhante. A grama era fresca e recém aparada. Não só os nossos corpos, mas o vasto campo era iluminado com um cristal azulado. Um azul marinho de céu a noite. A noite girava em nossa cabeça, corpos suados flutuando sobre a cama e a grama. Um quarto coberto de espelhos moldados e observados por estranhos curiosos e famintos pela energia única que só a gente sentia. Uma grande mansão branca com tetos de vidro e o sol refletia nos nossos corpos no tapete da sala e a gente não via que a hora passava. Muita gente olhava desejando a relevância do valor das coisas que o dinheiro não paga. Essas pessoas não são confiáveis, por alguma razão desconhecida. Se a sintonia é recíproca o segredo é nosso, eles não entendem que para viajar no cosmos só o desejo não basta, é preciso entrega

(de infinitas coisas coisas que não se cabem dizer)

17/06/2015

Sempre achei que as pessoas nasceram para se virarem sozinhas. Sempre achei que o conforto era a base de quase tudo e que todas as escolhas e situações confortáveis trariam o mínimo de satisfação.
Tive situações desconfortáveis na infância. Uma delas é quando meus pais resolveram sair no meio da noite sem que eu os visse. Eu devia ter uns quatro anos de idade, lembro bem que a única reação que tive foi de chorar por achar que eles nunca mais voltariam.
E é assim que me sinto hoje, um poço de desconforto por achar que não preciso sofrer assim por alguém. E tento ser forte e me enganar e tento também superar meus medos contando a mim mesma que aquilo era apenas um equívoco de quem não sabia nada sobre a vida. Acho que na verdade a gente nunca sabe.

14/06/2015

Levanto da cama com cuidado para não te acordar. Ainda é escuro e a janela é uma tela de chuva simples e contínua pintando todo o asfalto molhado com o reflexo coral dos postes da segunda maior avenida da cidade. O apartamento fica no terceiro andar. Te olho e penso no quanto é poético morar numa cidade cujo nome significa 'Solidão'. Alguns dizem que o tempo faz com que nos surgem efeitos que dão juízo ao seu nome. Outros dizem então que ela é regida por uma santa acolhedora. Não me importa, eu sempre me sentirei contigo, principalmente quando estou sozinha. Como no cais, no teu moletom e em todas as manhãs de geada da tua antiga paisagem.
Eu definitivamente entendi que o que sentimos naquele tempo, sempre fará parte de mim, de nós e de tudo. Sobre as ruas que caminhamos, as estradas que viajamos, as camas que dormimos. As xícaras, o gramado, o campo vasto no horizonte da nossa janela e todos os sonhos que carregamos na singela sintonia do ser.

27/05/2015

Soledade, Solitude, Solidão...

Hoje fotografei uma bailarina na chuva. 
Me molhei, 
as meias, o casaco e as botas.
Cheguei bem subindo as escadas até abrir a porta do apartamento.
O apartamento mais cheio de coisas vazias,
inclusive eu. 
Aí descobri que não estou muito bem, eu não sei porquê. Eu geralmente nunca sei o porquê. Tô começando a achar isso um tédio. Eu com tédio de mim mesma. 
Então troquei as meias, o sapato e peguei o mesmo casaco molhado e desci até a praça, há duas quadras do prédio. Soledade tem seu charme Belle Époque no inverno. As folhas secas caídas molhadas de chuva, os postes com luzes azuis e as poças d'água pelo mal relevo do espaço público. Eu-simplesmente-vivi-aqui-antes, por muito tempo e sozinha.
E encontrei três pessoas sentadas nos bancos molhados. Me pediram as horas e puxaram assunto perguntando de onde era já que nunca tinham me visto por ali. Eu estava sem relógio. Eu estava sem tempo e ao mesmo tempo com uma eternidade nos olhos. Falaram seus nomes, suas idades e riram depois de algum tempo por distração minha coisas que já não me lembro. Eu não estava ali. Eu nunca estou aonde estou. A praça é de algum filme antigo de cidade grande na America central. O vento pertence ao subúrbio da Pensilvânia e os latidos dos vira-latas abandonados da noite pertence àquelas famílias felizes de algum filme de comédia dos anos oitenta. Depois de algum segundo eles disseram que iam embora 
e começou a chover. 
Aí voltei pra casa. 

10/04/2015

É como aqueles sonhos sobre jardins secretos. 
É como a lua baixa e dourada vista pela janela do quarto.
Eu tenho escutado o mesmo álbum há dias e noites.
Eu tenho desviado caminhos e corrido em atalhos para me encontrar, mas no fim de cada estrada eu não encontro nada além de memórias quentes no meu peito e alma.
Sinto ainda perfumes que me fazem chorar por tempos que nunca chegaram.

Ironias do presente...
apenas. 

24/02/2015

Por que me importaria se a ti ele soa tão falso?
Mesmo que em tuas ventas sejas o verdadeiro poeta,
Mesmo que venhas provar em teoria a falsa lucidez que me cativa
Que reação me provocas além de um tepentuoso tédio?
Me digas
O que seria mais verdadeiro do que as reações do teu incrédulo fascínio que ele me provoca?

23/02/2015

Eu danço contigo todos os dias. No meio da rua como na praia de Itacuruçá, dois loucos e intensos apaixonados pássaros noturnos. Ou quando ouço nossas músicas favoritas, ou até mesmo quando chove. E os pingos quentes se equilibrando na borda do telhado em uma tarde de verão construindo um lindo concerto em meio de uma imensidão de silêncio. O silêncio que nós temos pertence a uma sincronia musical perfeita. E meus olhos dizem tanto a ti como em filmes em câmera lenta em próvia. Como uma bailarina flutuante no gelo dando saltos perfeitos que só cabe a ti saber ler. E tu estás a me ler sempre, até mesmo quando está sempre a se negar. 
E os cantos das árvores sempre contam a mesma história a um casal de pássaros. Então eles saem por aí saltitantes cantando em todas as janelas. Inclusive a tua, como naquela manhã após uma noite na qual uma tempestade bela veio nos visitar. Me abraçaste tão forte que meu mundo se tornou pequeno e simples de acalentar. E os anos e os espaços loucos que corremos e tropeçamos tecendo uma encruzilhada de desencontros uma grande manta que nos protege e acolhe. E é exatamente assim como me sinto por ti agora. Protegida e acolhida como sempre deveria ser. Sinto que nós fomos predestinados, mesmo que por um período curto da nossa existência.

22/02/2015

Vamos nos encontrar no cais, meia-noite chego lá com uma garrafa de vinho, desses, bem baratos e doces. Aquilo que chamam de sangria. 
Eu queria transportar meus sentimentos juvenis e tudo aquilo que já senti nesse embaraço de presente. Não havia ninguém por lá a essa hora. Sentamos, jogamos nossas mochilas sob a cabeça e logo deitamos. Lado a lado olhando o céu nublado conversamos sobre o último álbum lançado da Hope Sandoval. Uma conversa vazia sobre algo na qual eu não conseguia interagir. Então sentei e tomei mais goles de vinho a ponto de esperar a sensação de embriaguez cair como um raio, mas não caiu. Reparou como as palavras estão lisas nesse exato momento? Isso! Nesse exato momento que eu estou escrevendo ou você está lendo. Ou sabe lá quem esteja lendo, não importa. - "Querido, você consegue sentir aquilo que sentimos há três anos atrás?" perguntei. Ele olhou pra mim, com um olhar sóbrio, sem riso, sem espanto respondendo com outra pergunta: -"Aquilo o quê exatamente?" E eu: "Ah, aquela euforia de quando nos encontramos pela primeira vez, de quando te conheci com o Gustavo e a Thaís e saímos saltitantes por uma rua que nunca passamos completamente bêbados por esse mesmo vinho, lembra?"
- "Ah, eu lembro, foi uma noite incrível. Tentamos invadir uma casa, lembra?"
- "Jura? Disso eu não me lembrava"
- "Sim, dormimos na casa do Enrique, todos no chão do quarto. E eu fiquei com o Enrique aquela noite e acho que alguém apertou sua bunda"
- "Quem apertou minha bunda?!" 
- "Ah, o Enrique me formou a isso"
- "Que sacana, sorte de vocês que não percebi. De repente vocês apertaram a bunda da Thaís e acharam que era eu. Mas... aquele dia, assim que cheguei na praia, você estava ficando com a Thaís..."
- "Ah, tava hahaha" 
Mas enfim, você sente ainda essa sensação? Está percebendo que estamos aqui, fazendo exatamente a mesma coisa e mesmo assim parece faltar algo? Ele me olhou novamente com aquele olhar vazio, sóbrio e bêbado ao mesmo tempo e respondeu que as luzes continuavam infinitas. Mas as expectativas são menores como as de antigamente. Que os sonhos são mais simples do que antigamente. Assim como nosso senso de imaginação. 
Naquele tempo sentíamos tudo com uma intensidade tão desconhecida de quem não sabe o que virá no futuro. E olha pra gente agora... Temos trabalhos, filhos, aluguéis, crises existenciais, vícios, paixões auto destrutivas, tristezas e fobias. Naquele tempo sonhávamos com o agora. E agora? O que esperar do amanhã? A noite continua como sempre é apenas vista por novos olhos. 

Terminamos o vinho e jogamos a garrafa na primeira lixeira no caminho pra casa. 

03/02/2015

Vou caminhar sozinha por aí atrás de vaga-lumes com uma garrafa de vinho na mão. Eu saí do meu corpo. Vi a praça vazia e viva. A madrugada pertence a nada. Meu corpo leve e flutuante pertence a ela. Então eu me sinto em prantos, acolhida pela minha própria cor pérola. Lágrimas escorregam lentamente e molham meu cabelo flutuante. Acendo um cigarro. Sento no balanço e me inclino olhando o céu. Não sei porquê eu começo a rir ironicamente. Minha alma está lavada com álcool. O vento sopra suave e forte e faz as árvores cantarem em diferentes tons. Gosto quando o silêncio da cidade me permite ouvir a música dos ventos. Sino dos ventos na varanda. Eu estou longe da cidade, numa estrada coberta de flores azuis e vaga-lumes. Meus passos flutuantes levantam as pétalas secas. Secas pelo rocio, pesadas pelo rocio, ofendidas também pelo rocio  porque o vento não as emergem. Me sinto segura. Me sinto salva pelas três da manhã. Não ouço nada, mas ouço tudo. Eu acordo em cima de um epitáfio e giro por cima dele e me elevo. Cada vez que eu giro, eu me elevo bem alto perto da lua. A lua, ela acende minhas mãos. Eu danço com o plenilúnio e me deito até cair como uma pena. Caí por cima das árvores. Eu me sentia tão leve quanto às folhas. Me senti tão em casa que resolvi morar na praça por um tempo. Eu só existia a noite, então toda vez que o vento soprava a vida era tocada de todas as formas. 

20/01/2015

Sempre te amarei no inverno


Se eu pudesse escolher teu nome, seria outro. Embora eu ame o nome que já tens. Assim, me faz lembrar do quanto tua mente é livre. Na última madrugada eu saí do bar para fumar outro cigarro, gosto de ressaltar que deixei de fumar cigarros de filtro vermelho. Ah, não importa! Não compreenderias, tsc, não quero que me compreendas, na verdade. Eu apenas...
Não queria me ocupar das palavras de outras pessoas, palavras soltas e mal formadas e desesperadas e aleatórias. Como esses blocos de notas que a gente encontra perdido, encardido, vazio, cheio de notas pretendidas e não escritas, e não desenhadas e não cuspidas, tão inútil, tão perdido. Como a escrita e um bloco deixou de ser tão íntimo? Se esconde de uma imensidão de letras cravadas na ponta dos dedos, letras também aleatórias e desesperadas por uma palavra indefinida, por uma frase sem sentido, tão pueril e reticente, mas ainda sim insaciável. E ao invés de soltá-las para serem engolidas, eu resolvi escrever pra ti, ou por ti, ou por mim.
Queria ressaltar que além dos cigarros, eu ando me apaixonando por aí. Por cervejas amargas, por conversas inacabadas, por promessas não cumpridas, por ciúmes... por medo de não conseguir mais respirar. Tenho muita, muita vontade de gritar! De correr em direção a ti e ao mesmo tempo sumir do mundo. O tempo é como unguento, a escrita é como anestesia, talvez eu nunca mais o veja na vida.
Talvez eu sobreviva apenas com os fragmentos que restou em mim, ou seja pedaços inteiros, ou montados. Dos teus sorrisos difíceis, da tua mão larga, do teu nariz de palhaço, da tua insana falta de delicadeza. A falta de acalanto em contos perdidos. A raiva descomunal de ter partido. Dúvidas semeadores de desalentos. O vento, o vento, o vento. A partida descomunal, desalentos semeadores de discórdia, e vou me afastando de qualquer memória amarga de sua presença, sendo que a amargura do tempo é a mais viciante das memórias. E tuas melhores memórias me preenchem, palavras pretendidas e não escritas, e não desenhadas e não cuspidas. Vomitadas... é, acho que seria a palavra mais aleatória e repugnante a ser citada, e desesperadas e vazias, e cheias e incompreendidas por um sentimento louco e incontrolável de querer estar mais perto de ti do que nunca. De te admirar mais do que nunca. De te amar mais do que nunca. Mas tu apenas irá digerir palavras e palavras são desintencionadas, promessas tão vulgares quanto pueris e reticentes, mas ainda assim insaciáveis.

15/01/2015

Sinto minha pele derreter nesses quarenta e tantos graus.
Eu estou perdida no meu próprio quarto, noite, não escuto nada além do barulho do ventilador.
Diria que minha mente está em uma dimensão inventada por poetas esperançosos de solidão. 

Eles não vêem o quanto me sinto pequena perto da imensidão do mundo.

14/01/2015

Eu achei que tivesse deixado o isqueiro com um estranho qualquer que o pediu emprestado no último sábado no bar. Estava na mochila o tempo inteiro, acendi o cigarro e esperei o tempo passar na Ponta Grossa enquanto o ocaso se derramava nas elevações do campo em frente a praia. O horário de verão faz com que a cor do sol tenha um tom mais avermelhado depois das cinco, talvez seja a cidade, talvez seja a baía ou a maré. Lembrei de um punhado de palavras que eu deveria ter jogado aos seus pés, provável que a essa altura você ainda os acalentasse. Fechei os olhos e a praia mudou de cor, ainda com os olhos fechados, as árvores deixaram o tom salmão aquecido e se enriqueceram de verde, vivo e vibrante no meio da paisagem cinza com flores amarelas.
O vi a primeira vez sentado no mirante em frente a praia, cabelos medianos e a barba por fazer, estático, olhando para o nada. Usava uma camisa branca abraçado as próprias mãos, entrelaçava os dedos, ria consigo mesmo. Eu não conseguia dizer se a paisagem azulada recepcionava a noite ou a manhã, o tempo parou ali, congelada em seus olhos desde sempre. Carregada em seus olhos desde sempre, mesmo que nunca tenha me visto.
Andava horas e horas para chegar a tua morada toda madrugada. Colégios públicos, ruas vazias, o cais, botequins e casas abandonadas ou até mesmo os casebres no interior da Suécia. Vilas mal vividas, luzes de natal, neve, o frio congelante, a praça central, o calor excessivo, sino dos ventos, um campo vazio, fogão a lenha, viagem astral, eu estava completamente apaixonada.
Palavras avulsas, em meio a todo desastre natural da vida, seu sorriso. Utopias, promessas quebradas, promessas vazias. Essências do verão na madrugada do subúrbio, eu te carregava.
Depois de me ausentar do mundo em seus braços, eu senti que poderia ir pra qualquer lugar. Como naquela noite em que ouvimos nossa música favorita no seu antigo quarto.
Mas ao mesmo tempo, o turbilhão de coisas que carregamos juntos durante todo esse tempo se mistura com a vontade louca de enriquecer de verdades e mentiras. Metrôs sem saída, o universo, gosto de café sem açúcar, seus medos e orgulhos, ofensas e pessimismos, a falta de fé no amor. Um sentimento me carrega mais do que a mim mesma, um caos, um labirinto, um modo estranho de lidar com a vida, os erros, os acertos, o fim de um novo começo, a ausência de poesia... e nada mais.

Sobre a calmaria pintada no horizonte cada vez mais distante.

22/12/2014

Faltavam alguns minutos para noturno, faltam alguns passos para os pés tocarem a areia da orla, o vento que balança as árvores fazendo delas murmúrios e sinos anunciando o fim da tarde - despedida - o vento se torna ainda mais suave como algodão doce. Na pele ele é quente e confortável e sua sabedoria é nua e crua na beira do cais. Aos olhos o horizonte em degradê vespertino em tons laranja e azul marinho nota-se que a paisagem não é a mesma de algum tempo atrás. É que de fato ela nunca foi a mesma. Enquanto refletia, o vento sussurrava os encantos da noite e ele tão íntimo e macio tocava sua nuca e seu pescoço com gotas leve de chuva, nunca se sentiu tão sozinha sem se sentir solitária. Aos poucos os postes dos rodapés foram iluminados com luzes corais. A orla precisava ser enfeitada pelos rapazes que não vêem mais os caminhos decertos para alcançar a sua margem. Jovens náufragos em busca de sereias sem canto, tritão, estrelas do mar, compostos do que a Brisa não tem. É tudo quase sempre o mesmo do que costumava ser, enquanto o vento batia violentamente em sua pele macia, se sabia que bastava sua própria companhia e o gosto doce invadia sua certeza em tons nobres dizendo em voz alta para o mar: Eu não estou deslumbrada. E isso basta, isso basta...

05/12/2014

Ele saiu da galeria como quem sai em rumo ao nada. Em pé na calçada com o olhar distante como a paisagem cinza do centro da cidade, tirou uma carteira de cigarro da jaqueta e eu não pensei duas vezes, como impulsiva que sou eu logo perguntei se ele me emprestava o isqueiro. Ele rapidamente me atendeu acendendo o meu cigarro ao dele. Fui intimada por dois mundos negros como a cor do seu cabelo. Pensei rapidamente em fugir como impulsiva que sou, mas apenas pensei - "Desculpa, eu... eu... enfim, obrigada" e direcionei o meu corpo a entrada da galeria, mas não conseguia mover os pés. 
Então ele me olhou nos olhos como se me conhecesse. Veja bem, eu mal consigo olhar nos olhos de alguém, me senti intimada por seu par de mundo negro, como o contraste da paisagem cinza no centro da cidade. Buzinas e asfalto por todos os lugares, pessoas largando a sua rotina de trabalho com seus uniformes apertados, uma tarde fresca de quinta-feira, nuvens, cultura, mendigos, trânsito, mercado, negócios, músicas, protestos, samba e um conjunto de coisas que o Rio de Janeiro representa. Eu me mantive estática, sabe lá por quantos minutos, segundos ou dias e ele sorriu como se me conhecesse...  
Perdi completamente a noção do tempo, o chão, o guarda-chuva e o ônibus pra casa. 
Acho que minha alma está vagando pela galeria até agora. 

01/12/2014

Sobre a intuição

Estática, palavras voam nas asas das minhas costas passando frio pela nuca incomodando a minha garganta, até conseguir finalmente deixar meus lábios levemente dormentes. Um eu-não-sei-o-que-fazer com a minh'alma, um não-saber que música escolher divagam em todos os lugares que penso em correr. Outro dia meu pai não me olhou nos olhos, ele quase nunca olha, mas não importa. Ele pediu para eu seguir meus instintos. Eu não entendi o que ele quis dizer. Eu quase nunca sei o que a maioria das pessoas querem dizer, eu quase nunca sei o que entender, eu não entendo. Palavras aleatórias correm em minhas veias. Preciso arrancá-las de qualquer forma, daria tudo o que tivesse para não conseguir pensar por um minuto - e quando não consigo não pensar, incomoda pra cacete. Meu cigarro acabou faz umas duas semanas, o de canela (aquele que detesto) também. Aí lembrei que não pertenço a nada, deve ser lindo ter uma cotação patética e orgulhosa de não pertencer a nada, mas eu não penso assim. Eu não me sinto bem assim, eu não faço sentido algum assim. Muitas vezes já pertenci àqueles que vagam as noites com uma garrafa de vinho na mão. Pertencer é um verbo profundo demais para se confundir com algo carnal, é bem puritano, na verdade. A Posse pertence a carne, devem pensar. Pertencer a algo é dividir os segredos da alma. Voltando àqueles que pertenci, alguns eu nem me recordo o nome, outros, eu nem sei por onde andam. Nem sei porquê estou escrevendo sobre isso, talvez nem seja isso que eu queira escrever. Mas o fato é que palavras aleatórias correm em minhas veias e dominam meu corpo como um câncer incurável. 
Talvez eu só precise vomitar para ver o que vai sobrar. 
De dia eu pertenço a mim, mas é pela noite que ofereci minh'alma. 

29/11/2014

Retroceder

Deve haver um caminho, uma direção correta sobre como mover o mundo.
Olhar pela janela e ver raios caindo no horizonte é uma boa maneira de prever o que já está acontecendo: O caos resolveu dar um descanso para os insaciáveis guerreiros do tempo.
Essas estradas que me dão rumo a alma com vida, com esse tino libertino com que encaro minha teimosia. Eu definitivamente me deleito. Me rendo a qualquer trajeto firme de coragem, de dor e sabedoria sem garantia. Afinal, garantir é o verbo de um tolo redundante e o pleonasmo é parido sobre o desespero da insegurança de outrem, outrora uma insistência na certeza morada da esperança.
De afeto contido e sentimentos falidos eu me visto.
Sobre todas essas cores sem nome que deduzo em teu pescoço
eu me perco e
ainda digo de passagem,
que não há volta.

13/11/2014

Tomou banho e molhou os cabelos, às pressas vestiu o sutiã e a calcinha com cores diferentes. Fez um mês que a mala ainda carrega suas coisas, coisa de gente que a qualquer momento pode partir pra sempre, e ela lembra que finalmente encontrou um lugar que a pertence e encontra um vestido azul de tecido fino, fácil de vestir, sem botões e se veste de praticidade por causa do calor excessivo do Rio de Janeiro. Meias azuis, bota marrom porque foi a primeira coisa que ela encontrou pelo corredor, às pressas, sempre às pressas, e ela lembra que gosta de viver o dia como se a vida inteira durasse apenas vinte e quatro horas. E ela lembra que todas as escolhas que ela fez sozinha foram as mais certas, e ela lembra que precisa ganhar muita grana para a próxima viagem.
Ela espera no ponto entediada, tons alaranjados invadem os eucaliptos em seu horário favorito. O vento sopra como em forma de aviso e não há ninguém na rua às três da tarde. E ela quando fecha os olhos pensa em seu lugar favorito, o campo infinito dos pampas, um destino impagável, apalpável e seu filho correndo de um lado pro outro querendo soltar pipas. E o ônibus chega inteiro de desconhecidos, e ela senta na janela, abre o vidro e ouve Ani Difranco no último volume, ela sorri para as casas que correm, o sol pinta as nuvens de rosa, o céu de laranja e seus olhos de amarelo. E ela deixa o vento bagunçar seu cabelo, e pensa o quão íntimo é ser tocada pelo vento em meio de tanta gente linda, e imagina se essa gente sente o mesmo que ela sente sobre a vida. E ela finalmente chega e dá voltas e ela finalmente volta, o sol em tons vermelhos invadem a praia na volta para casa, ela desceu duas quadras antes porque queria ver o sol se pôr do cais. Ela dançou com o vento, deitou e olhou pro céu e reparou que as nuvens ainda apontam o caminho para o colo dele, como nos velhos tempos em que ela ainda não sabia aonde ele morava. 

10/11/2014

Sinto-me rasa. Simples assim: rasa. Mas aí ele me pergunta "o que é ser rasa?" e eu bêbada mal lembro o que respondi. Talvez seja essa falta de profundidade nas coisas, essa falta de entrega, esses campos infinitos e planos que vejo no caminho de sua casa.
Chorar até doer
Rir até doer
Sangrar até doer
Amar até doer

Seja lá qual for a resposta
tudo o que se faz com entrega, dói
Mas é impossível associar a dor com o vazio. 

05/11/2014

Era em um quarto pequeno sem paredes, só havia espaço para um colchão velho e um rádio que ganhei do meu pai no meu décimo segundo aniversário. Então eu ouvia minha rádio favorita o tempo inteiro, sabia que a programação do dia se repetia depois da meia noite. Olhando para a única janela do quarto, pequena e redonda, alta para se alcançar de pé, mas deitada, eu tinha a visão de pequenos fragmentos do céu em meio a casas amontoadas no beco dos anjos. O fato é que por pura sorte, naquela madrugada, eu conseguia ver a lua no meio daquela visão e hipnotizada por ondas de tédio e ternura, senti a melodia vindo tocar meus olhos a ponto de deixá-los bastante úmidos. Aquela melodia tão nova e ao mesmo tempo tão esperada, como um bom presságio sobre quem sabe que passará em uma determinada matéria porque garantiu uma boa nota na última prova ou como aquela paisagem lúdica no final da linha dos trens como naqueles filmes antigos de faroeste que meu pai gosta de assistir. O fato é que me senti carregada por ondas de melodia até a lua e a partir desse dia eu achava que poderia escrever um livro sobre uma noite só ou prever o próprio futuro porque os sonhos haviam se tornado mais simples. Mas não há como prever ou sequer escrever uma linha sobre como a lua deixa vestígios de superfícies incógnitas fora do espaço. Os caminhos em volta dele são feito de luzes estrelares que acompanham o espelho que a lua carrega.

No avião, indo para a sua casa, pude notar esse mesmo caminho por cima das nuvens.
O céu é o espelho inverso do mundo.

29/10/2014

Será que
mesmo quando eu estiver por perto
o vento soprará de forma suave
será que
a noite manterá seu dialeto com a lua
será que
nós manteremos estáticos à espera um do outro
por toda uma vida
de expectativa vazia
será que
cada beijo nos manterá no céu
e o inferno abaixo de nós
nos manterá calados
e durante
a cada olhar descontente
um abismo
cheio desses espaços vazios
que nós insistimos
em pular sempre
toda vez que
achamos que está tudo perdido?

27/10/2014

Livre

O vento
a cidade
o silêncio

cigarros de filtro vermelho
empatia
desespero

destino
ocaso
acaso

seu cabelo
sua barba
seu brilho

o quintal
o latido
a construção

mas por dentro eu escrevo e apago
repetidas vezes 
o vazio
e mesmo vagando pelo campo mais livre
mesmo correndo pelo caminho mais limpo
eu não me sinto livre

16/10/2014

- "Posso te fazer uma pergunta?"
- "Claro. Faz"
- "Ficou chateado quando eu disse que ia morar no Sul?"
- "Chateado não é a palavra certa"
- "E qual seria?"
- "Não sei qual seria, mas óbvio que fiquei triste por saber que você não estará mais aqui"
- "Por isso ficou em silêncio?"
- "U-hum"
(...)
- "Não sei o que fazer"
- "Com o quê?"
- "Com tudo, tudo, tudo..."
- "Hum... Te entendo"
- "Quer esperar o tempo passar comigo?"
- "Nós sempre acabamos fazendo isso, no final das contas... Não precisa pedir."

20/09/2014

Nada

A noite é ampla como a vista da sacada do vigésimo andar. Infinitas luzes brilhando em todo lugar até sumir na imensidão do horizonte, mas o pensamento me carrega para um campo vazio onde ninguém pisa há meses. O rocio veste a grama onde as estrelas refletem nesse mesmo orvalho dividindo a luz do sol pela manhã, talvez uma única prova de compreensão de pensamentos. Fecho os olhos e por um momento consigo sentir o cheiro desse vazio, caminho inquieta pela varanda do apartamento me escondendo dos meus próprios pensamentos, mas eles me carregam, me sofrem e me matam aos poucos. Tudo o que eu queria era esquecer o antes, o agora e o depois. Não há mais sonhos que salvem, nunca esperei ser salva por nada e nem ninguém. 
A única coisa que sei é que o mundo está cheio desses espaços vazios entre os abismos e ao mesmo tempo cheio de nada entre as palavras. 

19/09/2014

O oposto da sua elegia em uma possível tarde de primavera

O sol está prestes a se pôr, a luz em tons laranja acende o cobre dos fios dos seus cabelos castanhos, suas pupilas se comprimem na imensidão do coral dos seus olhos e você os fecha com um sorriso largo e tímido. A praça tem o vestígio vivo da primavera e as lágrimas espalhadas sobre a grama embaixo das árvores de pipoca. Escolhemos estar sóbrios em uma tarde de terça-feira. O vento confessa seus redemoinhos em volta do lago e dança com suas mínimas folhas secas de fim de inverno,

vestígio de que a morte só acontece para um novo recomeço.

17/09/2014

Os dias

Meus olhos que queimam
Minhas mãos desenham linhas inquietas
É que carrego música nos ombros e
me levanto da cadeira e olho pela janela
Lua,
tão pura
tão pura
que meus olhos queimam
e minhas mãos tremem
é que carrego o peso dos dias na alma
deito na cama
olho para o teto
e vejo o céu.

Cada um leva os dias a sua maneira.

12/09/2014

A plea for tenderness 

Condenação

Considero o que sinto apenas como prova de demasia. 
Esse lamurio inconsequente que carrego até às pontas dos pés.
Eu não me movo um passo sequer, por isso.
Não me orgulho disso, como bem sabes. 
Mas o colo do pensamento em que me repouso me condena. 
Que pena.
Que pena de mim. 

10/09/2014

Que pesar essa sensação desesperada de me sentir calma. Não importa que dia é hoje, o que me bastaria viver o presente se eu queria estar nas ruas silenciosas do subúrbio daquela cidade fria? Esse futuro que me dói o corpo de tão incerto. Mas amo o desenho do seu nome que me leva a sentir o peito queimar quando pronunciado. 
Que queime essa ânsia das suas mãos largas, o vinho barato na beira do mar, as ondas mudas tocando as rochas daquela ilha e me ilha, isole essa injúria que me inunda a vida. É quando fecho os olhos que sinto seus lábios me invadindo o juízo e sinto que cada pedaço dos meus sonhos, até mesmo os mais antigos, se fragmentam em cada curva da sua essência. 
Arrastados e humilhados em praça pública, que dias rancorosos são esses que não o tenho. Largar o mundo para que o tenha ou tê-lo a custa do mundo, não importa como de praxe me doa, esses gatunos não fazem de mim nada, sou ladra de mim mesma. E venho dia após dia sabotar meu próprio medo, mas não conheço tão bem a coragem, exceto quando sinto minhas lágrimas quentes escorrerem meu rosto de saudade daquele que me falta. Assim espero conhecer Coragem, tampouco efêmera, cada vez mais íntima a cada imagem que me carrega a alma. 

23/08/2014

Quando palavras de salvação não nos cabem mais, penso no que desenhar nas páginas vazias dos últimos dias. O fato é que mesmo dando voltas e voltas em torno de um futuro incerto, a única coisa que resta nessa batida é manter o mesmo ritmo que nos valsa. Às vezes, balanço contra o ritmo. Você assiste e espera. Fecha os olhos para tentar compreender o som mesmo quando a música acaba. E eu sigo o ritmo desenfreado até começar a próxima música. 
Eu espero que, mesmo no silêncio, você continue valseando sobre a vida comigo.

22/08/2014

O verão em câmera lenta, o cais, o vento, música dos anos oitenta. Olhar a chuva bater nas folhas das árvores da janela do quarto, escrever poemas sobre o nada. O nada. O tudo. O cheiro de pisca-pisca queimado, o natal, o mormaço da primavera. Músicas natalinas, o toca-discos tocando na sala vazia de uma manhã de Domingo. Domingo, samba no rádio do vizinho, calor, churrasco no quintal. Tocar teclado músicas favoritas em noites de sábado, chorar com músicas que te fazem sentir falta do que nunca viveu. Ansiedade. Esperar muito, esperar por pouco o ônibus aparecer na esquina. O vento da praia, andar de mãos dadas, vinho barato, correr contra o vento, sorrir para estranhos, caminhar sozinha, dormir no cais. Astrologia, signo de virgem regido por vênus, afrodite, gritar de emoção, viagem astral. Casa de madeira, neblina de segunda-feira. Esperar o nada, o tudo. Sonhar, ter medo, ter esperança, desesperança e desamor. Sorriso largo, olhos tristes, decepção, encontro, desencontro. Fato, mentira, árvores secas, deserto, ruas vazias, madrugada, o vento, a beira do cais, a meia-lua, a lua, a meia-noite. Subúrbio, a chuva, ah, a chuva! Cães latindo na porta dos vizinhos, filmes desconhecidos, músicas que não consigo saber o nome. Sair a noite sem destino, sonhar com desconhecidos, cores do céu em tons de azul na aurora sem que o sol apareça, ter uma melhor amiga e não a ter mais, desentendimentos, ressentimentos, relacionamentos, a vida.

08/08/2014

Echappé

Desci do táxi as sete da noite, sei que soa estranho escrever por extenso, mas acho que temos intimidade o suficiente para isso. A procura da portaria do prédio, a única referência que eu tinha era que ficava logo em cima de um supermercado e a noite brilhava com a publicidade local em tons de azul marinho e laranja e logo no segundo andar uma sala ao encontro. A sala, uma mistura óbvia de rosa e branco para uma escola de Ballet. Faltavam quinze minutos para a aula experimental começar, sentei-me ao divã também cor de rosa, nada contra rosa, mas o feminino soava tão óbvio para aquela cena que quase pensei que era uma escola feita somente para o universo feminino. Na parede dos corredores fotos de espetáculos da turma de veteranos, plumas brancas e bailarinas com cóques impecáveis. Mas algo ao fundo sonoro me chamava atenção a toda aquela delicadeza ambiental dando contraste a tudo que ali tinha de referência e repentinamente confessado, um jovem rapaz de olhos claros sai de uma das salas eufórico perguntando para si mesmo em voz alta pelo sumiço de suas alunas. Levemente se inclina no bebedouro a minha frente, até que, por delírio nota minha presença: "Você veio para a aula de street dance?" - E eu, falhando a voz respondi: "Não, vim para o ballet clássico" e ele, sem pudor me encarou a alma e dançou com ela infinitamente por nanosegundos e por fim respondeu: "Que pena..."

07/08/2014

Eu não tenho paciência com as pessoas, sei que isso é egoísta pra caramba, mas veja bem, as redes sociais estão fazendo do mundo um caos. Não só pelo excesso de informações desnecessárias (e muitas vezes duvidosas) mas também pelo burbilhão (o que seria isso?) de pessoas carentes precisando de atenção e aprovação de outras pessoas a maior parte do tempo. Caro leitor fantasma desse humilde blog de amores falidos, eu não estou sendo nem um pouco justa, eu sei. E na maior parte do tempo sou assim: carente, necessitando de atenção de outro alguém o tempo inteiro. Mas pela primeira vez resolvi ser transparente ao mundo me dedicando ao movimento do meu corpo ao som de Debussy, dançando em meia ponta no abismo e abaixo o céu. Música liberta a alma da castidade social e sim, não há nada melhor do que dançar sozinha de olhos fechados esperando que ninguém me cure desse vazio gostoso que é a arte de viver em Solitude.

01/08/2014

É que no fundo eu adoraria...

Eu jamais saberia contar com a vida sem uma versão de egos feridos como os retratos das viagens que eu adoraria esquecer. Pela primeira vez em anos, eu não desejaria estar em qualquer lugar no mundo, adoraria e jamais fale comigo em pretérito imperfeito, tudo bem, reafirma. Nada como perder a vida do que não fazer o que no fundo faria. Quem sou eu me pergunto em voz alta, grito até, como em um murmúrio de sábios contos dos anônimos das ruas que sonham com a gentileza da sabedoria compartilhada na praça central. 
É que fundo eu adoraria caber nas suas palavras, gostaria que você me carregasse em seus olhos em todos os lugares que fosse, assim eu não me sentiria tão incomodada com os amores platônicos que você semeia nas estações de metrô, semeie também seu pessimismo em mim, vamos terminar aquela garrafa de vinho seco que compramos no Cabidinho, vamos engolir cada pedacinho de medo que nos prenda até que a garrafa de vinho termine. Amanhã será outro dia, meu bem. Eu não quero ver o tempo passar.

28/07/2014

Sabe, eu não gosto daqueles olhos grandes e redondos que ela tem. Nada contra os amores platônicos de transporte público, exceto que de certa vez ela foi percebida olhando um rapaz do serviço público pelo reflexo da janela do metrô. Eu desaprendi a escrever tem muito tempo, ninguém lê meus textos falidos de amores falidos e ninguém lê também, os dela. Nada de jogo de palavras e rimas. Caramba, por que não demos certo?
"...Acho que não tem muita explicação, assim como não tem muita explicação o fato após de tantos desencontros a gente ainda estar aqui, falando sobre como nós sentimos um com o outro." você diz.
"Lembro da gente comprando vinho no Cabidinho naquela noite, trazendo pra cá de madrugada em copos descartáveis. Aquela foi a última vez que consegui fazer um retrato seu sem que você cobrisse o rosto"
Você aguardou ansioso pelo nosso reencontro, te esperei sair do trabalho naquela livraria em Botafogo, aquela do lado do cinema novo, lembra? Se chama Prefácio, isso mesmo, aonde você tirou um retrato meu com a sua câmera analógica e pediu um espresso e eu como de praxe, um chocolate quente. Sabe que nunca gostei de café e você tentou muitas e muitas vezes me ensinar esse feitio.
Quando subiu as escadas da livraria, ofegante e ansioso, senti meu coração gelar. Todos sabem que o gelo machuca quando se mantém no corpo por muito tempo e a minha alma dói, quando lembro que nunca serei aquela de olhos grandes e redondos da Asa Norte.
Você passa na minha cabeça como um filme de chromo, mas eu não revelo nada. Eu não relevo nada, com você nunca relevei, eu sei. Nunca relevei nada com ninguém e nem comigo mesma, eu sei que estou me devendo isso.
Fiquei reparando quantos detalhes mudaram desde a última vez em que estive no seu quarto enquanto você tomava banho, escorregando no piso de madeira de meias e fixando a sombra daquele adesivo de estrela colada no teto toda vez em que eu fechava meus olhos.
Você diz que não a viu mais e que foi bom tudo ter sido como foi e que a calma consome a sua alma e dessa vez o amor renasce pelo Aterro e aqui estamos contando o tempo, com a sorte e o universo. Ontem  me disse que não queria que nada estivesse no nosso caminho novamente e quando lembro da gente saindo do seu quarto depois de uma longa tarde de conversa e reencontro os seus pais na sala, algo renasceu ali no simples sorriso que seus pais me deram, me senti acolhida e eu tinha me esquecido como era.
Mas hoje, além de Hope Sandoval, eu me destruo com o seu silêncio, gostaria e muito em não aguardar qualquer mensagem sua ansiosa esperando que esse medo bobo de não te ter por perto (da alma) me faça cair em prantos, pois afinal, nunca serei Beatriz ou Mariana e tudo é novo demais, inseguro demais, esperançoso demais, lindo demais... E nada demais faz bem.

09/07/2014

coral e azul marinho

As duas da manhã
as luzes dos postes corais
silêncio na rua oásis
bato na sua porta
e me atende me convidando para entrar
sento no sofá e ele vai até a cozinha e pega uma xícara de chá
mesmo no outono
o vento sopra quente
na rua oásis 
a primavera se torna presente
pelas simples cores das flores noturnas
azul marinho é a cor mais pura
entre o vulgar vermelho das entradas principais das casas corais
mas a sua é verde
com luzes cinzas
como os dias de chuva
e assim eu entendo bem
como o silêncio pode fazer tão bem
ao pensar que
quando tudo o que perdemos
nos fazem ganhar muito mais
do que quando temos tudo

20/06/2014

Há mais de uma semana fico olhando para uma caixa azul com letras brancas. Alguém me disse que aquilo iria inibir a angústia de dias. Me pergunto o tempo todo se sou forte, porque sinto minhas pernas bambas há dias. Será que eu mesma não me conheço? Porque a pessoa que eu jurava me conhecer quer me fazer duvidar disso o tempo todo. Às vezes fico pensando nas senhoras casadas por anos sentadas no meio da praça, trazendo com elas o tempo vazio pelo olhar, agredidas por amar demais os homens que brincam de jurar sentimentos vazios. A cidade inundada por lágrimas de mentira, eles se diziam chorando de tanto rir. Porque para algumas pessoas dominar o mundo não é necessário quando já se manipula uma única entre elas. Ser feliz pela caixa azul se torna um vicio. Sabe, talvez eu tenha muito medo de ser feliz o tempo todo, de viver emendada pelas coisas que não vejo quando estou simplesmente triste. Nada afoga esse peso, mas talvez seja melhor viver assim do que morrer aos poucos.

15/06/2014

Tem uma coisa que não me sai da cabeça.
Você é um cara bonito e rico, é triste e gentil quando está comigo. Não sei ao certo do que precisa, mas gosto de cuidar de quem me faz bem. Eu não sei de qual maneira poderia ajudá-lo, mesmo que esse mundo cheio de coisas vazias tragam um pouco de egoísmo para o seu modo de agir, eu consigo ver seu coração cheio de coisas lindas prontas para explodir quando sorri pra mim.
Sabe lá porquê as coisas são assim, seus pais deveriam te dar mais atenção, seus pais deveriam dar mais atenção a eles mesmos. Enquanto pensarem que os sonhos divagam na memória por puro acaso, jamais entenderão a forma de como eles foram escritos.

09/06/2014

A poça d'água são esses teus olhinhos cansados entrelaçados em minhas mãos enquanto eu mexo lentamente no teu cabelo negro e ondulado. Eu preciso de um cigarro, a saudade é mais amarga que um trago e a sua ausência vicia a falta que tu me fazes.

26/05/2014

...

Ontem a noite reconheci esse buraco no peito que me incomoda por alguns dias. Bebi com estranhos na minha própria casa e a cozinha estava cheia de garrafas de bebida vazias que eu não bebi.
Talvez devesse vomitar cada choro incompreendido, mas não consegui ter uma conversa profunda com nenhum daqueles enquanto chapávamos. Exceto quando fui para a sacada do apartamento fumar um cigarro, um deles se aproximou perguntando se eu estava chorando e eu não soube responder se era a fumaça do cigarro que fazia meus olhos arderem ou se toda aquela situação era deprimida demais para ser admitida, mas nada mais do que isso.
Talvez eu estivesse sonhando ou sei lá, mas você gritou "eu te amo" naquela manhã na rodoviária no meio de tanta gente, talvez não tivesse tanta gente assim. Quando lembro desses dias é como se todo o resto fosse apagado da memória e você dança no meu canto em primeiro plano desde sempre.
Uma noitada dessa não deixa colo para pousar. O céu perdeu seu álibi. Eu já estou acostumada, antes eu desabava por qualquer coisa.
Não se encontram dignos de ouvirem o que tenho a dizer. Tudo é distorcido demais e quantas vezes digo que as palavras limitam. Minha boca é mais próxima dos meus ouvidos do que dos seus. Sou a primeira a ouvir o que falo e a fala tem uma cadência bem diferente da cadência dos pensamentos. Mas o pensando é mais próximo do meu ouvido do que o meu coração, vai ver é por isso que falo tanta besteira, mas não quero te perder da memória e nem se eu quisesse eu poderia.
Luzes corais no fundo do mar, minhas estrelas cheias do [seu] céu. O vento faz redemoinhos e desaparecem em cada esquina. Há uma dívida gigante entre a lua e o mundo. Estática olhando o movimento que esse momento faz, devagar para alguém que se apaixonou rápido demais. Ah, permanece brilhando o vazio do céu essa lua sádica encarando o mundo, o seu mundo mesmo que nem perceba eu estarei aqui contemplando o mar e as luzes corais de cada esquina. As minhas estrelas moram no seu céu, sempre foi assim [e nele, elas se apagarão]

19/05/2014

Elegia de honestidade

Preciso ser honesta comigo mesma. A essa altura imagino que o sol já tenha se escondido atrás de alguma floresta negra, eu quase nunca sei como usar as palavras. Não entendo o que te encanta tanto, mas se soubesse como elas me limitam, se soubesse como essa merda de barreira e milhas de distância atrapalha a vida de todo mundo, sonhar quase sempre se torna vazio em meio disso tudo.
E digo mais, preciso ser honesta comigo mesma. Eu estou cansada de falar sobre o amor porque achava que sabia. E o que me move... O que me move é isso, essa confusão toda que me possibilita saídas. 
Hoje eu e ela tomamos um café em frente ao lago, o sol rebatia o reflexo nos olho dela enquanto dizia que minha vida está resolvida a partir do momento que sei aonde estou. Paramos de falar por segundos e eu preciso ser honesta comigo mesma e "isso é óbvio" (pensamos) e começamos a rir de algo que todos já sabiam: ela, meus pais e todos, menos eu. Preciso ser honesta comigo mesma: Eu sou livre! E me desculpa estar construindo um labirinto sem saída na sua mente sendo tão subjetiva. Mas não quero falar sobre isso, assim abertamente, preciso digerir isso intensamente e por fim, fugir.
Eu odeio escrever quando me sinto assim, assim eu nem sei, dizem que tenho um espírito livre e você não entende que eu simplesmente não tenho. Estou dando volta em palavras... Minha cabeça dá nó a cada segundo e a cada palavra que me é sugerida torna-se limitada e subjetiva supostamente contra a mim, como as uso. E quando penso que as palavras podem ser longas até que chegue na luz desses olhos em que moro, eu paro de escrever.

Me desculpe. 

01/05/2014

Essa semana fui a uma livraria e comprei um bloco de notas sem pauta. Parece um detalhe simples, mas me senti livre para desenhar o que eu quisesse em um caderno vazio de espaços certos de escrita.
Chovia tristeza às quinze da tarde e tocava meu jazz favorito do fundo do espaço de Economia.

Mas eu não tenho motivos para tristeza.

Lembrei de você, que guarda todas as pulseiras que esqueci no seu quarto quando não brigávamos por coisas que até hoje não entendemos. Lembrei do modo como você move o mundo com o seu sorriso, do cheiro de café das livrarias que íamos juntos e de filmes que deixamos de revelar porque possivelmente revelaria nossa imagem juntos deixando-o em uma caixa de desapegos emocionais em uma campanha de dia dos namorados em uma livraria que nunca fomos juntos e eu sorri quando o fiz, mas não foi um alívio.

Lembrei do nosso primeiro beijo na rua principal do centro da cidade quando senti meu coração parar de ver tudo o que estava em volta. Das nossas tardes fotografando os prédios altos, os gatos nos parques e um ao outro como se não houvesse mais nada de belo nesse mundo simples.

Lembrei das tardes que dormiamos esperando o tempo juntos parar, isso mesmo, parar. O tempo corria demais quando estávamos juntos, esse foi o ponto chave para tudo desmoronar. Eu tive receio, você teve pavor. Eu não sabia aonde estava pisando, você sabia o quanto isso iria nos causar. Mas senti meu coração parar de ver tudo em volta e corri na direção que o desconhecido aprecia: O caos.

Lembrei da forma de como você se sentiu inseguro, eu falei tanto e tanto e não disse nada. Porque não havia coerência nas palavras que eu dizia e não havia coerência nos atos que você tomava, mas senti meu coração parar de ver tudo em volta e corri na direção que o amor não perdoa: O caos.

Mas a principal lembrança que eu tenho é que esqueci o motivo de ter fugido disso tudo. F
Faria tudo de novo.